Coronavírus: como mães vêm lidando com gestação e maternidade em plena pandemia

Por Natalie Rosa | 09 de Maio de 2020 às 08h00
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Dois mil e vinte está causando uma grande reviravolta no mundo. Desde março, aqui no Brasil nós estamos vivendo uma pandemia devido à alta e rápida propagação do novo coronavírus, que provoca a doença COVID-19. Vem sendo um momento alarmante em todo o planeta, aliás: principalmente por existir um grupo de risco com pessoas que podem ser mais afetadas pelo problema.

Neste grupo de risco estão idosos com mais de 60 anos, pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias, aqueles que têm diabetes ou estão se tratando do câncer, e conforme anunciado mais recentemente, segundo o Ministério da Saúde, as mulheres grávidas.

O cenário de pandemia, além de ser ameaçador para a própria saúde da mãe e do recém-nascido, acaba virando uma realidade além do que era esperado. Devido à recomendação de isolamento social, uma vez que o novo coronavírus tem a capacidade de se propagar rapidamente e de maneira fácil, os planos comuns para uma gestação já não são os mesmos.

Nada de chá de bebê, com bolo, docinhos e parentes. Nada de ensaio fotográfico, academia, fisioterapia. Até mesmo as consultas e exames de rotina, seja no pré-natal ou após o nascimento do bebê, provocam medo e angústia. Para entender melhor como essas mães estão lidando com a pandemia e com a chegada de mais um Dia das Mães, o Canaltech conversou com quatro mulheres que estão passando por isso para contarem suas experiências.

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Primeiras reações

Marianne Karman, de 26 anos, recepcionista de hotel, contou que recebeu a notícia da pandemia quando estava no último trimestre de gestação e que estava trabalhando normalmente, atendendo hóspedes de vários lugares do mundo. Essa realidade de trabalho, na época, começava a ser mais perigosa, pois o vírus estava vindo de pessoas que viajaram à Europa, principalmente para a Itália, onde o cenário foi catastrófico.

"A cada dia que passava, eu sentia mais a urgência de me afastar dali para me resguardar, porque a gente sabe que a imunidade na gravidez não é das melhores. Mas a informação que tínhamos era que o grupo de risco eram idosos e diábeticos ou cardíacos", conta Marianne, que pouco tempo depois conseguiu pegar um atestado de licença.

Para a designer freelancer Anielle Casagrande, de 32 anos, a ficha começou a cair quando sua mãe começou a divulgar muitas informações sobre o novo coronavírus em suas redes sociais, sempre bastante preocupada, e quando seu sogro dizia para ela começar o isolamento. Um dia antes da pandemia, ela chegou a viajar para o Ceará e, quando voltou, começou a ver a realidade do que estava acontecendo. "Quando voltamos de viagem, já estava faltando coisas nos mercados, era um cenário totalmente diferente de quando viajamos, foi muito assustador", relata.

Anielle diz ainda que a gravidade da situação foi confirmada em uma conversa com a obstetra, que pediu para ela só sair de casa para as consultas. “Ela estava em verdadeiro pânico, desesperada mesmo, e foi muito firme quando me mandou não sair de casa. Tanto que ela fechou o consultório em um primeiro momento e desmarcou todos os pré-natais e partos de 2020 inteiro, incluindo o meu", diz.

No caso de Juliana Barros, professora e maquiadora profissional, o isolamento em sua cidade chegou do dia para a noite, com o anúncio de que no dia seguinte tudo seria fechado. Logo de início, a preocupação era com a profissão de maquiadora, que precisa de contato humano. Hoje, ela está grávida de 39 semanas e prestes a ter o bebê em um cenário no qual a crise só aumenta. "Não são dias fáceis e a gente precisa se controlar ainda mais para não afetar esse serzinho que está dentro de nós", diz.

Camila Marcos, gerente de contas de 28 anos, grávida de cinco meses, conta que descobriu a sua gravidez quando estava em intercâmbio nos Estados Unidos e no Canadá, ainda em fevereiro. Lá, o cenário já era de alerta com os primeiros casos, trazendo a preocupação então da possibilidade de o novo coronavírus chegar ao Brasil. Camila diz ainda que no início da gravidez descobriu estar com anemia, sofrendo ainda com enjôos e vômitos diários, o que prejudicou a sua imunidade.

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"Eu entrei no home office já no final de fevereiro, minha empresa deixou eu trabalhar em casa por eu já estar debilitada fisicamente para não correr mais riscos", conta, afirmando que está há mais de dois meses em isolamento e evitando ao máximo sair de casa, saindo apenas quando tem consultas com médicos, mas abusando da proteção com máscara e também luvas.

Indicações médicas

As mulheres receberam orientações diferentes em relação a como lidar com a possibilidade de contaminação, mas sempre com os mesmos cuidados: higienização das mãos, uso de máscaras e isolamento social. Marianne disse que o único conselho recebido foi a sugestão de optar por uma cesárea, pois no ambiente cirúrgico, as chances de contaminação são menores.

Anielle também relata um conselho em relação ao parto, mas com uma opção diferente. "Estão pedindo (com mais vigor que antes) que as grávidas vão para o hospital apenas com 8 centímetros de dilatação e optem, preferencialmente, por um parto normal para ficar o menos tempo possível no hospital", conta a futura mãe. A designer diz ainda que enfermeiras estão sendo enviadas para as casas das grávidas para verificar se está tudo bem antes de irem ao hospital, e que doulas e fotógrafos estão sendo proibidos em alguns locais.

No caso de Juliana, mulheres grávidas ainda não eram consideradas grupo de risco no início da pandemia. "Entre o novo coronavírus e a dengue, o médico disse que tinha mais medo da segunda, porque todo mundo esqueceu que para a gestante ela é cruel. Sobre a COVID-19, as instruções foram as mesmas do restante da população", diz.

A recomendação médica dada a Camila foi para que ela se preocupasse em manter a imunidade forte com a ingestão de sucos verdes para o aumento da quantidade de ferro no sangue, entre outros truques. Mas a preocupação com a doença foi maior por ela ter um parente que foi diagnosticado com COVID-19, passando 20 dias internado na UTI. Felizmente, ele vem apresentando melhora. "Foram 20 dias sem reação, sem melhora, em um quadro muito preocupante por ser uma pessoa nova: ele tem 36 anos e não tem nenhum tipo de problema de saúde, é consideravelmente forte, mas o vírus acabou fazendo com que ele fosse entubado e fosse para a UTI", conta.

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O impacto

Juliana conta que quando a pandemia começou e o comércio fechou ou ficou restrito, ainda faltava muita coisa para a organização antes do parto da filha que está esperando, e que foi frustrante ter que fazer tudo online e ainda ter que cancelar o chá de bebê — que é um momento de reunir família e amigos. "Cada dia que eu conseguia comprar algo que faltava, era um alívio na alma, sensação de que você está procurando algo impossível, que quando consegue é mais que uma vitória", disse a maquiadora, contando que montar o enxoval do bebê foi um processo trabalhoso.

Mas a falta de um chá de bebê foi compensada por uma nova tendência chamada "charreata", em que parentes e amigos passam na frente da casa da futura mãe de carro, deixando presentes na porta e fazendo homenagens. "Totalmente de surpresa. Foi emocionante saber que não estamos sozinhas em meio ao isolamento, foi de um carinho e gratidão imensos", relata.

Em relação ao pré-natal, Juliana conta que o acompanhamento continua normal, mas que consultas extras, como com psicólogos, precisaram ser canceladas e que isso faz muita falta neste momento. Com o pré-natal sendo realizado no SUS, ela conta que os agendamentos são feitos com horários mais espaçados para evitar o fluxo de gestantes, entre outras medidas.

"Cadeiras afastadas, triagem com distância, álcool em gel em todos espaços e máscara. Estão tomando o máximo de cuidado, exames também estão sendo marcados em horários mais espaçados evitando a aglomeração em salas de espera", relata.

Anielle conta que o choque de realidade também foi grande, pois ela e o marido tinham o costume de filmar tudo nos dias de exame e consulta, transformando a espera do bebê em uma grande festa. "De repente começou um clima pesado", desabafa. A designer conta que não é permitido entrar com acompanhantes nas visitas, e que eles precisam esperar no corredor ou ainda no carro.

"Ainda bem que alguns lugares vendem vídeos dos exames e algumas fotos, o que minimiza a estranheza dessa situação. Ontem fui fazer um ultrassom e percebi um sofá grande para umas quatro pessoas na sala do exame. Tradicionalmente, as pessoas costumavam levar as famílias nos exames, lembrei", relata Anielle, contando ainda que os primeiros dias foram os mais assustadores.

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A gestante disse que nos primeiros locais em que foi fazer exame, após o início da pandemia, foi pedido para que ela não deixasse as roupas no banheiro, pois não tinham como esterelizar o ambiente a cada paciente. "Me pediram para colocar as roupas no chão, sobre o meu calçado. É tudo muito estranho e com essas situações você começa a ficar preocupada quando sai de casa. Não tem como esterilizar o banheiro, mas e o resto dos ambientes e objetos? Cadeiras, copos, maçanetas, portas, macas, mesas, canetas, catracas... eu nem tinha pensado nisso antes!", desabafou.

Marianne acabou de ter o bebê, Otto, que nasceu no dia 1º de maio. Ela conta que a expectativa era o dia 27 de abril, quando as 40 semanas foram completadas, e que o médico também recomendava a cesárea pensando nos riscos de um parto normal e a exposição ao vírus. No dia do nascimento, a cirurgia foi feita e o medo da contaminação veio, principalmente quando precisava de ajuda para amamentar ou quando Otto era transportado pelas enfermeiras.

"Passamos na frente da casa dos meus sogros, que apenas olharam o neto pelo lado de fora do carro. Desde então, não temos saído de casa e torcemos para que não seja preciso ir muito ao médico, apenas o necessário das consultas do recém-nascido", diz. Marianne revela que está enfrentando dificuldades para amamentar e que vem recebendo ajuda do plano de saúde, que vem atendendo por telefone. Porém, a sensação ainda é de desamparo.

"As dicas que eu ouvi eram de coisas que eu já sabia, que vinha fazendo e não estavam funcionando. A prática é dificil e sozinha em casa o desespero foi enorme. Sorte minha de ter contato com algumas mães por WhatsApp que me deram dicas que realmente salvaram esse momento tão importante", completa. Em relação ao futuro, o medo continua tomando controle da situação, pois o filho ainda precisa de uma vacina, mas a mãe acredita que o seu caso ainda é mais tranquilo em relação a outros.

E as consultas? Como fazer tudo sozinha na gestação? Segundo Camila, suas consultas foram comprometidas, principalmente pelo pai não poder estar presente, como forma de segurança. "Estou de cinco meses e só consegui fazer três ultrassonografias. Uma para descobrir que realmente estava grávida, outra para fazer a medição e outra para descobrir o sexo", conta. O pré-natal do mês de abril não foi feito, pois as consultas presenciais estão sendo reduzidas, e ainda faltam exames a serem feitos para checar a sua imunidade.

A gestante também sentiu falta das comemorações. "O chá de revelação eu não pude fazer. Era um momento no qual queríamos juntar as pessoas de que gostamos , nas não pudemos. A minha filha vai nascer em setembro e não sabemos se vamos ter um chá de bebê", conta a gerente de contas, dizendo estar esperançosa que a situação melhore até lá, acreditando que o pico da curva aconteça entre junho e julho. "Se não for possível, infelizmente, não temos o que fazer", completa.

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Assim como muitas grávidas, Camila diz estar conformada que festas e ensaios fotográficos não vão acontecer, dizendo ainda achar que o período após o nascimento será mais complicado. "É um momento em que tanto a mãe quanto o neném estão fragilizados fisicamente e eu precisaria de total apoio. Então estarei restrita a receber pessoas para verem a Antonella e a mim, e se nada der certo até lá, passando o período eu penso em fazer um chá de boas-vindas", finaliza.

Mesmo quando passar o período de isolamento, é ideal que as restrições de contato humano ainda sejam aplicadas. É um cenário que, até o momento, aqui no Brasil, é uma incógnita. Cabe a cada um fazer a sua parte para evitar que mais pessoas sejam contaminadas, assim como grávidas e mães com seus recém-nascidos.

A dica de Anielle é a seguinte: quem puder, que curta esse momento e evite pensar no futuro da pandemia, ou nos casos e mortes envolvendo mães ou bebês, vítimas do coronavírus. "Por incrível que pareça, a gravidez traz muitas coisas boas (para pesquisar, para ler, para descobrir, para assistir), então em geral pensamos pouco na pandemia. Estamos tentando focar na parte gostosa da montagem do enxoval, mesmo que esteja sendo online", completa.

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