Comitê se reúne para criar novas regras sobre edição de DNA humano

Por Rafael Rodrigues da Silva | 15 de Agosto de 2019 às 23h10

Quando, em novembro do ano passado, o cientista chinês He Jiankui revelou que havia editado os genes de dois bebês numa tentativa de torná-los imunes à AIDS, a comunidade científica mundial entrou em choque. E o que também chocou a todos foi o fato de que o cientista chinês não sentia nenhuma culpa pelo que havia feito, pois afirmou que seguiu todas as regras definidas para as experiências de manipulação genética em humanos.

Em 2017, um comitê da Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina havia criado uma espécie de “manual” que deveria ser seguido por qualquer pesquisador que tivesse interesse em fazer experimentos de manipulação de DNA em humanos, como é o caso da técnica CRISPR, que vem tomando os holofotes nos últimos tempos. O manual dizia que, caso o cientista tenha o aval da sociedade e siga à risca diversos critérios de segurança (como editar apenas genes que foram completamente provados como sendo o causador de doenças, conduzir uma série de experimentos de sucesso em animais antes de fazer a mudança no gene humano, e possuir diversos mecanismos para garantir que a edição do gene não atrapalhe o desenvolvimento do paciente ao longo de todas as fases da vida), e He Jiankui tinha absoluta certeza de que todos os itens presentes nele foram garantidos — por isso, o cientista não via nenhum problema no experimento que havia feito.

Mas, de acordo com Richard Hynes, biólogo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e um dos líderes do comitê que se reuniu em 2017 para definir as tais regras, ainda que o experimento do chinês tenha sido realmente antiético, é possível que as regras criadas pelo comitê precisem de revisão, pois o caso mostrou que nem todos os cientistas possuem o bom senso necessário para entender que a ideia do “manual” criado pelo comitê ia além das regras estipuladas por ele.

Essa não é a primeira vez que a comunidade científica se mostra preocupada com as regras criadas em 2017. De acordo com Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick (Inglaterra), já desde a criação da série de condutas alguns cientistas pedem para que se crie regras mais específicas e detalhadas, pois o modo como elas foram organizadas davam abertura para que alguém fizesse algum experimento de edição se preocupando apenas com a parte técnica e sem se importar sobre a discussão ética para a execução de um experimento desses — e o anúncio de He Jiankui mostrou que existiam pessoas prontas para conduzir esses experimentos muito mais cedo do que o comitê esperava.

Assim, na última terça-feira (13), a Comissão Internacional no Uso Clínico de Edição do Genoma Humano na Linha Germinal se reuniu para discutir a criação de novas regras, mais detalhadas e menos ambíguas, para que se efetuem experimentos de modificação de DNA em embriões humanos.

Segundo Lovell-Badge, o novo “manual” para experimentos genéticos com embriões humanos deverá trazer então uma série de regras mais rígidas para que as experiências de alteração genética em embriões humanos sejam consideradas como válidas, deixando claro quais experimentos devem ser feitos em animais antes de se começar o teste com humanos, o quanto de informação se deve ter sobre o gene que se pretende editar, e o modo preciso de se fazer a análise de DNA do embrião para se assegurar que não houve nenhum erro na edição de gene antes de iniciar o procedimento de inseri-lo em um útero humano e começar o desenvolvimento desse embrião modificado.

Aberto à interpretação

Um dos maiores problemas das regras seguidas atualmente pelos cientistas é que elas ou não levam em consideração diversos casos específicos, ou estão muito abertas a interpretação, o que permite que cientistas sem muita preocupação com a ética possam realizar esses experimentos sentindo que estão com a razão.

Um caso que não consta nas regras atuais é o de “diagnóstico genético pré-implantação”, que são os casos de casais portadores de doenças genéticas onde não há chance de que os filhos não desenvolvam essa doença optarem por fazer uma análise e edição de seus genomas em laboratório, fazer a fertilização in-vitro e então implantar no útero da mulher o embrião com o gene responsável pela doença já modificado, fazendo assim com que os filhos não sofram da mesma doença genética que corre na família. Esse caso, que era meio que ignorado no relatório atual, será bastante esmiuçado nas novas diretrizes.

Outro problema existente nas regras atuais são os diversos casos que permitem uma interpretação bastante ampla — inclusive foi uma dessas interpretações que permitiu com que o chinês fizesse seu experimento com os bebês. Nas atuais diretrizes, um dos motivos que pode ser alegado por cientistas para efetuar a modificação é o de que existam circunstâncias médicas que exigem o uso de alteração de DNA, mas não especifica o que exatamente são essas circunstâncias.

Assim, He Jiankui defende que seu experimento não quebra nenhum padrão ético, pois ele foi feito com o intuito de proteger as crianças do vírus HIV, e que essa seria a circunstância médica que justifica o uso da modificação de DNA humano. O problema é que existem diversos outros métodos para prevenir que uma criança não nasça com o vírus HIV que não necessitam de edição genética; assim, seria necessária uma definição mais apropriada de o que seriam as tais “circunstâncias médicas” para evitar que outros pesquisadores usem as diversas possibilidades de interpretação da regra para justificar seus experimentos considerados antiéticos pela comunidade científica.

Ainda que muitos fora da comunidade considerem mais simples proibir todos os experimentos de edição genética em humanos, essa não é uma solução considerada pela ciência. Isso porque, ainda que hoje seja impensável imaginar um experimento deste tipo que seja completamente seguro, a velocidade com que a ciência e a medicina têm evoluído ocasionará com que logo experimentos deste tipo sejam completamente seguros, e por isso um banimento não é algo interessante para a constante evolução da ciência — até porque as técnicas de edição genética podem sim ser um caminho para a solução de doenças que até o momento são incuráveis.

O “truque” agora é criar regras que possam ajudar a comunidade a entender exatamente quando esse ponto da total segurança será atingido, e o quanto ainda é preciso evoluir os processos para que cheguemos a este ponto. Assim, enquanto as regras criadas em 2017 eram focadas nos princípios que deveriam gerir esse tipo de pesquisa, as novas regras irão focar nos detalhes práticos para que essas pesquisas possam ser realizadas.

A nova comissão pretende criar toda uma “estrutura regulamentar” que possa ser usada não apenas por laboratórios particulares, mas também por governos de todo o mundo, para que possam entender melhor os riscos existentes em tratamentos de edição genética e criar suas próprias leis de regulação desses experimentos. Até o momento, experiências de modificação genética em humanos são proibidas na maioria dos países da Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália, enquanto todos os outros lugares do mundo não possuem nenhum tipo de regulação quanto a esse tipo de coisa.

Por enquanto, ainda não há uma data para quando as novas diretrizes para experimentos de modificação genética em humanos estarão disponíveis, mas a previsão é de que elas sejam publicadas no terceiro trimestre de 2020.

Fonte: STAT

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