Com aumento da vacinação, estudo clínico da ButanVac deve enfrentar desafios

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 15 de Julho de 2021 às 14h44
Elements/davidpereiras

Até agora, as vacinas da primeira geração contra o coronavírus SARS-CoV-2 seguiram um mesmo modelo de testes. Para obterem a aprovação de uma agência reguladora, recrutaram voluntários para as três fases dos estudos clínicos e usaram um grupo placebo, randomizado com duplo-cego, para comparar a eficácia das vacinas. No entanto, o cenário da COVID-19 mudou e muitas pessoas já estão imunizadas, o que deve dificultar os estudos de novos imunizantes, como a ButanVac.   

No Brasil, a adesão à vacina da COVID-19 bate recordes e chegou a 94% da população, segundo pesquisa do Datafolha. Neste cenário, será difícil encontrar voluntários para se imunizarem com vacinas em fase de testes, principalmente quando puderem receber um imunizante com eficácia já comprovada e permissão de uso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) distribuído gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). Para muitos, será trocar o certo pelo incerto. 

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Para validar eficácia da segunda geração de vacinas contra a COVID-19, cientistas precisarão adotar novos métodos (Imagem: Reprodução/Elements/Stevanovicigor)

Quais são as alterativas para os novos testes das vacinas?

Aparentemente, o Instituto Butantan, responsável pelo desenvolvimento da ButanVac, já tem esse cenário em mente e, por isso, planeja que os testes sejam acelerados, o que garantirá uma maior participação de voluntários. No plano ideal, o estudo clínico deve durar 17 semanas e poderá envolver mais de 5 mil voluntários. 

A vantagem desse desenho de estudo é que, apenas na Fase 1, os pesquisadores adotarão um placebo. Esta etapa já foi inciada e envolve somente 418 voluntários, de 18 a 30 anos. Tendo em vista que as cidades brasileiras ainda não aplicaram pelo menos uma dose em todos os adultos, a opção pode ser vantajosa. Uma opção não cogitada é a de ampliar os testes para países mais atrasados na vacinação contra o coronavírus, onde seria possível atrair um maior número de interessados.

Na Fase 2, será estudada a imunogenicidade e a resposta imunológica que os participantes do estudo desenvolverão contra a COVID-19, a partir da aplicação das doses. Diferente das outras pesquisas até agora, as etapas finais do estudo serão de comparação, ou seja, os resultados serão comparados aos das vacinas já descritas, permitindo inferir sua eficiência, sem o uso de placebos. Nas fases finais, o estudo deve abranger pessoas de 18 a 60 anos e inclui aqueles já vacinados contra a COVID-19 pela campanha nacional. 

Entenda o método de não inferioridade

De acordo com a presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), Natalia Pasternak, o estudo clínico da vacina ButanVac contra a COVID-19 deve seguir um princípio chamado de não inferioridade, ou seja, quando se avalia o desempenho a partir de dados já obtidos anteriormente com outras vacinas.

É como se o estudo buscasse comprovar se a vacina de segunda geração “é pelo menos tão boa quanto a [oferta] que você já tem”, comentou Pasternak para o jornal Folha de São Paulo. “Se usarmos a CoronaVac como grupo-controle da ButanVac, teríamos que mostrar que a ButanVac protege tanto quanto a CoronaVac”, esclareceu.

A estratégia deve levar mais tempo e custar mais caro, já que o estudo precisa ser ainda maior do que os anteriores para obter resultados significativos. “Estaremos comparando dois grupos de pessoas vacinadas, portanto, precisamos de mais voluntários para conseguir atingir um número de eventos [pessoas doentes] que tenha significância estatística”, afirmou Pasternak. 

ButanVac deve comparar efeitos da vacina com a de outros estudos já concluídos (Imagem: Reprodução/_Tempus_/Envato Elements)

De acordo com a pesquisadora, "não é ético, quando você já tem vacinas aprovadas no mercado, conduzir um teste clínico controlado por placebo. Você estaria deixando de vacinar uma parte da população dando placebo". Isso justificaria o modelo de estudo da ButanVac.

Anvisa aprovou também estudos de vacina com placebo

De forma oposta aos testes da ButanVac, a Anvisa autorizou, na quarta-feira (14), que testes clínicos de Fase 3 ocorressem no país com um placebo. Desenvolvida pelo Instituto de Biologia Médica da Academia Chinesa de Ciências Médicas (IMBCAMS), o potencial imunizante contra a COVID-19 será validado a partir de comparação de pessoas que se imunizaram e de outras que não estão protegidas.

No total, 34 mil voluntários serão recrutados entre os centros do Brasil, Malásia, Bangladesh, China e México para a terceira e última etapa de testes da fórmula. No caso brasileiro, serão 7.992 pessoas, divididas entre Goiás, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

"O estudo a ser realizado no Brasil é parte de um estudo que está sendo realizado na China e em outros países. O delineamento de um estudo controlado por placebo ainda é considerado metodologicamente adequado para avaliar a segurança e eficácia da vacina, considerando também que ainda há uma grande parcela da população não vacinada, desde que se leve em conta a possibilidade de acesso dos voluntários às vacinas disponíveis, em um curto período", defendeu a agência, em nota.

Fonte: Com informações: Folha de S. PauloInstituto Butantan e Anvisa

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