Brasil pode se tornar o berço de variantes perigosas do coronavírus; entenda

Por Natalie Rosa | Editado por Luciana Zaramela | 08 de Março de 2021 às 09h20
Reprodução: Pete Linforth/Pixabay

Cientistas estão preocupados com o surgimento de novas variantes do coronavírus no Brasil. Segundo os especialistas, o cenário enfrentado pelo país atualmente, envolvendo o início da vacinação, o processo lento de imunização e a transmissão fora de controle do vírus, pode tornar todo o local em uma máquina de criar mutações.

Para entender melhor como isso pode acontecer, a BBC entrou em contato com pesquisadores da Imperial College London e da Universidade de Leicester, ambas no Reino Unido. Os cientistas explicam que o contato de pessoas vacinadas com as variantes pode resultas no surgimento de mutações ainda mais potentes e perigosas, capazes ainda de não serem barradas pelos imunizantes. A situação fica ainda pior quando a vacinação acontece em ritmo lento e em um cenário de taxas altas de infecção.

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Imagem: Divulgação/Rawpixel

De acordo com Julian Tang, virologista da Universidade de Leicester, a variante de Manaus, batizada de P.1, é a mais perigosa quando em contato com pessoas que acabaram de ser imunizadas. Isso porque quando a cepa entra em contato com a célula humana e se encontra ainda com poucos anticorpos, sua replicação pode provocar o surgimento de mutações ainda mais resistentes. "Se você é vacinado numa segunda-feira, você não está imediatamente protegido. Leva algumas semanas para os anticorpos da vacina aparecerem e você ainda pode se infectar pelo vírus original ou pela variante P.1", conta o especialista à BBC Brasil.

Esse risco de multiplicação poderia ser menor se as infecções estivessem sob controle e se a variante não tivesse se espalhado por todo o país, pois o coronavírus original tem chances menores de se conectar em grandes quantidades nas células de uma pessoa que já foi vacinada. No entanto, a mutação E484K, da variante de Manaus, consegue afetar o ponto principal de ligação entre os vírus e as células, facilitando a conexão e reduzindo a potência dos anticorpos.

Tang alerta que quanto menos cuidado as pessoas tiverem com o distanciamento social, maiores são as chances de que o vírus seja propagado e crie novas variantes que podem sobreviver quando em contato com a vacina. A declaração do cientista é confirmada por Peter Barker, do Imperial College London. "Isso vai acontecer principalmente se você tiver uma situação de epidemia de grande porte num país com sucesso moderado de vacinação. Você alcança assim o equilíbrio perfeito entre pessoas imunes e infectadas. E, quando essas populações se misturam, há risco de surgir uma nova variante resistente às vacinas", revelou o professor na entrevista.

Imagem: Reprodução/Rawpixel

Maioria de variantes

Os especialistas no assunto também acreditam que, se a situação do Brasil continuar em descontrole, a variante de Manaus pode acabar prevalecendo no país mais do que o coronavírus original. Até o momento, a P.1 já foi encontrada em pelo menos 10 estados do país, com Manaus sendo o epicentro. Segundo Charlie Whittaker, pesquisador do Imperial College London, a variante da capital do Amazonas é cerca de 1,4 a 2,2 vezes mais transmissível que o vírus original, sendo capaz ainda de provocar reinfecções em 25% a 61% dos casos.

"Quando essas variantes entram em contato com pessoas que já foram infectadas, há uma pressão para que elas mutem mais, encontrem uma maneira de reinfectar pessoas previamente imunizadax. A combinação de uma epidemia prévia com uma nova grande epidemia, em que pessoas que já teriam imunidade são reinfectadas, gera um ambiente propenso a mutações. Achamos que isso é o que aconteceu no contexto brasileiro", explica Whittaker à BBC.

A variante de Manaus já saiu do Brasil, sendo identificada em 25 países. "Se você tem um celeiro de produção de vírus num país, se você não controla a transmissão, vai ter mutação ocorrendo por seleção natural, se essas variantes viajam pelo mundo e algumas delas escapam totalmente ou parcialmente às vacinas, é claro que é um risco", alerta Julian Tang.

Até o fechamento desta nota, o Brasil já conta com quase 11 milhões de pessoas infectadas pelo coronavírus desde o início da pandemia e mais de 260 mil mortes, mostrando um descontrole na propagação da COVID-19.

Fonte: BBC Brasil

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