Liberdade e proximidade com o público: YouTube é a nova casa dos jornalistas

Liberdade e proximidade com o público: YouTube é a nova casa dos jornalistas

Por Nathan Vieira | 26 de Maio de 2020 às 15h58
Reprodução

Quando falamos de era digital, colocamos na mesa alguns pontos: mudanças e transformações. A ascensão das redes sociais acabou proporcionando muito mais proximidade entre as pessoas, principalmente quando se trata de um criador de conteúdo e seu público. Uma área fortemente afetada por essa nova era foi a comunicação. O papel de informar as pessoas, que antes pertencia a veículos como o impresso, a televisão e o rádio, foi aos poucos sendo distribuído também para a internet.

Paralelamente, uma verdadeira safra de jornalistas deixou o seu posto para abraçar esse mundo novo, e gradualmente, a casa de muitos desses profissionais da comunicação passou a ser, especialmente, o YouTube. Mas o que leva essa plataforma a se tornar tão atrativa para jornalistas que foram se afastando cada vez mais de falar ao público pela televisão para passar a falar pela tela do computador e do celular? Em busca dessa compreensão, conversamos com especialistas dessa área.

De acordo com Suyanne Tolentino de Souza – jornalista e coordenadora do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o YouTube não exige os mesmos padrões de uma emissora de TV tradicional, pois tem uma apresentação mais livre e mais próxima do público receptor. A plataforma em questão também tem como característica a proximidade com o público, pois as respostas são imediatas, e ainda permite uma maior visibilidade, com direito a conteúdos exclusivos que ficam cada vez mais personalizados. “Hoje, é importante pensar que não é mais uma coisa ou outra – TV ou YouTube – são os dois, e ainda as outras redes sociais. Neste sentido, muda o jornalismo e a comunicação, que se torna mais fluída, integrada e convergente. Isso não é mais uma tendência, é uma realidade”, afirma.

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Higor Gonçalves, especialista em gestão estratégica de marca pessoal (personal branding), ressalta que o YouTube tem a missão de "dar a todos uma voz e revelar o mundo", e que seus pilares se baseiam na liberdade de expressão, no direito à informação, no direito à oportunidade e na liberdade para pertencer.

Higor analisa que o YouTube caracteriza-se por ser a maior plataforma de compartilhamento de vídeos do mundo, com conteúdos audiovisuais dos mais variados: de videoclipes megaproduzidos, a tutoriais de maquiagem e beleza, passando por receitas de bolo caseiras, matérias jornalísticas e vídeos amadores de situações engraçadas do cotidiano. Além disso, detém uma audiência global gigantesca e possibilita o estreitamento do relacionamento do criador de conteúdo com públicos diversos por meio de conteúdos que estimulam, sobretudo, a interatividade.

O especialista em personal branding frisa que a vocação para influenciar pessoas sempre existiu na humanidade. Desde tempos remotos, imemoriais, sempre houve quem exercesse influência sobre o comportamento de pessoas próximas, como familiares e amigos; ou mesmo sobre populações inteiras: é o caso, por exemplo, de artistas, sacerdotes, atletas, políticos, cientistas e pensadores, dentre outros indivíduos que sempre influíram em sociedades locais ou até mundiais.

A influência digital é um fenômeno pós-moderno, cujo surgimento ocorreu na primeira década do século XXI, a partir do advento de plataformas digitais de interação. Neste contexto, chegamos à definição do conceito de influenciador digital: indivíduo e/ou perfil que possui um público engajado em seus canais de interação online, e que, em alguma medida, influencia diretamente o pensamento, o comportamento e as atitudes de centenas, milhares ou milhões de pessoas.

“No YouTube, o creator é dono do próprio canal e autor do conteúdo que publica. Não existem amarras editoriais, como aquelas impostas por publishers e veículos de comunicação tradicionais, conforme falei anteriormente. Os únicos compromissos do criador de conteúdo são informar ou entreter a sua base de inscritos/seguidores, respeitando as regras estabelecidas pela própria plataforma, e, claro, pela legislação vigente”, aponta Higor.

YouTube e Jornalismo

No entanto, o especialista em questão salienta que a televisão não está morrendo, como alguns chegaram a prever, mas sim que a experiência é que está sendo transformada. A história mostra que uma mídia não subtrai a outra: elas passam a coexistir. Por esta razão é equivocado enxergar as novas plataformas como rivais e não como aliadas. “Por que o YouTube tem se mostrado atraente aos jornalistas? Principalmente, porque coloca os meios de produção nas mãos dos profissionais. Com "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", conforme decretou Glauber Rocha em referência ao cinema entre os anos 60 e 70, é plenamente possível aos jornalistas do século XXI trabalharem sem, necessariamente, dependerem de uma empresa ou de um patrão”. declara. Higor acrescenta que outros três fortes motivos são a liberdade editorial, à revelia de um publisher; a oportunidade de alcançar novos públicos, literalmente no mundo inteiro; e a possibilidade de manter ou ressignificar a própria carreira.

Suyanne também bate nessa tecla, alegando que a independência, a liberdade de expressão e a possibilidade de assumir a própria linha editorial são fatores que contribuíram para essa migração que vieram paralelamente ao fechamento de muitos veículos tradicionais, então nesse sentido, o próprio jornalista teve que se reinventar. “O YouTube é um mercado promissor também em termos de publicidade, pois o investimento em publicidade no YouTube e em plataformas digitais vem superando o das TVs abertas”, observa a coordenadora do curso de Jornalismo, que reitera, ainda, que comodidade e facilidade de produção – o que não significa baixo investimento e baixa qualidade — também são fatores responsáveis por essa mudança.

Para Suyanne, ser YouTuber é uma coisa e ser jornalista é outra, o que não significa que um jornalista não possa ser YouTuber. A profissional aponta que há mais liberdade quando se pensa que existe uma variedade enorme de conteúdos que podem ser trabalhados, divulgados, e que cada um tem uma linguagem própria, que não segue os padrões impostos pelas emissoras de televisão — que aliás mudaram muito com a expansão do YouTube. “O jornalismo sério ainda tem muito espaço a conquistar no YouTube, mas é preciso entender que, enquanto jornalistas, nosso compromisso ético e moral será sempre com a informação, esta é a nossa matéria-prima, independente sobre o que estejamos falamos ou o assunto que tratamos”, explica.

Além disso, Suyanne diz que essa nova forma de comunicar, de falar, de tratar a informação vai ter que ser trabalhada nos próximos anos. "Vamos ter que pensar a linguagem que vamos ter para cada perfil de público". Inclusive, existem pesquisas que mostram que a criança de 2020 não vai consumir informação da mesma forma que consumimos, por exemplo.

Outro ponto enfatizado é que as linguagens do YouTube e da televisão são diferentes porque as próprias mídias são distintas. “Na televisão nós temos uma estética da imagem, até mesmo porque a abrangência é maior, ou seja, cada programa atinge uma grande audiência, não temos um público tão nichado quanto no YouTube. Por isso, a televisão ainda é um meio que ainda exige uma formalidade maior, embora muitas coisas tenham mudado”, observa a coordenadora do curso de jornalismo da PUC.

Suyanne esclarece que o YouTube tem uma linguagem de mais intimidade com seu público-alvo, porque é mais fácil saber para quem se está falando, mas tanto na TV quanto no YouTube é preciso ter um planejamento, um roteiro, qualidade de gravação. No Youtube também não há espaço para amadorismo. Por mais que ele pareça descolado, é preciso de um profissionalismo.

Migração da TV para o YouTube

No jornalismo, não faltam nomes de profissionais que deixaram seus veículos para investir no YouTube. Uma referência é a Mara Luquet. Em 2017, ela deixou a emissora em que trabalhou por quase 10 anos para, alguns meses depois, fundar o MyNews, que define-se como um canal independente de jornalismo no YouTube. Atualmente (março de 2020), o canal possui 347 mil inscritos.

Recentemente, no início de março, a apresentadora Astrid Fontenelle começou um novo capítulo da sua carreira no YouTube. Após 32 anos apresentando programas em emissoras de TV, ela inaugurou há pouco tempo o próprio canal, com todos os vídeos produzidos em sua casa.

Com toda essa questão em mente, o Canaltech conversou com Monique Cardone, que anunciou em 2018 sua saída da Globo e do SporTV para dedicar-se ao seu canal no YouTube, chamado Mitadas com Monique Cardone. A repórter estava desde 2012 no Grupo Globo, onde começou como estagiária.

"Acredito que não deixei o jornalismo por completo. Claro que 80% do meu trabalho no YouTube hoje é entretenimento, mas tem o meu lado jornalista ali também. Eu considero que migrei do jornalismo tradicional (que está em decadência, na minha opinião) para outra forma de produzir conteúdo", afirma a criadora de conteúdo.

Monique ainda opina que um dos motivos para buscar um novo modelo de comunicação (como YouTube e Instagram) foi que as empresas de mídia tradicional ainda não enxergam a Internet (e as redes sociais) como presente, e sim como futuro. Reforça, ainda, que atualmente, presta serviço para algumas empresas na área de mídias digitais que considera ser o “jornalismo moderno” – que é o futuro da profissão, em seu ponto de vista.

Para Monique, a principal vantagem da migração do YouTube para a televisão é produzir no seu tempo, trabalhar no período que ela rende mais, e não no horários de uma empresa. "Outra vantagem importante é que as redes sociais te possibilitam ser você mesmo. Hoje eu trabalho para mim. Não preciso pensar na linha editorial da empresa e se ela também está alinhada com as minhas ideias. Eu produzo e divulgo o que eu quero e me responsabilizo sozinha por todo conteúdo postado nas minhas redes sociais", conta.

Outro fator apontado pelos especialistas e reforçado por Monique é a proximidade com o público. "Quando você tem mais tempo para se dedicar a um projeto, no meu caso o Canal e as redes sociais, você consegue interagir com o público: ler, responder, ouvir o que eles querem. E isso faz muita diferença. Eu adoro essa troca, essa resenha. Com certeza é o que mais me motiva", expõe a criadora de conteúdo.

Por fim, questionada sobre a razão pela qual tantos jornalistas fizeram o mesmo, deixando a TV e passando para o YouTube, Monique responde que é porque o modelo da TV tradicional está em decadência. "É claro que têm exceções e ressalvas para determinados conteúdos. Falando de modo geral, os jovens e crianças hoje estão consumindo cada vez mais desenhos no YouTube; interagindo em redes sociais como Tik Tok (febre do momento). Antigamente, o jovem queria ser ator/atriz de Malhação. Hoje, eles querem ser blogueiros e YouTubers famosos. Se isso não é um termômetro para o que já é e o que está por vir... eu não sei de mais nada".

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