Educadores e jornalistas têm conteúdo afetado por novas práticas do YouTube

Por Rafael Arbulu | 10 de Junho de 2019 às 10h11
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Na última semana, o YouTube anunciou novas medidas de moderação de conteúdo com o intuito de coibir a proliferação de vídeos e canais que fizessem apologia à supremacia racial, preconceitos à sexualidade e também à negação de eventos históricos comprovados. Mas, ao que tudo indica, a nova prática está funcionando bem demais: segundo relatos de vários produtores de conteúdo da plataforma, o YouTube está eliminando vídeos e canais inteiros sem avaliar contexto, incluindo aí material informativo e educacional, como vídeos de jornalistas, ativistas e educadores.

O caso mais proeminente é o de Ford Fischer. O youtuber é um jornalista independente que, por meio de seu canal, especializou-se na cobertura política global e pautas sociais, como extremismo e racismo. Em seu currículo no canal, haviam gravações feitas na passeata de supremacistas brancos e neonazistas Unite The Right, em Charlottesville, Virginia, em 2017, bem como diversas edições de Paradas LGBT em vários países. O conteúdo produzido por Fischer é constantemente usado por educadores, seminaristas e palestrantes dos tópicos relacionados.

Dois vídeos de seu canal acabaram removidos do YouTube segundo as novas normas: em um deles, o famigerado supremacista branco Mike Enoch falava à uma plateia, meses antes da passeata Unite The Right. Em outro, Fischer gravou grupos pró-Palestina e pró-Israel se reunindo para debater contra um “negador” do Holocausto Nazista. Como ambos os vídeos podem ser entendidos pelo algoritmo do YouTube como “conteúdo nazista” ou “supremacista”, ambos foram removidos sem consideração ao seu caráter informativo.

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Mais além, todo o canal de Fischer foi removido do programa de monetização destinado a youtubers e promotores de conteúdo da plataforma, efetivamente eliminando uma de suas fontes primárias de renda. Fischer argumenta que é injusta a percepção do YouTube em relação ao seu conteúdo, já que ele não prolifera discursos de ódio, mas usa de seus meios para criar material informativo. A “desmonetização” de seu canal não oferece nenhum tipo de recurso a ele.

“Também deveria importar a eles se os criadores de conteúdo estão sendo pagos de forma justa”, ele disse ao The Verge. “Eles não ligam para o suporte econômico da comunidade”.

O jornalista independente Ford Fischer, que usa seu canal no YouTube para veicular suas reportagens, teve vídeos removidos e seu canal "desmonetizado" pelas novas políticas de moderação da plataforma da Google (Imagem: Reprodução/Breitbart)

Fischer não está sozinho: Jared Holt, um repórter investigativo que cobre especificamente a extrema direita e a chamada “direita alternativa”, teve um vídeo seu restringido pela plataforma. O vídeo em questão tinha foco em Rick Wiles, um teórico conspiracionista de pautas supostamente antisemitas.

O YouTube não teceu comentários sobre nenhum dos dois casos, mas ressaltou que, pelos seus termos e documentação técnica de moderação, a plataforma depende de times que analisam os vídeos antes de removê-los ou escondê-los. Segundo a empresa, 99,3% dessas análises vêm de material automaticamente marcado pelo algoritmo de machine learning empregado pela plataforma, mas sempre um analista humano é quem decide pela remoção ou manutenção do material. O YouTube também reconhece que “alguns desses conteúdos possuem valor para pesquisadores e ONGs que buscam entender o ódio para poder combatê-lo, e estamos explorando opções para torná-los disponíveis a eles no futuro”.

O problema com isso é que, ao contrário de Holt, que pertence à uma organização privada (ele trabalha para a Right Wing Watch), Fischer é totalmente independente e custeia suas produções com o próprio bolso. Sem a monetização publicitária de seu canal, lhe resta apenas doações via plataformas de financiamento coletivo. Segundo ele, elas são insuficientes pois trazem “apenas algumas centenas de dólares por mês”.

“Você pode se reinscrever [ao programa de monetização] como se você fosse um novo criador de conteúdo, depois de 30 dias”, ele explicou ao The Verge. “Mas isso não é um recurso ou uma apelação — eles querem que eu passe novamente por todo o processo, entrando no meu canal e removendo coisas sem explicação ou contextualização. Isso não é algo plausível para eu fazer e eu não sei nem se quero isso. Muitas das minhas gravações que eles poderiam considerar controversas já foram usadas em esferas governamentais, políticas, e são historicamente importantes”.

Fonte: The Verge

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