O impacto do teletrabalho e tele-educação em tempos de confinamento

Por José Otero | 31 de Março de 2020 às 07h30
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Mais uma vez, são ouvidas vozes hiperbolizando a capacidade das tecnologias. De repente, o confinamento obrigatório a que muitos de fomos forçados nos últimos dias ou semanas tem um impacto menor do que em outros tempos. Desta vez, não há desculpas e a interrupção no trabalho ou nas tarefas pedagógicas simplesmente não será possível.

Duas grandes forças, o teletrabalho e a tele-educação aparecem como ferramentas que permitirão uma certa normalidade ao mesmo tempo em que controlam a propagação da pandemia. Embora exista alguma verdade nessa visão da realidade, ela ainda é simplista e ignora o impacto das inúmeras lacunas digitais presentes no país.

Considere o impacto e o escopo do teletrabalho. Por definição, essa atividade só pode ser realizada por quem depende de um computador para trabalhar e pode executar todas as suas tarefas de trabalho sem nenhum problema. Quantos funcionários possuem em sua casa um computador com todos os programas necessários para concluir o trabalho que foi feito historicamente no escritório? Quantos desses computadores terão acesso aos arquivos do seu empregador através de uma rede virtual privada (VPN)?

Se mudarmos o foco para a tele-educação, a pergunta inicial seria quantos professores primários / secundários ou universitários fizeram cursos de pedagogia que indicam as diferenças no ensino em um ambiente presencial contra a transmissão de informações em um ambiente virtual? Em seguida, continuaríamos com quantos foram treinados no uso de plataformas educacionais, como o Moodle ou o Blackboard, e como eles adaptaram o material a ser ensinado na sala de aula ao curso on-line?

Então, temos o impacto que o teletrabalho e a tele-educação podem ter sobre os indivíduos que começam a usar essas alternativas. Por exemplo, quando se trata de tele-educação, se focarmos nos alunos, o Instituto de Tecnologia e Estudos Superiores de Monterrey identificou oito estágios que aqueles que têm acesso a uma sala de aula virtual precisam enfrentar: conflito, negatividade, medo, resistência, desânimo, a busca por oportunidades, confiança e, finalmente, integração e sucesso. Os educadores estão preparados para acompanhar seus alunos em cada uma dessas fases?

Obviamente, quando falamos sobre o impacto e os benefícios do teletrabalho ou da teleducação, inferimos que estamos falando de residências com conexão à Internet de alta velocidade. Se olharmos para os números da Pesquisa TIC Domicílios (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação - Cetic), observamos que em 2019 70% da população tinha conexão à internet, contudo apenas 43% da população utilizou computador para acessar à internet, predominantemente, os acessos no Brasil continuam sendo por celular. Sem pensar nas diferenças ao trabalhar ou acessar material educacional com uma conexão de 10 Mbps versus alguém que se conecta a 1 Gbps.

Então, se lembramos de assuntos um pouco mais cotidiano, o que acontece quando, em uma casa com um único computador, as necessidades de teletrabalho e tele-educação criam um conflito entre as pessoas que vivem sob o mesmo teto? Você não pode ignorar a equidade no acesso à Internet que pode existir no local de trabalho ou a instituição educacional é perdida quando as pessoas se afastam desses locais. Nem todos os alunos ou funcionários têm o mesmo número de computadores, ou tipo de conexão com a Internet em casa.

O teletrabalho e a tele-educação são duas ferramentas importantes que tornam mais flexível a execução de tarefas específicas. No entanto, é relevante estar ciente que seus beneficiários constituem uma minoria da população. Por esse motivo, é imperativo que qualquer plano nacional de conectividade inclua medidas para educar sobre os benefícios e oportunidades que o teletrabalho e a tele-educação oferecem à população. Deixar de fazer isso é manter um status quo em que os mais privilegiados são os principais beneficiários das tecnologias da informação e comunicação (TIC).

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