360 Reality Audio | Sony quer revolucionar a música com conceito espacial

Por Luciana Zaramela | 25 de Novembro de 2019 às 14h56
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Recentemente, uma nova tecnologia tem feito barulho internet afora — e sem perdão para o trocadilho, afinal, foi de propósito. Chamada de 360 Reality Audio, a novidade já chegou em alguns aplicativos de streaming de música e promete um som mais imersivo e real do que as tradicionais gravações que estamos acostumados a ouvir nas plataformas.

A premissa do 360 Reality Audio é tornar o som tão realista e intimista a ponto de te fazer sentir-se dentro de uma sala de concerto, de um estúdio de gravação com a banda completa ou mesmo diante de um palco, só que usando headphones, completamente "na sua". O legal disso é a audácia que a Sony teve de transformar uma gravação digital em uma experiência que chega a lembrar o conceito de captação binaural, ou seja, traz aquela noção espacial ao ouvinte, porém, com mais "canais".

Sons individuais da gravação são destacados do conjunto e posicionados virtualmente em um palco sonoro para dar a impressão de campo mais aberto, mesmo em fones de ouvido totalmente fechados. Isso traduz exatamente a intenção dos artistas, e para quem ouve, é como se a música ficasse circulando ao seu redor.

O som "passeando" em volta da sua cabeça — essa é a ideia (Imagem: Divulgação/Sony)

Bateria ao fundo, guitarra na esquerda, teclado na direita, vocal no centro, backing vocals recuados para a esquerda, contrabaixo e percussão stereo, mas localizados um pouco mais acima, entre o vocalista e a bateria... dá para imaginar? Pois é, com a nova tecnologia, dá até para sentir.

A tecnologia

Como o próprio nome indica, 360 Reality Audio é uma tecnologia nova que traz um áudio que "circula" ao redor do ouvinte, trazendo uma dose cavalar de realismo. O desafio da Sony era criar, a partir de gravações já existentes, uma forma imersiva e totalmente diferente das gravações que conhecemos hoje nos serviços de streaming para que a música soasse o mais realista possível, sem que o usuário/ouvinte precisasse desembolsar nada em equipamentos caríssimos de áudio, como fazem os audiófilos com seus fones, caixas, conversores e amplificadores.

No vídeo abaixo, você conhece melhor como funciona — desde a captação até a audição.

De acordo com Mike Fasulo, COO da Sony Electronics North America, em entrevista para a Forbes, a ideia básica do 360 Reality Áudio é trazer mais fidelidade ao streaming. Como? Remasterizando as trilhas usando, em vez do padrão estéreo, um novo método que direciona os instrumentos em cada trilha da gravação rumo aos nossos ouvidos. Para isso, é preciso criar vários pontos imaginários diferentes em um ambiente virtual e esférico.

Imagine um palco simples, como o de um café ou um pub, com uma banda se apresentando ao vivo. Se você se sentar bem de frente a ele, vai ouvir o som da bateria vindo lá do fundo, da guitarra à sua direita, do baixo à sua esquerda, porém levemente recuado, dos teclados também recuados, posicionados em uma das laterais do palco, e do vocalista à frente, por exemplo. Com a tecnologia, é possível "sentir" isso na gravação como se você estivesse no lugar onde a banda estava quando tocou a música (imaginando uma apresentação single-take com todas as trilhas gravadas ao mesmo tempo). Agora, tente imaginar isso tudo com uma orquestra filarmônica. A tecnologia vai tentar traduzir para o digital todo o espaço ocupado pelos músicos da forma mais realista possível.

Como os caras fazem isso?

Imagine sua música favorita agora, na sua cabeça. Imaginou? Pronto, então pense que todo o trabalho que foi feito nos estúdios, desde a captação até a mixagem e masterização, terá de ser "desmembrado" para que ela soe totalmente diferente nos seus fones de ouvido, como se tivesse muitos canais... tipo um home theater físico, só que ainda mais avançado, mesmo que virtualmente.

Para entender todo o processo, o Canaltech conversou com André Mendes, Gerente de Produto para a categoria de Áudio da Sony Brasil, que conta como a Sony chegou até essa nova tecnologia. "A Sony pretende deixar de ser apenas uma fabricante de fones para entregar também uma experiência de áudio muito maior [para o usuário] do que ele teria simplesmente usando um fone de ouvido", relata o executivo.

Trocamos uma ideia com André Mendes, da Sony, sobre o 360 Reality Audio (Foto: Divulgação/Sony)

Basicamente, um fone stereo é composto por dois canais que, em mixagens tradicionais, dividem os instrumentos da gravação "para a direita e para a esquerda", por assim dizer. Com o 360, os engenheiros conseguem essa espacialidade ao remasterizar e remixar, com todo um hardware especial e proprietário da Sony, gravações existentes que simulem até 50 canais ao redor da cabeça do ouvinte. "Você consegue posicionar os instrumentos em volta do cliente", explica André, que emenda: "Se você fechar o olho, consegue perceber que o cantor está um pouco mais à frente, que a bateria está um pouco mais atrás" — como em um palco virtual.

Para gerar os resultados com o áudio 360, os engenheiros da Sony tiveram que retratar cuidadosamente cada trilha disponível, ou começar tudo do zero (no caso de novas gravações voltadas especificamente para a tecnologia, como as do DJ Mark Ronson), com mesas e mixers específicos e destinados exclusivamente ao áudio espacial. Apesar de os fones mais recentes da Sony entregarem "o resultado perfeito", por assim dizer, a empresa afirma, no site do 360 Reality Audio, que o ouvinte pode usar os fones que tem em casa, desde que sejam de alta qualidade, para terem uma noção e já perceberem a diferença.

No entanto, para se retirar todo o potencial do áudio 360, a Sony recomenda seus últimos modelos, que pegam o arquivo e modelam da forma exata que o artista quer que soe fora do estúdio. Aqui no Brasil, apenas quatro contam com esse suporte: WH-1000XM3, WF-1000XM3, WH-XB900N e WF-1000X. "O fone de ouvido consegue fazer uma 'remasterização' do áudio [360] antes de reproduzir para o usuário. Quando a gente pega uma música mais antiga, gravada em dois canais, por exemplo: eletronicamente, vamos dizer assim, o fone está dividindo [aquele sinal] em diversos canais e reproduzindo para o usuário".

WH-1000XM3, o melhor modelo da Sony disponível no Brasil (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Artistas já gravam em 360

Alguns artistas estão começando a se aventurar no terreno de sonoridade virtual espacial da Sony e gravando seus discos usando a tecnologia já dentro do estúdio. É o caso do DJ, produtor e arranjador Mark Ronson. "É como se você estivesse vendo a banda na sua frente", comemora.

Além dele, nomes como A$AP FERG, JAKE MILLER, Lauren Jauregui, lovelytheband, MAX, MØ, SNAKEHIPS, TOM ODELL, TOVE STYRKE e Gilles Peterson também sentiram e aprovaram suas próprias músicas mixadas com a nova tecnologia.

Para o quarteto de rock irlandês Kodaline, em entrevista à Sony e à Live Nation, a tecnologia tem tudo para ser transformadora. Segundo o baterista Vincent May, "ela tem o potencial de mudar completamente como as pessoas vão compor música ou a maneira que a música é mixada e como o usuário final experimenta essas sensações". E completa: "Parecia que eu estava sentado na minha bateria realmente tocando. A definição estava demais. O grave era incrível".

Jason Boland, baixista da banda, também deixa sua impressão: "Deram um salto à frente, por serem capazes de simplesmente mapear a maneira que sua cabeça está em uma sala e fazer isso diferentemente para cada um de nós. É óbvio que o Steve [vocais, gaita, guitarra] irá escutar um show diferente do que ouço ao vivo, pois sou um pouco mais alto. Mas, isso acontecer em headphones é simplesmente surpreendente".

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A evolução do áudio: do jeito que o artista quer

Na indústria fonográfica, a gente já passou por vários padrões de áudio — e quem tem 30 anos ou mais vai se lembrar muito bem dos bolachões que nossos pais colocavam na vitrola e que também chegamos a curtir na infância e adolescência. De lá para cá, muita coisa mudou: saímos da era dos LPs e cassetes e vimos o despertar do padrão de áudio digital que culminou na febre dos CDs, ou compact discs, que traziam áudio limpo, sem ruído de agulha nem magnetismo de fita, em amostragem de 44100 Hz, dois canais de 16-bit PCM e resposta de frequência de 20 Hz a 20 kHz (tal como a da esmagadora maioria de fones comercializados hoje em dia). Todo esse tecniquês quer dizer que o sinal analógico de áudio era captado e convertido em um padrão que ficou conhecido como Red Book, que "reconstruía" o áudio analógico digitalmente.

Depois disso, uma enxurrada de formatos de áudio partiram do WAV e AIFF (não comprimidos) e foram se comprimindo para facilitar o compartilhamento em sites e clientes específicos via internet. Daí vimos surgir o famigerado MP3 (em diversos bitrates) e variações como AAC, WMA, FLAC, fora uma infinidade de codecs.

E hoje, as trilhas mixadas no padrão Sony 360 Reality Audio incrivelmente não ficam gigantes como um arquivo WAV ou AIFF. São praticamente do mesmo padrão FLAC de alta resolução, ocupando por vezes o mesmo ou até menos espaço — por isso o streaming em diversas plataformas acontece de maneira tão "redonda".

WF-1000XM3, um "WH em miniatura" (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Para André, a novidade é tão rica em detalhes que a Sony pretende, com ela, conquistar até audiófilos — ou criar novos amantes da música em altíssima definição pelo nível de detalhamento e espacilialidade. "A gente foi perdendo a qualidade do áudio, porque se comprimia demais. Em contraponto, a indústria sempre desenvolveu produtos que traziam uma fidelidade alta de áudio. Mas de ouvir, ali no streaming, você acaba não utilizando todo o potencial que um produto premium tem. Você usar um fone hi-res para ouvir um conteúdo comprimido do streaming chega a ser uma judiação", comenta.

Com o 360 Reality Audio, a evolução se deu com o objetivo de trazer o que a banda pensou no estúdio ao ouvido do usuário final — de maneira que pudesse ser transmitida por aplicativos de streaming. "Se você fechar o olho, claramente você consegue transcender-se e imaginar o nível de qualidade e detalhe" que foi gravado em altíssima qualidade, do jeito que os artistas queriam que chegassem, enfim, aos seus fãs.

1.000 músicas até o fim do ano

Se você assinar um serviço que conta com a tecnologia da Sony, vai perceber que não é todo o catálogo da plataforma que "funciona" em 360, até porque não basta apenas converter uma música, um álbum ou uma playlist para o padrão, como se faz de WAV para MP3, por exemplo. É necessário refazer todo o trabalho.

André revelou ao Canaltech que, até o final do ano, a meta da Sony é entregar 1.000 músicas no novo padrão aos streamings de música no Brasli. Já existem muitos álbuns e playlists sendo anexadas todos os dias, aliás. E por ser uma tecnologia nova, até o momento desta matéria só encontramos um disco de um brasileiro nas plataformas de Streaming: Deodato 2, do tecladista de jazz Eumir Deodato — que, ironicamente, é muito mais agraciado por seu exímio talento lá fora do que aqui dentro do Brasil (como acontece com tantos jazzistas brasileiros). Ainda não se sabe se já temos artistas brasileiros gravando músicas novas com o 360 Reality Audio, nem se discos já conhecidos estão na fila da remasterização para chegar ao streaming.

Em quais plataformas o 360 Reality Audio está disponível?

Por enquanto, aqui no Brasil, apenas dois serviços de streaming contam com suporte para o novo padrão: TIDAL, Deezer e nugs.net (todos com degustação de 30 dias). É necessário fazer uma assinatura especial, que gira em torno de R$ 50, para desfrutar da espacialidade do som. A Sony está trabalhando para, em breve, trazer a novidade também ao Spotify e ao Amazon Music HD aqui no país.

Vale lembrar que a tecnologia está tão otimizada para os fones da Sony que a empresa, inclusive, faz um rastreio das orelhas do usuário (via aplicativo) para entregar o melhor resultado possível do áudio espacial — com o máximo de pessoalidade, inclusive, já que a anatomia da orelha influencia no conjunto todo. Esse aplicativo é o Headphones Connect, proprietário da marca e que acompanha seus últimos lançamentos de fones sem fio. O app, aliás, permite ao usuário controlar uma série de parâmetros da música, que vão desde equalização e simulação de campo até nível de cancelamento de ruído (quando disponível). Ele "conversa" com o app de streaming e controla o fone usado pelo ouvinte.

O Canaltech fez um teste do novo padrão de áudio com dois fones de ouvido da Sony, dois fones de outras marcas e até caixas de som. Em um próximo artigo, a gente te conta como foi nossa experiência e o que achamos da nova tecnologia. Fique ligado!

Fonte: Com informações: Forbes, Sony/Live Nation

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