Reportagem afirma que Tesla está escondendo o número de acidentes em sua fábrica

Por Rafael Rodrigues da Silva | 06 de Novembro de 2018 às 22h15
Benjamin Zhang/Business Insider
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Depois de todos os problemas com posts polêmicos no Twitter que levaram ao afastamento de Elon Musk da presidência do conselho da Tesla, dessa vez a empresa não precisou de seu CEO controverso para ver seu nome envolvido em mais uma polêmica.

De acordo com uma reportagem publicada pela Reveal (uma organização de jornalismo investigativo sem fins lucrativos), a fábrica da Tesla em Freemont, no estado da Califórnia, tem escondido casos de acidentes ocorridos dentro das dependências para mostrar uma melhoria na segurança do local.

A reportagem revela que a clínica interna da empresa utiliza diferentes métodos para diminuir a contagem de acidentes com trabalhadores durante o expediente. A organização utiliza de depoimentos de cinco ex-funcionários da fábrica para provar o caso, inclusive o de Anna Watson, auxiliar médica que trabalhou na clínica da Tesla durante três semanas em agosto deste ano.

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Problemas estruturais

De acordo com os testemunhos, a fábrica proibia que funcionários ligassem para os serviços de emergência sem o consentimento dos médicos da clínica, alegando que o motivo era que essas ocorrências seriam arquivadas nos hospitais e disponibilizadas para o público. Segundo esses antigos funcionários, ao invés de ambulâncias a equipe de médicos da Tesla costumava usar o aplicativo Lyft para conseguir motoristas que os levassem ao hospital mais próximo, evitando que esses acidentes fossem catalogados como ocorridos durante o trabalho.

Outro problema reportado pelos ex-funcionários é o de que os médicos da empresa pararam de receitar fisioterapia como forma de tratamento para lesões, porque, de acordo com as regras da Divisão de Segurança e Saúde Ocupacional da Califórnia (Cal/OSHA), quando a clínica interna de uma empresa recomenda um tratamento com fisioterapia a um trabalhador, a lesão deve ser automaticamente classificada como ocorrida durante o serviço.

Já Watson revela que, durante as semanas em que trabalhou na clínica em agosto, os relatórios apenas daquele mês aos quais ela teve acesso serviriam para pelo menos dobrar o número de acidentes ocorridos dentro da empresa divulgado como a contagem oficial. De acordo com a ex-assistente, o principal objetivo da clínica era manter o maior número possível de pacientes fora dos registros oficiais, mesmo que isso influenciasse de maneira negativa o tratamento e a recuperação dessas pessoas.

Mudanças na política de tratamento

Confrontado pelos repórteres do The Verge, Basil Besh, cirurgião ortopédico que é o responsável pela Acces Omnicare empresa que cuida da clínica da fábrica da Tesla em Freemont desde junho deste ano) afirma que o real motivo dos números de casos de acidente oficiais terem diminuído não foi porque a empresa dele estava escondendo informações, mas sim porque a empresa que cuidava da clínica anteriormente, Premise Health, inflava os números de acidentes na fábrica, e agora eles estão apenas “pondo a casa em ordem”.

Besh afirma que, por não ter médicos capacitados e deixar apenas enfermeiros atendendo no local, a empresa anterior tratava qualquer caso da mesma maneira: dando ao funcionário um atestado para ficar alguns dias em casa se recuperando. De acordo com o cirurgião, isso fazia com que vários funcionários fingissem lesões para ganhar alguns dias de folga.

Ao ser perguntado sobre as alegações dos ex-funcionários, Besh se defendeu afirmando que qualquer funcionário tem a liberdade de chamar uma ambulância em casos de emergência, quando o acidentado corre risco de morte ou de ter um membro amputado, mas que a diretiva de sua equipe é que não sejam chamadas ambulâncias para qualquer problema sem gravidade, pois seria uma a menos para atender emergências reais em outros pontos da cidade.

Já sobre parar de prescrever exercícios de fisioterapia para os funcionários da empresa, Besh confirma que isso realmente acontece por causa das regras de acidentes em local de trabalho da Cal/OSHA, afirmando que ele acha absurda a regra de que qualquer torção ou mal-jeito em um músculo ser classificado como acidente de trabalho caso seja prescrito um tratamento fisioterápico para o problema, acrescentando ainda que essa é uma regra claramente criada por alguém que não possui experiência em clínica.

Besh ainda afirma que sua empresa tem, sim, tomado medidas para diminuir o número de acidentes dentro da fábrica da Tesla, mas que a reportagem da Reveal interpretou mal as intenções dela para essa diminuição dos números oficiais de acidentes, que só tem acontecido porque a Access Omnicare enxergou uma oportunidade de ajustar os dados que eram erroneamente levantados pela administradora anterior.

O diretor da Access Omnicare também alegou que, antes da reportagem ser publicada, havia se sentado com um repórter do veículo e explicado para ele o porquê de a Tesla ter contratado sua empresa para assumir as atividades da clínica, que, ao invés de apresentar uma reportagem equilibrada, resolveu dar maior relevância ao depoimento de Anna Watson, uma ex-funcionária que ficou menos de um mês na empresa e que ele alega estar sendo investigada pela Junta Médica da Califórnia. Besh ainda afirma que a reportagem da Reveal escolheu ignorar os avanços na segurança dos funcionários e no tratamento de pacientes ocorridos sob a administração da Access Omnicare, tudo para que a história propagada fosse consistente a uma determinada agenda política.

Contatado pela reportagem do The Verge, Lacey Hunter, diretor de comunicações da Premise Health (empresa que cuidou da clínica da fábrica da Tesla até maio deste ano), afirmou que não é política da empresa comentar sobre seus clientes. Já sobre a suposta investigação de Watson, não foi encontrada nenhuma ação disciplinar, reprimenda ou julgamentos pela má-prática da profissão em nenhuma das organizações médicas às quais ela é filiada.

Sem novidades

Essa não é a primeira vez em que a fábrica de Freemont é acusada de esconder o número de acidentes de trabalho ocorridos nela. Uma reportagem publicada em abril deste ano, também pela Reveal, revelava que diversos funcionários da empresa tinham problemas em arquivar acidentes de trabalho ocorridos na empresa, o que os impediam de receber compensações financeiras pelo tempo parado.

A reportagem, responsável por iniciar uma série de investigações de conduta dos médicos da empresa pela Cal/OSHA, foi chamada pela Tesla de "um ataque de motivação ideológica", feito por uma organização extremista em conluio com os sindicatos para criar uma campanha de desinformação. Mas, apesar de ter alegado isso em uma postagem no site oficial da empresa, não foi oferecida nenhuma prova de qualquer uma dessas alegações, nem na época e nem depois de meses do ocorrido.

Fonte: The Verge

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