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Por que um anúncio da Anthropic fez a IBM perder US$ 30 bilhões em um único dia?

Por  • Editado por Bruno De Blasi | 

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Denny Müller/Unsplash
Denny Müller/Unsplash

As ações da International Business Machines (IBM) registraram a maior queda diária em mais de 25 anos na última segunda-feira (23). O valor de mercado da empresa recuou de US$ 240,16 bilhões na sexta-feira (20) para US$ 208,59 bilhões, uma perda superior a US$ 30 bilhões (cerca de R$ 155 bilhões).

O movimento ocorreu após a startup de inteligência artificial (IA) Anthropic publicar um texto afirmando que sua ferramenta Claude Code é capaz de analisar e modernizar sistemas escritos em COBOL — linguagem de programação central para os negócios de mainframes da IBM.

A modernização de códigos legados em COBOL historicamente exige projetos longos, de alto custo e equipes extensas de consultores. Com a promessa da Anthropic de automatizar as fases de exploração e análise de código, o tempo de migração pode ser reduzido de anos para trimestres.

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A novidade representa uma ameaça estrutural a esse modelo de serviços. Para o coordenador do MBA Gestão da Tecnologia da Informação da FIAP, Gustavo Galegale, a hegemonia histórica da companhia foi construída sobre mainframes e serviços associados ao legado. O uso da IA acelera a migração para arquiteturas baseadas em nuvem, diminuindo a dependência de infraestrutura proprietária tradicional.

"Se a barreira técnica do COBOL cair, parte do poder estratégico da IBM cai junto. O mercado entendeu isso rapidamente", avalia Galegale.

Reação do mercado

O anúncio preocupou investidores sobre o impacto nas receitas da IBM. Os papéis da companhia caíram 13,2%, fechando cotados a US$ 223,35, a pior queda percentual da empresa desde 18 de outubro de 2000. O fundo de índice (ETF) de software recuou 27% no acumulado do ano. 

A liquidação reflete uma preocupação do mercado em relação ao avanço rápido das ferramentas de IA. O impacto das declarações da Anthropic atingiu também empresas de cibersegurança como CrowdStrike e Datadog, que registraram quedas após o lançamento do Claude Code Security.

A IBM se manifestou por meio de seu Vice-Presidente Sênior e Diretor Comercial, Rob Thomas. O executivo argumentou que o valor dos mainframes da empresa está atrelado a uma arquitetura construída com foco em segurança e resiliência, e não à linguagem COBOL.

O que é o COBOL?

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O COBOL (Common Business-Oriented Language) é uma linguagem de programação desenvolvida no final da década de 1950. "O COBOL, muitas vezes chamado de 'linguagem dos dinossauros', surgiu na época dos cartões perfurados, mas continua sustentando sistemas críticos no mundo todo", contextualiza Galegale.

Estima-se que 250 bilhões de linhas de código COBOL estejam em uso na produção diária. Segundo a própria IBM, o sistema processa 95% das transações em caixas eletrônicos nos Estados Unidos e sustenta 80% das transações presenciais com cartão de crédito.

A linguagem possui uma associação automática com os mainframes da IBM. "A IBM construiu um império em torno dessa infraestrutura, e o COBOL virou parte central desse ecossistema porque funcionava perfeitamente dentro daquela lógica tecnológica: sistemas centralizados, altamente controlados e difíceis de substituir", complementa o coordenador da FIAP.

O desafio de modernizar o código legado

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A formação de um analista experiente em ambientes de mainframe exige anos de prática. Como a linguagem praticamente deixou de ser ensinada nas universidades, a escassez de profissionais encarece os processos de atualização.

A Anthropic aponta que o custo financeiro para entender o código legado se tornou maior do que o processo de reescrevê-lo. A nova ferramenta de IA propõe mapear dependências em milhares de linhas de código e gerar documentações automaticamente, reduzindo gargalos.

Essa automação questiona a permanência do modelo corporativo tradicional. "À medida que arquiteturas em nuvem e plataformas distribuídas se tornam padrão, a dependência de ambientes proprietários diminui", explica Galegale. A questão atual do mercado, segundo o professor, avalia se o mainframe ainda é indispensável para as operações corporativas.

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