Os três grandes blocos do mercado tech

Por Fausto Reichert | 06 de Abril de 2021 às 11h00
Unsplash / Tyler Franta

No Brasil, nos últimos anos, houve um amadurecimento do mercado de tecnologia. Foi produzido um ecossistema gigantesco, com fortalecimento das associações, grupos de investidores- anjo e aceleradoras. Também ocorreu a entrada dos fundos — que profissionalizaram a captação e a distribuição do capital no mercado. Então, agora, chegou a vez dos escritórios de M&A e boutiques de investimentos.

Intensificadas pela pandemia, as mudanças no mercado financeiro criaram uma migração do fluxo e da liquidez no mercado de capitais para empresas de tecnologia. Com escassas alternativas de investimentos em techs, o mercado acabou forçando uma fila para capitalização via ofertas públicas iniciais de ações (IPOs).

Na economia americana, já consolidada, uma rápida expansão aconteceu com os veículos de captação para investimento direto (SPACs). Esse modelo visa a aquisição de uma única empresa, antes que ela faça o IPO. É uma nova forma para reduzir tempo e passos como o roadshow pré-IPO, pretendendo também reduzir riscos. Além disso, antecipa a busca e a estruturação da companhia, anteriormente à passagem pela sabatina do mercado de capitais.

Se você já é ou pensa em ser empreendedor com uma startup, precisa ir muito além das associações de classe, investidores anjo, aceleradoras e fundos. É preciso conhecer todos os atores do mercado que podem lhe apoiar, associar, conectar ou se tornar uma alternativa de “exit”. Mas, cuidado: há chance desse mesmo player virar seu concorrente direto ou indireto. Ou, então, ser parceiro para acesso a capital financeiro ou humano.

Então, fique atento: existem empresas já capitalizadas que precisam provar sua força de crescimento. Todas, sem exceção, já chegaram “lá” e estão visando o retorno de capital em longo prazo. Por isso, sua startup deverá pensar nesses três grandes blocos:

1. Bloco das grandes: é composto por empresas maduras, algumas até centenárias. Sua história está diretamente ligada ao mercado industrial ou a outro que esteja passando por uma ruptura promovida pela tecnologia — como o bancário, de saúde ou de educação. A maior parte delas busca o processo de digitalização de seu capital, mais do que a inovação efetiva de suas empresas. Dessa forma, aquisição é um canal direto para modernizar seu capital, mantendo seu “valor” de mercado.

Oportunidades: além do capital próprio, são a reputação e as redes de distribuição com filiais, unidades e carteira de clientes e as conexões com outras investidas delas que criam um ecossistema proprietário e robusto para alavancar novas startups.

2. Bloco do consumo: formado por redes de varejo que buscam ampliar a presença na vida dos consumidores. Estão adquirindo empresas no setor de mídia e tecnologia para marketplace, indo de meios de pagamentos até operações logísticas. Suas lojas físicas se tornaram grandes vitrines ou meros locais para demonstração de produtos ou, ainda, minicentros logísticos omnichannel, promovendo uma ruptura imensa no segmento varejista.

Oportunidades: imensa carteira de clientes, especializações e experiência em conceder créditos e especialistas em logísticas de distribuição de produtos físicos fracionados (pequenas entregas). Além das vendas aos consumidores, seus follows on garantem capital para rápida expansão de qualquer startup.

3. Bloco das techs: é composto por empresas de tecnologia que já fizeram grandes captações, alguns unicórnios ou maduras o suficiente para já terem alcançado um IPO. Elas são a “bola da vez” do mercado de capitais, muito rápidas e disruptivas. Todas elas precisam provar capacidade de continuar suas jornadas de crescimento, indo para IPO ou mantendo expansão com follow on e a valorização de seus papéis já listados.

Oportunidades: possuem capital humano moderno, experiência acumulada em marketing digital, growth hacking, user experience (UX/UI), infraestrutura cloud, big data, inteligência artificial, machine learning e métodos ágeis. São mais atrativas para públicos jovens e, provavelmente, detêm o conhecimento que falta para uma startup nova no mercado.

As restrições impostas pelo cenário de pandemia diminuíram o ritmo das fusões e aquisições no final de 2020. Entre janeiro e julho do ano passado, de acordo com a KPMG, 483 operações ocorreram. E há uma expectativa de aceleração desse tipo de transação a partir de 2021. Portanto, é importante que as startups estejam atentas ao mercado de M&A e à movimentação desses blocos.

Esses dois fatores podem representar riscos, com aumento da concorrência. Por outro lado, abrem possibilidades de crescimento. E o empreendedor de startup precisa avaliar, ainda, uma terceira via: a independência dos blocos. Isso porque, frequentemente, o mercado valoriza empresas que seguem uma linha de independência, gerando assim outras oportunidades.

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