Maior participação das mulheres na tecnologia pode se tornar realidade

Maior participação das mulheres na tecnologia pode se tornar realidade

Por Colaborador externo | Editado por Rui Maciel | 16 de Março de 2021 às 13h00
Mateus Campos Felipe /Unsplash

Por Letícia Piccolotto*

O Dia 8 de março é uma data para celebrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos, mas principalmente para realizar um balanço sobre os longos caminhos ainda necessários para alcançar a equidade de gênero.

Me alegro ao testemunhar que vivemos um momento muito frutífero, no qual diversos grupos da sociedade têm se sensibilizado para a urgência de ampliar a participação das mulheres nos mais diversos setores da economia.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Mas, mesmo com tantos avanços, ainda há um longo caminho a trilhar. Especialmente quando consideramos as áreas de empreendedorismo e tecnologia, temas com os quais trabalho há mais de 20 anos. Me parece um contrassenso que o primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina foi feito pela matemática e escritora inglesa Ada Lovelace, em 1843, ainda no século 19, mas ainda estejamos distantes de ocupar o espaço de destaque e protagonismo que merecemos.

De acordo com a empresa de recursos humanos Revelo, a diferença de remuneração oferecida para homens e mulheres no setor de tecnologia era de 22,4% em 2017 e passou para 23,4% em 2019. Em números, a média da proposta de salário às mulheres em 2019 foi de R$ 5.531, enquanto a média para homens foi de R$ 6.829.

Mesmo assim, estamos assistindo mudanças importantes e que devem ser consideradas. Nos últimos cinco anos, a participação feminina nas áreas de tecnologia cresceu 60% — passando de 27,9 mil mulheres para 44,5 mil em 2019, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Mas, ainda assim, elas representam apenas 20% dos profissionais de tecnologia do país.

Se a mudança continuar nesse ritmo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acredita que, em 10 anos, a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro deve crescer mais do que a masculina em muitos segmentos — a ciência e tecnologia são alguns deles.

Para enfrentar essa disparidade entre homens e mulheres no mercado de tecnologia, precisamos ampliar as oportunidades de formação e construção de carreira nesse setor. A Alpha EdTech, startup de impacto social sem fins lucrativos, busca contribuir para isso. Fundada pelo Instituto Alpha Lumen, com o apoio da Fundação Brava, Fundação Behring e Stone, tem como foco garantir formação a jovens talentosos que estão em situação de vulnerabilidade e desejam trabalhar com tecnologia, mas não têm condições de pagar por um curso ou se dedicar a uma formação gratuita em tempo integral. A iniciativa oferece remuneração aos aspirantes a desenvolvedores e garante emprego ao final dos três semestres de curso.

O processo seletivo contou com 2.581 candidatos, sendo 39% deles mulheres. A turma final é composta por 31 alunos; destes, 12 são mulheres 38% do total, proporção muito superior ao observado no mercado de trabalho de tecnologia, que é de 20% no Core TI (setores econômicos tipicamente de TI).

A iniciativa se preocupou, desde o início, com a promoção da igualdade de gênero, ampliando a participação das mulheres e contribuindo na redução da pobreza por meio de formação especializada e acessível à população de todo o país. Por entender que um dos fatores que dificulta a participação de mulheres na área é de origem cultural, a startup tomou medidas para reduzir esse impacto em seu processo seletivo e no cotidiano das aulas.

A fundadora da startup, Nuricel Villalonga, que tem bacharelado em física e astronomia pela Universidade de São Paulo, acompanhou com atenção as candidatas em todas as fases e garantiu que houvesse exemplos e inspiração: a Alpha Edtech tem professoras mulheres que já atuam no mercado de tecnologia, mentoras e uma rede de empresas interessadas em contratá-las ao final da formação.

São ações como essa que ajudam a ampliar o interesse das meninas e mulheres a ocuparem, cada vez mais, espaço nessa área.

Se os desafios para mulheres que desejam ter uma carreira na área de tecnologia são gigantescos, eles se tornam quase intransponíveis quando analisamos aquelas que desejam empreender nesse setor. Estando à frente do BrazilLAB, hub de inovação que acelera startups que desejam trabalhar com os governos, essas barreiras ficam muito evidentes.

Mesmo assim, temos muitos exemplos de empreendedoras de sucesso que superaram esses desafios e hoje são referência no ecossistema GovTech. É o caso da Miriam Oshiro, fundadora da OriginalMy, startup que atua em um dos setores mais fundamentais, o de segurança de dados, privacidade e informações. Segundo a fundadora, houve situações em que as pessoas realmente duvidaram que ela entendia de tecnologia, principalmente por seu negócio se tratar de blockchain, uma solução altamente disruptiva e que ainda tem poucos exemplos de uso no Brasil.

Para ela, como mulher e empreendedora, foi preciso muita resiliência e renúncia, o que fez com que tivesse força para continuar seu propósito. Já para Laura Masiaj Ribeiro, fundadora da Eu Ensino, plataforma de formação continuada para educadores, foi preciso se entregar de corpo e alma, ser disciplinada e conversar com muita gente para ver sua startup sair do papel.

Esses são alguns dos diversos casos de mulheres que conseguiram empreender no setor de tecnologia e que, mesmo diante de situações altamente complexas, demonstraram altas cargas de resiliência, garra e competência.

Mas não precisa ser assim. Em um mundo ideal, os desafios enfrentados por mulheres em nada deveriam ter relação com o gênero. Para que isso seja realidade, é preciso atuar em diversas frentes. Primeiro, ampliar exponencialmente o número de programadoras, engenheiras de computação, analistas de dados, entre outras profissões. Segundo, garantir que as organizações, sejam públicas ou privadas, ampliem a diversidade e contratem mulheres para as equipes de tecnologia, especialmente para os cargos de liderança. E, talvez o mais importante: transformar a cultura estrutural que impede que as meninas e mulheres sequer sonhem com uma carreira na tecnologia por acreditarem que “isso não é para elas”.

O momento de ampliar a participação de mulheres em tecnologia é agora. Vale lembrar que, mesmo com a crise econômica e todos os efeitos causados pela pandemia, o setor de tecnologia está em alta. O estudo IDC Brazil Semiannual Services Tracker 2020H1 mostrou que houve um crescimento de 4,2% no primeiro semestre de 2020 se comparado com o mesmo período de 2019. Ainda foram movimentados mais de R$ 41 bilhões no setor neste período.

Mesmo com a demanda alta, nem sempre é possível encontrar profissionais qualificados para ocuparem os cargos, como de engenharia de dados, cientistas de dados, diretores de tecnologia, CTOs, engenheiros de software back, front e mobile, especialistas e gerentes em segurança da informação e LGPD. Esse cenário de expansão da demanda é ideal para revertermos o quadro e voltarmos às nossas origens, com mulheres na vanguarda das tecnologias.

O mercado está aquecido, há uma alta demanda de trabalho, profissionais competitivos e as empresas querendo apostar em novos profissionais. Neste mês dedicado às mulheres, quero me dirigir a você, menina e mulher que me lê: não desista de encontrar seu lugar na tecnologia e acredite que você tem um caminho para se empoderar a partir da transformação digital. Acredite! Vamos juntas!

*Letícia Piccolotto é Presidente Executiva da Fundação BRAVA (www.brava.org.br) e fundadora do BrazilLAB — primeiro hub de inovação GovTech que conecta startups com o poder público.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.