Dia da mulher | Como é ser mulher e liderar na área da tecnologia?

Por Nathan Vieira | Editado por Luciana Zaramela | 07 de Março de 2021 às 13h00
Anete Lusina/Pexels

Em 2020, a Associação Brasileira de Startups (ABStartups) mapeou mais de 12 mil empreendimentos no país, e apontou que 84,3% deles são liderados por homens, enquanto apenas 15,7% têm à frente uma empreendedora. Com isso em mente, nesta segunda-feira (8), em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a equipe do Canaltech resolveu conversar com três líderes da tecnologia para entender o que está por trás desses dados.

Para Luciana Ogusco, fundadora da startup de educação corporativa GenteLab, essa porcentagem é um reflexo do mundo corporativo como um todo. "O termo startup é utilizado para falar de um "nicho" de empresas, mas não deixa de estar inserido no mesmo contexto que já conhecemos, em que a liderança é majoritariamente composta por homens".

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Enquanto isso, Auziane Moraes, uma das primeiras líderes da Dock — startup focada em oferecer soluções de tecnologia para empresas que querem construir seu próprio banco — observa que essa porcentagem reflete uma realidade na forma em como enxergamos e incentivamos o papel da mulher nesse espaço, e requer mudanças. "A voz  masculina ainda é mais comum e predominante quando falamos de eventos de empreendedorismo, número de Venture Capital investido, e, consequentemente, de fundadoras. Nesse sentido, entender as barreiras estruturais que precisam ser superadas para abrir um espaço necessário é um começo para construir um futuro diferente", opina.

Por outro lado, Denise Asnis, sócia e co-fundadora da plataforma de emprego Taqe — que permite conexões entre colaboradores e empresas por meio de games — tem percebido um aumento gradativo de mulheres empreendedoras na gestão de startups. "É claro que ainda estamos com grande defasagem frente às posições ocupadas por homens, mas as mulheres estão cada vez mais saindo da informalidade e assumindo um papel importante na criação de soluções e serviços de forma mais tecnológica e profissional", analisa.

Para a executiva, diversos fatores levam a isso, como aumento de programas de aceleração para mulheres, foco das empresas por aumentar a diversidade, influência e inspiração de casos de sucesso e um cenário favorável a empreender. "As mulheres estão se lançando a empreender de forma estruturada", defende.

A presença da mulher no mercado tecnológico

Luciana Ogusco (Imagem: Divulgação/GenteLab)

Mas então as questões vem à tona: como está a presença da mulher no mercado tecnológico? Já melhorou algo? Ainda há o que evoluir? Para Luciana, é uma situação que vem melhorando sim. "Minha primeira opção de curso na faculdade foi Sistemas de Informação, fiz 1 ano e meio do curso e tinha 5 mulheres na turma de cerca de 50 alunos, minha busca por estágio na época acabava sempre em telemarketing e meus colegas de sala já estavam trabalhando em bancos, por exemplo. Hoje vejo que isso tem mudado, mas ainda há muito o que ser feito".

Auziane disserta que a equidade de gênero no mercado de tecnologia ainda não é uma realidade, mas o cenário melhorou ao longo dos últimos anos. "As empresas estão refletindo seu papel para mudar essa realidade, atualmente, vemos com mais frequência essa inclusão por meio dos processos seletivos. Contudo, todo movimento de inclusão requer um esforço de atração e retenção: programas de capacitação, mentorias e pista para crescimento na carreira são necessários para realmente estabelecer o papel da figura das mulheres dentro desse mercado".

Na projeção de Denise, houve melhorias, mas ainda estamos muito longe de chegar a indicadores estáveis em crescimento ou índices comparáveis. A executiva menciona que na área de tecnologia acompanham-se muitas iniciativas para inclusão tecnológica em jovens mulheres. "Um verdadeiro incentivo com bolsas e estudos, garantia de emprego, entre outros, favorecendo mulheres que querem aprender programação. Iniciativas bancadas pelas próprias empresas ou por ONGs e projetos sociais em parceria com entidade de ensino e empresas", comenta.

No entanto, com a pandemia, Denise aponta uma aceleração ainda maior na busca por profissionais de tecnologia do que já era percebido. "Com o mercado sendo impelido a se tornar cada vez mais tecnológico, os cargos e vagas que antes eram pouco ou nada tecnológicas como nas áreas de vendas e marketing, passaram por uma mudança radical. Mesmo funções que anteriormente tinham uma concentração maior de mulheres como áreas de marketing e correlatas, hoje exigem profissionais que conjuguem tecnologia e marketing. Para atuar em áreas de marketing digital, por exemplo", completa. E a tendência tem levado as mulheres a se formar ou se especializar em tecnologia, além de sua área de atuação base, o que vai favorecer a colocar mais mulheres nestes setores, segundo ela.

Os desafios da mulher na carreira

Auziane Moraes (Imagem: Divulgação/Dock)

Questionada sobre os principais desafios que as mulheres enfrentam ao estabelecer suas carreiras e quais são os obstáculos a superar, Luciana acredita que o primeiro desafio é a entrada no mercado de trabalho, em que ainda existem diferenças de vagas entre homens e mulheres. "Só por aí já dá para entender os obstáculos, e porque temos menos mulheres em cargos de liderança", diz. 

Já para Auziane, com todo esse cenário da pandemia, um nível de dificuldade foi adicionado na rotina de muitas mulheres, que precisaram assumir um papel de mãe, esposa e dona de casa, após o turno de trabalho. "Além disso, o dia-a-dia gira em torno de uma atmosfera predominantemente masculina, que força a mulher a se afirmar em diversos momentos, como em reuniões, onde sua voz é constantemente interrompida, a necessidade de possuir mais habilidades do que esperado para se provar suficiente e uma carga de trabalho intensificada com tantas responsabilidades dentro e fora do ambiente profissional", argumenta.

Na visão da executiva, todo esse contexto precisa ser debatido abertamente para se criar um caminho seguro de entendimento não somente com as mulheres, mas a empresa como um todo. "Assumir o protagonismo em torno dessa mudança também é necessário em busca da conquista desse espaço", afirma.

Denise, por sua vez, menciona a 'síndrome da impostora', um mecanismo defensivo que muitas mulheres sentem. Pode ou não estar ligada a baixa autoestima, mas que gera insegurança em ser capaz ou estar totalmente apta a executar seu trabalho frente a outras pessoas.

Outro fator mencionado por ela é o sentimento de gerenciar a empresa enquanto cuida da família e da casa. "Retirando a evolução, ainda bem, no papel de igualdade com seus companheiros ou companheiras nesta tarefa, ainda percebo que esta atribuição sobrecai muito mais nas mulheres. Por outro lado, nem tudo são barreiras. As mulheres desenvolvem culturas organizacionais mais colaborativas, um ambiente de trabalho mais favorável ao desenvolvimento. Muitas mulheres vêm se destacando porque geram maior receita em longo prazo", argumenta.

Mulheres na tecnologia

Denise Asnis (Imagem: Divulgação/Tage)

Nas palavras de Luciana, a tecnologia é uma área que tem homens em sua maioria, sim, mas assim como outras áreas que eram de predominância de homens, há o entendimento da importância de diversificar. "Se pensarmos que na infância já acontece a distinção entre brinquedos tecnológicos para homens e bonecas para mulheres, entendemos que falta o incentivo. Mudar esse cenário depende de mudarmos todo o contexto de sociedade em que estamos inseridos. Está acontecendo, mas não será de uma hora para outra", reflete. 

Já para Auziane, a área de tecnologia em si já apresenta uma carência de profissionais no Brasil, mas quando se entra em uma visão mais detalhada sobre o perfil profissional, a presença de mulheres nesse contexto é ainda é menor. "E isso não é uma questão de momento ou tempo, é algo estrutural e que deve começar a ser trabalhado desde a formação escolar da nossa e das próximas gerações, incentivando o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e construção de carreira em áreas como engenharias, tecnologias e ciências", aponta.

"Atualmente, há uma cultura de incentivo para os homens ocuparem esses lugares no mercado de trabalho, mas é necessário o apoio desde a base para garantir uma inclusão e destaque da presença feminina. Eventos, programas de mentoria, incentivos em patrocínios de projetos e um política mais agressiva que garanta cargos de liderança sendo ocupados de forma mais diversa", reitera.

Enquanto isso, Denise acredita que ainda exista um coletivo inconsciente de que mulheres não são as melhores para área de exatas. O que é uma falsa afirmação. "Historicamente temos muitas mulheres brilhantes em exatas e só para tornar um ponto ícone, não que ele represente ou forme uma tendência, mas é sabido de que o primeiro algoritmo processado por uma máquina foi feito pela matemática e escritora inglesa Ada Lovelace em 1843. Isso significa que o primeiro programador de TI da história foi uma mulher, por exemplo. Anos de restrição a mulheres nos estudos e no mercado de trabalho também contribuem para este quadro", aponta. 

No entanto, na visão da executiva, tem existido um empoderamento e geração de emprego. "Este número ainda não é expressivo como eu gostaria. Mas todas as ações afirmativas das empresas e das entidades de educação estão trabalhando para mudar este quadro. Minha previsão é de que o número de mulheres nesta área terá crescimento exponencial nos próximos anos. Um dos fatores que entendo contribuir para este quadro está na influência e inspiração que as mulheres que hoje estão ocupando as posições seniores representam", estima.

Por fim, questionada sobre a importância de refletir sobre a presença da mulher nas lideranças de startups nesse Dia da Mulher, Luciana comenta: "Ter mulheres na liderança é representativo para termos mais mulheres e mais diversidade no mercado em geral. A reflexão é exatamente trazermos a consciência para dentro das empresas". 

Enquanto isso, Auziane opina: "Acredito que principalmente para inspirar outras mulheres a ocuparem e acreditarem que esse espaço pode e deve ser preenchido ainda mais por mulheres", ao que Denise Asnis completa: "Acredito que a reflexão e o entendimento deste contexto auxiliam não só a buscarmos alternativas que possam melhorar a condição da mulher no mercado de trabalho, mas principalmente avaliar muitos dos aspectos que tornam este tema complexo".

Fonte: Com informações de G1

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