Loja não-oficial da Xiaomi publica nota de esclarecimento sobre fim da empresa

Por Rafael Rodrigues da Silva | 17 de Janeiro de 2020 às 14h10
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Nos últimos dias, uma das notícias que mais deu o que falar no mercado de smartphones brasileiros foi o fim da MiStore Brasil, a loja não-oficial da Xiaomi que, ironicamente, possui o mesmo nome da loja oficial. Acontece que, do nada, o e-commerce finalizou as atividades do site sem qualquer aviso prévio aos clientes, inclusive antes mesmo de efetuar o envio de todos os produtos que foram comprados durante a promoção da Black Friday.

Porém, nesta quinta-feira (16), uma atualização no antigo site da empresa mostra uma “nota de esclarecimento” a todos que tentam acessá-lo, dando o parecer oficial da empresa sobre o que está acontecendo. De uma forma estranha, no entanto, quando digitamos mistorebrasil.com (domínio original), somos redirecionados ao domínio mistorebrasil.com.br, no qual a nota foi publicada.

Ironicamente, no texto de esclarecimento não há nenhuma justificativa sobre o porquê da loja ter finalizado suas atividades e, principalmente, sobre a razão dela ter feito isso sem avisar ninguém, simplesmente tirando o site do ar sem maiores explicações.

O que diz o comunicado oficial

Ainda que a nota da empresa não tenha nenhuma explicação sobre os motivos que levaram ao fim da loja, o que não falta na nota publicada são atitudes de repúdio. A empresa repudia a informação dada por alguns portais de notícia de que as compras que foram efetuadas via boleto bancário não teriam ressarcimento, afirmando que a MiStore sempre trabalhou com os sistemas PagSeguro e Mercado Pago justamente para dar ao cliente uma certeza de que ele teria o dinheiro de volta caso ocorresse qualquer problema.

A empresa também repudia a atitude de ligação entre as atividades online da empresa e os quiosques físicos, afirmando que se tratam de operações diferentes, com os quiosques sendo franqueados da MiStore Brasil que já foram orientados a remover a marca de suas fachadas e afirmando que qualquer aparelho que foi comprado nesses locais é de responsabilidade total do dono do quiosque, e que o site não possui nenhuma ligação com estes além de ceder o nome da marca.

A nota é finalizada com um link para as páginas oficiais do PagSeguro, do Mercado Pago e do PayPal, ensinando o usuário a como pedir o reembolso em cada um desses canais.

O fato do site simplesmente indicar para os clientes que se sentem lesados a página dos próprios mecanismos de pagamento que ensinam como fazer o reembolso, sem qualquer outro tipo de auxílio, soa como uma enorme tentativa de se desvencilhar da culpa de ter falhado com a entrega de, possivelmente, centenas de aparelhos comprados. Ou mesmo, de ter derrubado o site inesperadamente. Ou por ter demorado quarenta dias para apresentar uma explicação que não explica nada e se resume a um “corra atrás do seu reembolso” para o cliente.

Entramos em contato com o Mercado Pago e com o PagSeguro para saber o posicionamento deles sobre essa nota da MiStore Brasil, assim como, estamos em contato com algumas pessoas que foram vítimas da loja, e atualizaremos esta matéria assim que tivermos mais detalhes.

Você foi lesado com o fim inesperado do site não-oficial da Mi Store? Compartilhe sua opinião com a gente através dos comentários.

O que diz uma vítima da loja

Querendo saber mais sobre o assunto, conseguimos entrar em contato com uma pessoa que foi vítima da loja, comprando um celular durante o período da Black Friday, aparelho este que nunca foi enviado. A pessoa pediu para que mantivéssemos sua identidade anônima, pois a revelação poderia atrapalhar a disputa atual com a MiStore Brasil.

Ao entrar em contato com o Canaltech, a primeira coisa que a vítima fez foi contestar a versão da MiStore Brasil sobre estar “se esforçando” para garantir o reembolso de todos os clientes que não receberam os aparelhos que compraram, afirmando que no seu caso está sendo justamente o contrário: parece haver um esforço da empresa para não efetuar a devolução do dinheiro.

A nossa fonte afirma que há tempos vem tentando contato com a empresa de todas as formas possíveis (telefone, e-mail, através do próprio site e também pelas redes sociais), mas em nenhuma tentativa obteve qualquer tipo de resposta da loja, tendo sido totalmente ignorada. Ela conta ainda que, depois de um tempo, foi bloqueada no Instagram da loja, o que fez com que todos os seus comentários alertando os seguidores sobre o que estava passando não ficassem visíveis para ninguém além de si, e comenta ainda que este tipo de problema também aconteceu com outros clientes que se sentiram enganados e tentaram usar as redes sociais para chamar a atenção da empresa.

Cansada de tentar o contato direto, a vítima então entrou no sistema do PagSeguro (que foi o que utilizou para finalizar a compra) para pedir o cancelamento da venda e o ressarcimento do valor gasto, deixando claro que a única coisa que ela aceitaria era o dinheiro de volta, e que não queria mais saber de receber qualquer produto vindo da MiStore Brasil. A reclamação foi aberta no dia 8 de janeiro, e o PagSeguro pediu um período de cinco dias corridos para tentar o contato com a loja e intermediar o caso.

Esse período teria chegado ao fim no dia 13 de janeiro, e em nenhum momento a nossa fonte recebeu qualquer outra mensagem do PagSeguro sobre o caso. Então, no dia 14, ela resolveu entrar em contato telefônico direto com a intermediadora para saber o que tinha ocorrido com a contestação, e depois de algumas horas no telefone foi informada de que o que aconteceu foi que ninguém da PagSeguro conseguiu contatar qualquer responsável pela MiStore Brasil e, sendo assim, o caso era considerado como uma vitória automática do cliente, e que ela receberia o dinheiro de volta.

Porém, no dia seguinte (15), a vítima recebeu uma nova mensagem do PagSeguro sobre a disputa, pedindo que aguardasse por mais cinco dias a resposta do vendedor, como se a “vitória automática” confirmada pelo PagSeguro no dia anterior não existisse mais. Ela então ligou novamente para a empresa e, após mais algumas horas no telefone, foi informada de que a vitória nesta disputa se mantém e que isso não mudou, mas que o PagSeguro pediu mais cinco dias antes de finalizar a disputa dela com a MiStore Brasil pelo fato de, em um curto período de tempo, eles terem recebido muitas reclamações iguais as dela sobre a mesma loja e, por isso, eles estavam investigando a PAD ELETRÔNICOS (nome usado pela MiStore Brasil no cadastro do serviço de pagamentos).

A empresa garante que vítima receberá o dinheiro de volta, mas por causa dessa investigação ela terá que esperar mais alguns dias antes de sua reclamação ser finalizada e ser possível prosseguir com o estorno do pagamento.

O que diz o Mercado Pago

Mas ainda que o caso da cliente esteja se encaminhando para um “final feliz”, isso pode ser mais complicado para alguns dos outros clientes — principalmente entre aqueles que usaram o Mercado Pago como intermediário. Em nota para a imprensa, a empresa diz:

O Mercado Pago esclarece que cabe ao vendedor MiStore o reembolso dos clientes, uma vez que a empresa é beneficiária dos pagamentos. Como plataforma de processamento de pagamentos, o Mercado Pago apenas viabiliza a devolução dos valores aos clientes, a partir de recursos existentes na conta do lojista, uma vez que as compras foram efetuadas diretamente no site da MiStore. Neste caso, os compradores devem entrar em contato diretamente com a MiStore para ressarcimento do valor pago. O Mercado Pago informa ainda que, em razão do descumprimento dos Termos e Condições de Uso, o vendedor MiStore foi inabilitado na plataforma de processamento de pagamentos.
A empresa ressalta que o reembolso via “Programa Compra Garantida” é aplicado apenas às compras realizadas dentro da plataforma Mercado Livre.

O que a plataforma de pagamentos quer dizer com esta nota é que a empresa não pode ser considerada como responsável por todos os reembolsos porque ela é apenas uma intermediária, e não a empresa para a qual o cliente repassou o dinheiro.

Explica ainda que, como as compras foram efetuadas direto no site da MiStore Brasil, o Mercado Pago funcionou apenas como uma “carteira virtual” do dono do site para o processamento dos pagamentos, que foram direto para a conta da loja. Por isso mesmo, o Mercado Pago só pode garantir o reembolso para os clientes caso exista saldo na “carteira virtual” da loja, que é a única parte de toda a transação a qual o Mercado Pago tem acesso.

Então, se os valores de todos os smartphones que não foram entregues e que foram comprados utilizando o Mercado Pago ainda estiverem presentes na íntegra na conta da MiStore Brasil, o Mercado Pago tratará de dar o reembolso para todos os usuários que reclamarem. Mas, imaginemos que, dentro desses quarenta dias que a loja está fora do ar, o dono do site retirou qualquer valor da conta Mercado Pago e transferiu para qualquer outra conta bancária. Nesse caso, o Mercado Pago não poderá garantir o reembolso de todos os itens, e aqueles que não conseguirem o dinheiro de volta junto à empresa terão que cobrar diretamente os responsáveis pela MiStore Brasil.

A nota ainda garante que o vendedor teve o perfil desabilitado (o que o impede de sacar ou transferir qualquer dinheiro que possua em sua conta no Mercado Pago), mas não especifica quando isso ocorreu, então é impossível ter uma noção de quanto tempo os responsáveis pela loja tiveram para sacar o dinheiro da conta Mercado Pago.

Já a nota de esclarecimento da loja menciona um serviço que garante o reembolso para qualquer cliente. Isso contradiz o pronunciamento do Mercado Pago, que dá a entender que isso foi apenas mais uma tentativa da MiStore Brasil de confundir seus clientes. A plataforma de pagamentos afirma que o “Programa Compra Garantida” do Mercado Pago é algo exclusivo para as compras realizadas dentro do Mercado Livre — compras efetuadas através do Mercado Pago em qualquer outro site não fazem parte dele.

*Este artigo foi atualizado no dia 17 de janeiro, às 14h20, com os depoimentos de uma das vítimas da MiStoreBrasil e do Mercado Pago.

Fonte: MiStore Brasil

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