Google tem histórico preocupante de retaliação a funcionários descontentes

Por Rafael Rodrigues da Silva | 17 de Setembro de 2019 às 10h53
Getty
Tudo sobre

Google

Saiba tudo sobre Google

Ver mais

Há quase um ano, em novembro de 2018, a Google novamente fez história no Vale do Silício, mas não exatamente do jeito que a empresa esperava. Mais de 20 mil funcionários da companhia organizaram uma passeata em protesto ao fato de a Google ter pago mais de US$ 100 milhões em bônus para diversos executivos acusados por seus funcionários de tê-los assediado sexualmente no ambiente de trabalho.

Na época, a Google pediu desculpas pelo que estava acontecendo e prometeu mudanças na política de condutas sexuais impróprias da empresa e de como ela iria cuidar desses casos, prometendo mais apoio aos trabalhadores que acusassem seus superiores de assédio. Porém, de acordo com revelações feitas por dezenas de atuais e ex-funcionários da Google, a única coisa que mudou foi a intensidade da perseguição sofrida por colaboradores que cansaram de abaixar a cabeça e resolveram revelar ao mundo o que realmente estava acontecendo na empresa.

De acordo com esses funcionários, apesar das promessas e das mudanças feitas no texto das políticas de assédio da Google, a empresa continua escondendo casos de assédio sexual que envolvam figurões da companhia ou executivos responsáveis por projetos de grande interesse financeiro. E, ao mesmo tempo, um documento obtido pelo Recode revela que, ao abrir uma queixa de abuso sexual no RH da empresa, esses funcionários costumam ser demitidos, rebaixados de cargo ou ainda transferidos para projetos de menor importância para a empresa — literalmente uma forma de esconder essas pessoas.

Desde que as retaliações começaram, os funcionários da empresa passaram a usar listas de e-mails do servidor interno da companhia para relatar suas histórias de assédio sexual e discriminação por superiores. Como as pessoas tinham medo de levar os casos de assédio e discriminação ao RH e correr o risco de perder o emprego ou serem enviadas para setores mais remotos, começaram a utilizar essas listas para desabafar suas histórias e conseguir suporte entre si.

No entanto, o RH da Google começou a monitorar essas listas de e-mails não-oficiais e agora até mesmo aqueles que estavam apenas querendo desabafar e conseguir alguma espécie de suporte emocional com seus colegas corre o risco de sofrer perseguição na empresa.

Histórico nada animador

Não é de hoje que a Google possui histórias de escândalos envolvendo funcionários — e a retaliação nada amigável da empresa a essas pessoas que tornam seu descontentamento público. Dois dos organizadores da passeata de novembro de 2018 afirmam terem sofrido perseguição de diversos escalões de chefia da empresa, que os obrigaram a pedir demissão.

Duas histórias que também acabaram ficando famosas foram a da funcionária que enviou um memorando para toda a companhia contando sobre como sofreu discriminação por ter saído em licença maternidade quando seu filho nasceu, e a da funcionária que teve um caso extraconjugal — e que resultou em um filho — com David Drummond, chefe do departamento jurídico da Alphabet que teria tido casos não apenas com a moça, mas com diversas outras funcionárias da empresa. Em ambas as histórias, as mulheres foram afastadas de suas posições e não estão mais na Google, enquanto os homens responsáveis pelos abusos continuam trabalhando na companhia, não tendo recebido qualquer tipo de punição ou rebaixamento de cargo.

O documento obtido pelo Recode contém 45 casos de retaliação cometidos pela Google, todos coletados em duas semanas de entrevistas com funcionários e ex-funcionários da empresa no mês de abril deste ano durante um protesto antirretaliação nas portas da empresa. 28 desses casos (mais de 60% deles) dizem respeito a retaliações em casos de abuso moral ou preconceito proferidos por colegas de trabalho ou superiores diretos. Seis das reclamações dizem respeito a casos de assédio sexual cometido por superiores, e ainda há um caso extremamente grave de tentativa de estupro dentro das dependências da empresa. Os outros 10 casos restantes têm relações com princípios éticos do trabalho ou problemas em relação à cultura da empresa.

Independentemente do motivo, todas essas histórias seguem o mesmo padrão: o funcionário leva o caso ao RH, que diz que irá investigar a reclamação e, logo depois de oficializar a reclamação, esse funcionário passa a sofrer uma série de punições indiretas, como notas baixas na análise de desempenho, rebaixamento de função, e transferência para projetos menos interessantes. Ao mesmo tempo, em muitos casos essas investigações duravam semanas ou meses, e durante esse tempo esses funcionários eram obrigados a continuarem trabalhando com a pessoa que os havia assediado.

Diversos funcionários que oficializaram reclamações sobre a conduta de colegas ou superiores no RH viram suas carreiras estagnarem logo após a denúncia, não mais sendo considerados para promoções ou cursos bancados pela empresa, e muitos afirmam ter desenvolvido problemas sérios de ordem médica por conta do estresse que a retaliação da empresa provocou em suas vidas.

Enquanto a maior parte das histórias de retaliações que vem a público são políticas, acusando a empresa de “perseguir conservadores”, essa é a apenas a “realidade aparente” - ou seja, aquela que é vendida para o público - mas não o que realmente acontece dentro da empresa. De todos os 45 casos obtidos pelo Recode, apenas um tinha algum tipo de relação com o posicionamento político do funcionário (cerca de 2% de todos o espaço amostral coletado). Ao contrário do que é vendido ao público, o verdadeiro problema na empresa tem a ver com acusações de assédio sexual e de criação de um ambiente tóxico de trabalho onde os únicos punidos são aqueles que resolvem reclamar oficialmente do abuso que sofrem.

O exemplo disso é a história de uma funcionária que revelou ao seu gerente que um de seus colegas a estava assediando durante o trabalho. O superior deu de ombros e disse que ela estava “exagerando”, e que o colega estava apenas sendo simpático. Ao levar o caso para a investigação do RH, a funcionária passou a ser abertamente perseguida por este gerente, que chegou a atrapalhar uma oportunidade de promoção oferecida à moça dizendo publicamente em reunião com outros gerentes que ela não merecia a vaga para a qual possuía todos os pré-requisitos para assumir. E, depois que a investigação do RH chegou à conclusão de que a funcionária não apenas havia sido sim assediada, mas também sofrida retaliação de seus superiores, tudo o que foi feito foi oferecer um treinamento sobre assédio no ambiente de trabalho para o colega que a assediou e o gerente que impediu a promoção dela, e mais nada além disso. Quando ela não aceitou que essa fosse a única “punição” do RH a essas pessoas que a fizeram sofrer, ela foi convidada então a pedir a conta da empresa.

Teoria e prática

Enquanto no papel a Google possui um processo bem transparente e apurado de como denunciar qualquer tipo de abuso no ambiente de trabalho, oferecendo linhas de telefone onde essas denúncias podem ser feitas de forma anônima, e até mesmo tendo um setor próprio do departamento de Recursos Humanos especializado em apurar e investigar essas denúncias.

Ainda que a empresa afirme que todo e qualquer tipo de denúncia é feita de forma anônima, isso nunca foi observado na prática pelos funcionários, já que todos aqueles que oficializavam suas denúncias eram retaliados de uma forma ou de outra por seus superiores, e muitas vezes até pelo próprio RH da empresa - como aconteceu com os organizadores da passeata de novembro passado ou todos os funcionários que deixaram claro seu descontentamento com o Project Dragonfly, a ferramenta de busca que seria desenvolvida para o governo da China e permitiria não apenas a censura de conteúdos, mas também o rastreamento de qualquer pessoa que tentasse buscar por esses assuntos censurados. Esse é um fato que foi confirmado não apenas por funcionários que já abandonaram a empresa, mas também por aqueles que, por diversos motivos, tiveram que engolir seu orgulho e continuar trabalhando em posições piores ou sem esperança de que um dia conseguirão voltar a ser consideradas para disputar promoções.

Mesmo com todos os problemas, uma coisa que os funcionários nunca tiveram foi o medo de deixar claro o descontentamento deles com a administração. Isso porque a Google sempre teve um histórico de “empresa aberta” para defender, e sempre foi considerada como a companhia do Vale do Silício que dá mais liberdade para que seus funcionários externalizem seu descontentamento sem precisar se preocupar com represálias - não é à toa que foi na Google que começou todo o movimento pelo fim das disputas com arbitragem que se espalhou por todas as gigantes de tecnologia no fim do ano passado.

Mas até isso pode já estar mudando. Tudo começou em maio de 2018, quando o RH da empresa assumiu o controle da newsletter “Yes, at Google” - uma publicação montada por funcionários que publicava histórias anônimas de abusos dentro da empresa, como forma de mostrar que até mesmo uma companhia preocupada com a diversidade e a qualidade de vida de seus funcionários como a Google não era imune a escândalos, como casos de discriminação e assédio sexual. Assim que o RH assumiu o controle da newsletter, os funcionários começaram a se preocupar com duas coisas: de que suas reclamações não seriam mais anônimas (pois qualquer funcionário do RH poderia saber quem era que estava contribuindo com o relato) e que o próprio RH poderia começar a “filtrar” essas histórias, não publicando as mais pesadas no intuito de mostrar que ele estava “fazendo seu trabalho” em coibir essas condutas dentro da empresa.

De acordo com diversos funcionários, desde que o RH assumiu a newsletter, ela perdeu toda a razão de existir, e não mais é usado pelos funcionários como uma fonte de suporte mútuo. E essa afirmação é confirmada por um grupo de estudos da Google que normalmente investiga formas de melhorar a produtividade dos funcionários da empresa, mas que resolveram dedicar um pouco de seu tempo para entender como a mudança de direção influenciou a newsletter, e divulgaram dados provando que o número de histórias submetidas para ela diminuiu drasticamente a partir do momento que o RH assumiu a responsabilidade.

E essa preocupação com a liberdade de expressão atingiu um novo patamar em agosto deste ano, quando a empresa publicou uma nova série de regras de conduta internas onde alerta os funcionários de que a responsabilidade deles é “efetuar o trabalho para o qual foram contratados” e de não gastar tempo de serviço discutindo assuntos que não possuem relação com o trabalho para o qual eles foram contratados - uma enorme mudança das políticas de trabalho mais tradicionais da empresa, que sempre afirmaram que o funcionário não era uma máquina e que o fato dele se sentir confortável em poder fazer mais coisas dentro da empresa além de só abaixar a cabeça e ficar escrevendo códigos durante oito horas por dias era o principal responsável pelos bons níveis de produção de seus funcionários.

A empresa afirma que, de acordo com as leis federais do trabalho, os funcionários ainda podem debater sobre problemas relacionados ao local de trabalho, mas ainda ninguém da empresa se pronunciou sobre como essa “liberdade” será respeitada no caso de projetos que estejam intrinsecamente atrelados a políticas que podem não agradar a todos (como o caso do Project Dragonfly), e o principal receio dos funcionários é que essas novas regras sejam usadas para silenciar qualquer controvérsia interna sobre projetos da empresa.

De acordo com um porta-voz da Google, a empresa nega que tenha tomado o controle da newsletter para silenciar seus funcionários, e afirma que assumiu o controle dela a pedido do próprio criador do documento, que não teria mais largura banda suficiente para dar conta de todos os casos enviados a ele.

A empresa também nega que obriga qualquer funcionário que abriu uma reclamação de abuso ou assédio a continuar trabalhando na mesma função enquanto a investigação está em andamento caso a pessoa não se sinta confortável com isso. A empresa se nega também a comentar sobre o documento listando os 45 casos de retaliação obtidos pelo Recode, e confirma apenas que todos os casos de conduta inapropriada são minuciosamente investigados pela companhia, e que a empresa tenta dar todo o suporte para as pessoas que tem coragem de relatar esses abusos ao RH.

Mesmo os funcionários que vieram a publicar mostrar a realidade da empresa afirmam que a Google teve sim algumas boas mudanças desde a passeata de novembro passado, citando como mudanças positivas para os funcionários o fim da arbitragem forçada (o que permite que um funcionário que tenha sido assediado por outro dentro da companhia possa entrar na justiça e não seja obrigado a resolver isso de forma interna) e o pagamento de pelo menos US$ 15 a hora para seus funcionários terceirizados. Mesmo assim, o clima geral é de pessimismo, principalmente com decisões como a de manter executivos como Drummond em seus postos mesmo com diversos casos de denúncias contra eles, e as mudanças na política da empresa que abre a possibilidade de silenciar qualquer tipo de voz dissidente. E, enquanto a Google tenta manter a imagem pública de uma empresa aberta e preocupada com seus funcionários, a realidade que está sendo revelada por esses funcionários estão bem longe disso.

Fonte: Recode

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.