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Endividamento do grupo chinês Evergrande gera pânico no mercado global

Por  • Editado por  Claudio Yuge  | 

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Wall Street Journal
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A Evergrande Group é conhecida por ser a segunda maior incorporadora da China, a empresa fundada em 1996 cresceu rapidamente devido ao boom imobiliário do país nos últimos anos, além de ser dona da montadora de veículos elétricos Evergrande New Energy Vehicle que já chegou a ser mais valiosa do que a Ford.

No início de setembro, a gigante declarou que enfrentava problemas de liquidez enormes diante de US$ 300 bilhões em dívidas acumuladas, afirmação que causou pânico no mercado, levando a quedas consecutivas nas bolsas de valores ao redor do mundo e causando preocupação no governo chinês. O endividamento também afetou a divisão de veículos da incorporadora, Evergrande NEV, que emitiu um comunicado na sexta-feira (24), onde anunciou problemas com escassez de recursos, pagamentos de salários e dívidas a fornecedores.

Durante o seu processo de crescimento, a construtora recorreu às dívidas de curto prazo como um dos pilares para a sua expansão, para financiar um modelo de negócios que se baseia no empréstimo de crédito para construir imóveis e comercializá-los anos antes de serem concluídos, visando a geração de caixa a partir da injeção de capital pelos compradores. Grandes entidades financeiras do Ocidente, como Allianz, Ashmore, BlackRock, UBS e HSBC, também aportaram dinheiro.

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O cenário mudou quando os órgãos reguladores do governo central pressionaram ainda mais outras entidades endividadas, intensificando suas ações contra a alavancagem, restringindo a capacidade das incorporadoras de acumular mais dívidas através do establecimento de índices de endividamento alterando os planos de muitas construtoras, incluindo a Evergrande, que ficou impossibilitada de conseguir mais créditos pelos meios tradicionais para pagar suas dívidas com vencimento de curto prazo.

O plano tem sido usado para remodelar o país e criar um sistema financeiro mais sustentável em resposta ao slogan de "prosperidade comum" que tem como alguns dos fundamentos, um mercado imobiliário mais acessível e sem especulação. O setor da construção na China tem sido um dos motores de crescimento da economia do país representando 25% do PIB e o acesso fácil aos empréstimos por grandes empresas criou uma bolha que elevou artificialmente os preços dos imóveis da China.

Diante deste contexto, produtores e exportadores de matérias-primas como ferro, carvão, aço, cobre, zinco, níquel e alumínio poderão ser muito afetados, principalmente o Brasil, considerando a situação da Evergrande, do setor imobiliário em declínio do país devido à redução da demanda por imóveis causada pela diminuição do crescimento da população urbana e do número de novos matrimônios.

O minério de ferro representa mais de 20% das exportações do Brasil para a China, a queda deverá afetar o câmbio devido à diminuição da entrada de dólares, em consequência, alimentos e combustíveis também terão os preços elevados, obrigando o Banco Central a subir ainda mais os juros.

Como o governo chinês pretende lidar com a crise da Evergrande Group?

Com a crise da Evergrande, o capitalismo de estado da China, onde o PCC (Partido Comunista Chinês) controla firmemente os fundos, as diretorias das empresas, a mídia e a sociedade em geral, pode estar enfrentando um dos maiores desafios econômicos, mas Pequim tem enviado sinais que não terá dificuldades para lidar com a situação, mesmo adotando medidas que sirvam para comunicar aos grandes investidores e as empresas sobre as consequências de empréstimos imprudentes, levantando dúvidas se o governo chinês irá intervir e, se afirmativo, em que nível.

De acordo com pessoas familiarizadas com a tomada de decisões econômicas da China, o governo chinês acredita que após uma reorganização devidamente gerenciada, a Evergrande terá ativos suficientes para pagar uma parte substancial da dívida da empresa.

Nos últimos dias, o Banco Popular da China injetou uma quantia no sistema financeiro, para ajudar a aumentar a liquidez a curto prazo e acalmar o mercado. Segundo a Bloomberg, a injeção líquida para os bancos foi de 460 bilhões de yuans (aproximadamente 384 bilhões de reais) nesta semana, incluindo 70 bilhões de yuans (aproximadamente 58 bilhões de reais) na sexta-feira (24).

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Na semana passada, Fu Linghui, porta-voz do Escritório Nacional de Estatísticas da China, reconheceu as dificuldades de "algumas grandes empresas imobiliárias", de acordo com a mídia estatal. Sem citar diretamente o Evergrande, Fu disse que o mercado imobiliário da China permaneceu estável este ano, mas o impacto dos recentes eventos "no desenvolvimento de toda a indústria ainda precisa ser observado".

Pequim terá muitas questões a resolver nos próximos meses, o governo deverá proteger os milhares de chineses que compraram apartamentos inacabados, assim como os trabalhadores da construção civil, fornecedores e pequenos investidores, além de limitar o risco de crise nas demais empresas imobiliárias.

Há muito tempo, a segunda economia do mundo tem tentado controlar os empréstimos excessivos e as últimas ações comprovam o empenho do país em reforçar a mensagem. Porém, ainda existirão questões que não dependerão somente do estado mas também da confiança do consumidor e das microdecisões de milhares de empresas.

Fonte: New York Times,CNN,Bloomberg