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BitBus: o museu itinerante brasileiro que conta a história da informática

Por  • Editado por Bruno De Blasi |  • 

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Divulgação/Bit Bus
Divulgação/Bit Bus

Em tempos em que as respostas sobre fatos históricos podem estar todas na palma da mão (ou na tela do celular), um projeto desenvolvido por pesquisadoras da Universidade de Caxias do Sul (UCS) optou por seguir um caminho diferente: utilizar um ônibus para levar a informação até as pessoas.

O projeto em questão chama-se Bit Bus, nome que une “bit” (menor unidade digital processada por um computador) a “bus” (ônibus, em inglês). A essência da iniciativa é levar a história da computação a locais onde a cultura digital ainda é restrita.

Idealizadora e coordenadora do projeto, Scheila de Avila e Silva afirma que levar conhecimento sobre tecnologia a escolas e espaços que enfrentam diferentes realidades apresenta às pessoas uma nova forma de educação.

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“A sala de aula não é ruim, mas acabam sendo 300 dias quase iguais para os alunos. Nesse contexto, o Bit Bus chega para ser um espaço não formal de educação, onde direcionamos o ensino em cima da curiosidade sobre CPU e processadores, por exemplo”, destaca a docente da UCS em entrevista ao Canaltech.

De um presente a um museu na estrada

Graduada em graduada em Gestão da Tecnologia da Informação e também em Ciências Biológicas, a relação de Scheila com o Bit Bus começou antes de o museu itinerante pegar a estrada. O ponto de partida foi um presente recebido de um professor: um disco removível de 1974 que, segundo ela, tinha o formato de uma pizza.

A partir disso, a pesquisadorea criou uma coleção com itens que resgatam a memória da informática. Esse acervo foi apresentado no ano de 2018 em exposições nos campi de Vacaria e Bento Gonçalves da UCS, que fizeram sucesso.

O êxito inicial levou Scheila a intensificar conversas com a também docente Roberta Alina Boeira para definir os próximos passos do projeto. Em 2019, surgiu a ideia de realizar a exposição dentro de um ônibus, iniciativa que só pôde sair do papel após a pandemia.

Foi em 2022 que veio a aprovação em um edital do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) voltado à educação itinerante.

“Abriu um edital para adaptação de veículos para ciência itinerante e incluía a cessão do ônibus. Tivemos o recurso para fazer toda a adaptação e colocar o projeto na estrada”, relembra Scheila.

Apesar do apoio federal, o projeto ainda depende de investimentos privados para cobrir custos operacionais, como combustível e seguro do veículo que abriga a exposição.

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Computador 100% brasileiro como relíquia

Entre as atrações do ônibus, Scheila destaca a presença do D8100, computador 100% brasileiro produzido pela empresa Dismac na década de 1980.

“Eu adoro essa peça porque ela é muito emblemática, é uma cópia por engenharia reversa do Apple II. E ele ainda funciona! Não ligo porque tenho medo de estragar, mas ele permanece bem preservado depois de tanto tempo”, afirma a coordenadora do projeto.
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Outro ponto alto da exposição é a instalação Eletrópolis, obra do artista Luiz Acosta feita com 15 placas de processadores Pentium 4. A arte conta com iluminação especial que faz com que as sombras das placas projetem a imagem de uma cidade na parede do ônibus.

A mostra também reúne diversos monitores antigos, que exibem peças como disquetes e processadores Pentium 486 e Intel 8080. Além disso, o público tem acesso a vídeos e imagens relacionados à história da computação.

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Diversidade, acessibilidade e sustentabilidade

O projeto itinerante conta ainda com um painel chamado Mentes Digitais, no qual os visitantes conhecem a história de 20 mulheres de diferentes épocas que foram fundamentais para o desenvolvimento da informática — uma forma de combater a invisibilidade feminina no setor.

“A Enedina Marques é a primeira mulher negra a se formar engenheira no Brasil, e ela é tão invisibilizada que foi até difícil achar uma foto dela. É um exemplo de que o mundo ainda é difícil para as mulheres, mesmo hoje. E dar essa visibilidade é uma das nossas preocupações”, afirma.
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Em relação à acessibilidade, a exposição oferece sistemas de audiodescrição, etiquetas em braille e vídeos com tradução em Libras. Scheila acrescenta que a instalação do piso tátil no veículo está em fase final.

Também há preocupação com o meio ambiente. Além de exibir a obra Caixa D, da artista Cristina Lisot — que utilizou fios de rede para criar borboletas iluminadas —, a iniciativa aborda a sustentabilidade de forma educativa.

“Quando a gente vai a uma escola, conversamos sobre o Bit Bus com as crianças, mas também fazemos oficinas sobre sustentabilidade, onde falamos sobre a ressignificação de resíduos, tempo de reciclagem e o cuidado com o lixo eletrônico”, explica a bióloga.

Planos para 2026

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O Bit Bus já atendeu mais de 5 mil pessoas e a expectativa é ultrapassar as fronteiras do Rio Grande do Sul e alcançar um público ainda maior em 2026.

Com esse objetivo, Scheila criou o Instituto Científico e Cultural Bit Bus. O instituto promove ações educativas e de divulgação científica, e possibilita a captação de recursos para garantir a continuidade do projeto via leis de incentivo, como Rouanet e Aldir Blanc.

Os planos incluem ainda a criação de uma linha de brinquedos educativos e uma iniciativa voltada a mulheres em situação de vulnerabilidade. A proposta é ensiná-las a transformar resíduos eletrônicos em peças de decoração e oferecer oficinas sobre comercialização desses produtos.

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As iniciativas já colocadas em prática, assim como aquelas previstas para o futuro, mostram como o Bit Bus se consolidou como uma plataforma cultural capaz de cruzar estradas brasileiras levando educação e ciência.

“Agora que já mostramos que é possível e existe, queremos que o ônibus vá para lugares ainda mais distantes, remotos, e atinja comunidades que não conseguem receber essas informações. O Bit Bus não é um trabalho, é uma missão de vida de todos os envolvidos”, conclui Scheila.

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