Temperatura noturna vem aumentando mais que a diurna, impactando o ecossistema

Por Natalie Rosa | 11 de Outubro de 2020 às 16h30
Reprodução: Romet Tagobert/Unsplash

As mudanças climáticas vêm impactando o planeta de diversas formas, provocando o contínuo aumento das temperaturas. Agora, um novo estudo mostra que as noites estão ficando quentes a cada vez mais rápido, em comparação com a parte do dia, na maior parte dos pedaços de terra localizados no globo.

A pesquisa, publicada no jornal acadêmico Global Change Biology, conta que essa alteração climática pode influenciar vários fatores da natureza, desde a dinâmica dos predadores até o crescimento de plantas. "A mudança no clima já está bagunçando as coisas. Mas a assimetria das 24 horas está adicionando uma dimensão extra de complexidade", explica Daniel Cox, ecologista da Universidade de Exeter e autor principal do estudo.

Pesquisas anteriores feitas com o tema mostraram que o aumento da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera não apresentavam impacto nas temperaturas na mudança do dia para a noite, mas Cox revela que o novo estudo dessa assimetria é o primeiro que cobre todas as partes terrestres do planeta.

Imagem: Reprodução/Konevi/Pixabay

Com a noite ficando a cada vez mais quente que o dia, a natureza começa a apresentar alterações, como em um estudo feito em 2017 que descobriu que aranhas começavam a procurar refúgio quando estava ainda de dia. Isso fazia com que os gafanhotos tivessem mais tempo comendo as plantas que contavam com essa proteção. Porém, as aranhas acabam caçando os gafanhotos de maneira mais intensa quando as temperaturas noturnas são aquecidas, o que acaba reduzindo a quantidade de insetos. Esses efeitos podem acabar se espalhando em um ecossistema ainda maior, impactando plantas e a vida selvagem.

A ecologia noturna não é muito estudada pelos cientistas, que acabam focando mais na atividade dos organismos durante o dia, sendo este o motivo pelo qual Cox se interessou em tentar entender melhor a assimetria das temperaturas ao redor do planeta. Para isso, o pesquisador, junto a sua equipe, mapeou 35 anos de dados de temperatura, cobertura do céu por nuvens, precipitação e umidade, e para cada pixel de área de terra foi analisada como as temperaturas máximas de dia e mínimas à noite foram alteradas com o passar do tempo.

Resultados

As pesquisas mostraram que, ao nível global, as noites estão se aquecendo mais que os dias, e que grande parte área estudada apresentou um rápido aumento da temperatura no período da noite em comparação com o dia. Segundo os pesquisadores, essa mudança parece estar relacionada com o aumento dos dias nublados, que consequentemente levam ao crescimento das temperaturas.

Imagem: Reprodução/JacLou DL/Pixabay

Em regiões mais úmidas, as temperaturas mais elevadas vêm fazendo com que mais água evapore, levando ao surgimento de mais nuvens. Durante o dia, as nuvens esfriam e bloqueiam o sol, enquanto à noite fazem com que o calor fique mais próximo ao solo. Normalmente, regiões mais úmidas acumulam mais nuvens com o passar do tempo e ficam mais aquecidas à noite, enquanto uma menor porção de terra já árida se torna mais seca conforme as temperaturas aumentam durante o dia.

O líder do estudo incluiu também na pesquisa o índice de área foliar, uma medida de cobertura do dossel (resultado da sobreposição de galhos e folhas das árvores) da planta que é usada para estimar a produtividade da flora. Em um geral, a temperatura aumenta trazendo tanto calor extremo de dia quanto à noite, prejudicando a área foliar. E com o crescimento das temperaturas na parte noturna, a respiração das plantas aumenta neste mesmo período, mas os dias mais nublados tornam difíceis a obtenção da energia para a respiração, uma vez que a fotossíntese exige a luz do sol.

A pesquisa, agora, vai permitir que Cox continue estudando a forma na qual os animais vêm lidando com a mudança climática durante a noite. "Sabemos que o mundo está mudando através da influência humana, mas não temos ideia de como a noite está mudando", conta o cientista, afirmando ainda que essa falha é como um buraco na literatura.

Fonte: Popular Science

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