Processo contra o Google nos EUA pode afetar o modo como você usa seu celular

Por Rui Maciel | 23 de Outubro de 2020 às 14h50
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Na última terça-feira (23), o Departamento de Justiça dos EUA entregou um "presente de Halloween" pouco agradável ao Google: um gigantesco processo antitruste, acusando a empresa de práticas que eliminam a competição nos mercados de busca e publicidade e que prejudicariam os consumidores, já que eles não teriam alternativas e ainda seriam privados da inovação que a concorrência pode trazer.

O Google, claro, não ficou calado. Em um post em seu blog oficial, a empresa afirma que a ação judicial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos é "profundamente falha". Segundo a Big Tech, "as pessoas usam o Google porque escolhem fazê-lo, não porque são forçadas ou, porque não conseguem encontrar alternativas". Além disso, o Google diz que o governo norte-americano apoia-se em argumentos antitruste duvidosos para criticar seus esforços de tornar a Busca disponível de modo mais fácil para as pessoas.

Mas, em última análise, essa disputa pode atingir a nós, usuários de smartphones de alguma forma? Spoiler: SIM!

No entanto, nada mudará para os consumidores no curto prazo. Os casos antitruste demoram anos e anos para avançar e gerar algum resultado. Tome como exemplo a Microsoft, sofreu uma ação semelhante da Justiça americana por causa de práticas anticompetitivas com o seu antigo navegador, o Internet Explorer. E a coisa toda rolou durante 13 anos até um acordo final entre as partes.

Barra de buscas pré-instalada em um smartphone Android: prática na mira da Justiça dos EUA (Captura: Rui Maciel)

O fato é que antes do processo parar em um tribunal, o Google e o Departamento de Justiça se sentarão à mesa para tentarem chegar a um acordo e só essa etapa em si leva um bom tempo. Mas, caso as duas partes não se entendam, aí sim o caso vai parar na corte. E para que saia um resultado, a coisa toda levará anos e anos, principalmente por cauda das apelações que os dois lados usarão, caso não concordem com a decisão do juiz.

Mas caso o juiz emita uma decisão que force o Google a mudar suas práticas de negócios, ela impactará tanto os bilhões de usuários Android e outros serviços da "Big G', quanto outras bilhões de pessoas que usam serviços concorrentes. Inclusive, o caso pode alterar a quantidade de dados que as pessoas fornecem ao Google ou afetar os aplicativos que vêm instalados nos telefones. Veja como isso pode acontecer:

Os contratos do Google

No cerne do caso aberto pelo Departamento de Justiça estão os contratos do Google com outras empresas, que definem o seu mecanismo de busca como a opção padrão em aparelhos como iPhones e os smartphones da Samsung. É um negócio dos bons e o Google paga bilhões de dólares por ano para garantir que o seu recurso de pesquisas seja o centro das atenções. Isso significa que a empresa está no controle do que as pessoas veem sempre que pesquisam por itens em seus telefones.

A reclamação do Departamento de Justiça foca especificamente no acordo do Google com a Apple. O primeiro paga à segunda de US$ 8 bilhões a US$ 12 bilhões em receita publicitária por ano para manter o seu mecanismo de busca como padrão. É uma prioridade para ambas as empresas. O processo afirma que, em 2018, o CEO do Google, Sundar Pichai, e o CEO da Apple, Tim Cook, se reuniram para discutir como eles poderiam trabalhar juntos para gerar receita. Após a reunião, um funcionário da Apple teria escrito a um funcionário do Google: "Nossa visão é que trabalhemos como se fôssemos uma única empresa".

O acordo é uma é muito bem-vindo para ambas as big techs: o processo diz que ele é responsável por 15% a 20% dos lucros anuais da Apple. Também afirma que quase metade do tráfego de busca do Google no ano passado veio de dispositivos com iOS O negócio é tão importante que caso o Google o perca, ele ativaria um cenário chamado de "Código Vermelho", de acordo com a ação do Departamento de Justiça. Ou seja, a coisa ficaria bem preocupante para a gigante das buscas.

O preço dos smartphones

De acordo com o site CNET, em uma teleconferência realizada nessa semana, o Google argumentou que o acordo com a Apple ajuda a manter os preços dos telefones baixos. A empresa disse que seus pagamentos à Maçã são parte do que ajuda a fabricante do iPhone a entrar no segmento inferior do mercado, algo que a Apple fez ao adicionar o iPhone SE, modelo de baixo custo, à sua linha.

Se a Apple não receber mais essa receita, analisa o Google, ela poderá repassar os custos junto aos consumidores, o que significa preços mais altos. O Google também argumenta que reduziu o preço de outros dispositivos ao fornecer seu sistema operacional móvel Android gratuitamente aos fabricantes de telefones.

Segundo o Google, smartphones podem ficar mais caros caso seja derrotado no processo contra o Departamento de Justiça dos EUA (Imagem: Maurizio Pesce / Wikimedia)


Em entrevista a mesma CNET, Avi Greengart, analista-chefe da empresa de pesquisas Techsponential, diz que o argumento do Google faria sentido se fosse aplicado a qualquer fabricante de smartphones. No entanto, o Google estende a lógica ao falar apenas sobre o iPhone que, mesmo em sua versão mais "popular", não é dos mais baratos se comparado a seus rivais na mesma categoria. "A Apple não precisa obter esse dinheiro do Google. Ela poderia obter essa receita de outro pretendente, como a Microsoft , diz Greengart. "Não está claro para mim que os preços dos telefones subam [caso o Google perca o processo antitruste contra o governo dos EUA]".

A Microsoft - que, como dissemos antes, foi alvo do Departamento de Justiça dos EUA, duas décadas antes do Google - torna o Bing, o concorrente de busca mais próximo do Google, embora esteja em um equidistante segundo lugar. O Bing detém 7% do mercado dos Estados Unidos, muito atrás dos 88% do Google. A Microsoft também paga à Apple para ter o Bing em destaque nos dispositivos Apple, mas sem a mesma efetividade em termos de tráfego.

Android e os aplicativos pré-instalados

O Departamento de Justiça também investiga o Google por seus contratos comerciais a partir do Android. O sistema operacional móvel da empresa domina o mercado de smartphones, com 74,6% de participação, segundo dados do Statista. As autoridades norte-americanas afirmam que o Google "bloqueia" a distribuição de outros mecanismos de busca no Android, forçando as fabricantes parceiras a pré-instalar seu serviço, além de outros aplicativos da marca nos dispositivos.

Para se livrar dessa acusação, o Google está disposto até mesmo a provar que a estratégia não dá muito certo. A gigante das buscas argumenta que tais aplicativos pré-instalados nos celulares não são garantia de sucesso para a companhia. Eles apontam para o malfadado Google Plus, seu rival contra o Facebook no mercado de redes sociais. A plataforma foi uma iniciativa importante, promovida pelo cofundador do Google, Larry Page e foi pré-instalada em telefones Android. Mas, no final das contas, não chegou a lugar algum, sendo massacrado pelo serviço de Mark Zuckerberg, fato que até mesmo os representantes do Google reconhecem. Com isso, o Google Plus foi encerrado no ano passado.

No entanto, para Bob O'Donnell, analista da Technalysis, ainda assim, os aplicativos pré-instalados vindos de fábrica, e que rodam como padrão, fazem a diferença. Estudos mostraram que as configurações padrão são importantes e os consumidores podem hesitar em alterá-las ou não saber como fazê-lo. Isso já é suficiente para que o Google gaste bilhões por ano para manter seu status dentro dos aparelhos. "Se as pessoas pudessem escolher, a maioria ficaria no Google, mas alguns podem optar por um rival", diz O'Donnell. "Não há dúvida de que os padrões têm poder".

Ainda nesse campo, o Google afirma que, de fato, paga para promover seus serviços, mas aponta o dedo para os outros, dizendo que eles fazem a mesma coisa:

"Assim como uma marca de cereal pode pagar um supermercado para estocar seus produtos no final de uma fileira ou em uma prateleira ao nível dos olhos do consumidor [nós também pagamos para promover nossos produtos]. Para serviços digitais, quando você compra um dispositivo pela primeira vez, ele tem um tipo de “prateleira ao nível dos olhos” na tela inicial. No celular, essa prateleira é controlada pela Apple, além de empresas como a AT&T, Verizon, Samsung e LG. Em computadores desktop, essa prateleira é esmagadoramente controlada pela Microsoft.

Portanto, negociamos parcerias com muitas dessas empresas por espaço nas prateleiras ao nível dos olhos. Mas sejamos claros: nossos concorrentes também estão disponíveis, se você quiser usá-los. Nossos acordos com a Apple e outros fabricantes e operadoras de dispositivos não são diferentes dos acertos que muitas outras empresas tradicionalmente usam para distribuir software. Outros mecanismos de pesquisa, incluindo o Bing da Microsoft, competem conosco por esses acordos. E nossos contratos foram avaliados por repetidas avaliações antitruste".

Logo, senhoras e senhores, apertem os cintos. Essa briga vai longe. E, mais cedo ou mais tarde, ela vai afetar a forma como você usa seu smartphone.

Fonte: CNET  

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