Google demite outra funcionária envolvida em ativismo trabalhista

Por Rafael Arbulu | 17 de Dezembro de 2019 às 13h45
Tolga Akmen/AFP/Getty Images
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Um novo episódio da já duradoura briga entre o Google e seus funcionários ativistas apareceu hoje na internet: segundo o Techcrunch, a empresa de Mountain View demitiu mais uma funcionária envolvida com o ativismo trabalhista que permeia a empresa. Kathryn Spiers atuava na equipe de programação e segurança do Google, escrevendo códigos do Chrome para que funcionários recebessem, pelo navegador, notificações referentes a prazos e compromissos de agenda.

De acordo com a própria Spiers, o Google determinou a sua demissão porque ela escreveu um código de notificação que enviava pequenos lembretes de direitos trabalhistas aos funcionários da empresa. Ela confirma que desenvolveu o material, incentivada pelo conhecimento de que o Google estaria firmando parceria com uma empresa de contra-ataque a plataformas sindicais do estado da Califórnia, além de estar agindo com demissões retaliatórias contra funcionários envolvidos em ativismo interno.

Uma das notificações dizia “‘Googlers’ (sic) têm o direito de participar de atividades e reuniões protegidas”. Trocando em miúdos: uma lei estadual da Califórnia permite que funcionários se organizem em grupos de ativismo trabalhista e mantenham reuniões protegidas — algo que o Google vem atacando por meio de demissões nos últimos meses.

Kathryn Spiers, ex-funcionária do Google, alega ter sido demitida pela empresa em retaliação ao seu ativismo trabalhista, que é protegido por lei nos EUA (Foto: Reprodução/Techcrunch)

“Ao longo de meu período no Google, eu vi as pessoas irem de uma completa confiança à empresa — sempre lhe dando o benefício da dúvida — à empresa usando qualquer desculpa para atacar funcionários”, disse Spiers ao Techcrunch. “A empresa perdeu esse sentimento dos trabalhadores, e tomou repetidas ações que reduziram a sua confiança e, como eu disse em meu blog, ‘um Google menos transparente é um Google menos confiável’”.

Spiers refere-se a um post que ela publicou no Medium, onde também alega que, em retaliação à sua ferramenta de notificação, o Google a suspendeu sem aviso prévio, no mesmo dia em que demitiu outros quatro funcionários por suposto ativismo (o Canaltech noticiou o caso, que ficou conhecido como “Os Quatro do Dia de Ação de Graças”). Mais além, a agora ex-funcionária alega que o Google a interrogou em três ocasiões, questionando-a sobre organizações ativistas e se ela tinha a intenção de “causar disrupção” no ambiente de trabalho.

“Esses interrogatórios foram extremamente agressivos e ilegais”, Spiers escreveu no Medium. “Eles não permitiram consultar-me com ninguém, incluindo um advogado, e me pressionaram sem descanso a incriminar a mim mesma e a colegas com quem conversei sobre exercer os meus direitos no trabalho”.

O Google já foi alvo de protestos no passado, em relação a comportamento de assédio por figuras proeminentes da empresa: organizadores das reclamações alegam terem sofrido retaliações da gestão meses depois (Imagem: Reprodução/Google Walkout for Change)

O Google não respondeu diretamente às acusações de Spiers, limitando-se a dizer que demitiram, no último dia 13, “uma funcionária” por “ter abusado de acesso privilegiado para modificar uma ferramenta interna de segurança”, segundo porta-voz da empresa falou ao TechCrunch. A pessoa ainda disse que isso “se tratava de uma violação séria”.

Spiers, porém, não aceitou a justificativa. Segundo ela própria publicou no Medium, funcionários costumeiramente alteravam códigos de algumas ferramentas no intuito de tornar suas funções mais simplificadas, além de usá-las para compartilhar hobbies e interesses. “A empresa nunca reagiu agressivamente em resposta a notificações como esta no passado. Isso sempre foi celebrado como parte da cultura [empresarial]”.

Spiers agora está acionando advogados para entrar com um processo contra o Google, acusando a empresa de tratamento injusto. Na ação ingressada dentro do órgão de proteção trabalhista dos EUA (National Labor Relations Board), os advogados da profissional argumentaram que “[a demissão de Spiers] foi feita para de tentar impedir que ela e outros empregados assegurassem seus direitos de se engajar em atividades trabalhistas protegidas”.

Em duas semanas, essa é a segunda ação trabalhista enfrentada pelo Google, sob acusações similares de retaliação ao ativismo trabalhista. Os chamados “Os Quatro do Dia de Ação de Graças” também abriram ação conjunta contra a empresa por uma série de alegações: além das questões de retaliação trabalhista, eles também questionam a forma com que a empresa trata funcionários temporários, contratados e terceirizados, sinalizando uma preferência da companhia dependendo do tipo de contratação. Outro tópico mencionado na ação foi o envolvimento do Google com o departamento de controle alfandegário e de imigração do governo dos Estados Unidos.

Google agora enfrenta acusações sérias nos órgãos de regulamentação trabalhista dos Estados Unidos (Imagem: Reprodução/Google Walkout for Change)

No ano passado, uma passeata pelo campus em protesto contra episódios de assédio foi organizada e executada por funcionários do Google. O movimento atacou a forma como a empresa abordou o caso de Andy Rubin, criador do sistema operacional Android, que teria forçado uma secretária a lhe fazer sexo oral em seu quarto de hotel durante uma viagem de trabalho. Rubin foi “convidado a se retirar” da empresa, mas levou para casa um pacote de rescisão contratual de US$ 90 milhões. A medida foi vista por muitos como uma espécie de "recompensa" à má conduta de Rubin, que saiu do Google para fundar a Elemental.

Poucos meses depois, Claire Stapleton e Meredith Whitaker, duas das principais figuras de organização da referida passeata, disseram estar sofrendo retaliações da gestão do Google, por meio de transferências inexplicadas de departamento. Além disso, a companhia teria ordenando que colegas de área as ignorassem. Elas pediram demissão por conta própria, mas alegam tê-lo feito somente porque os ataques sofridos tornaram o ambiente de trabalho insustentável.

Vale citar: a organização em células de ativismo trabalhista é uma atividade protegida por lei federal nos Estados Unidos.

Fonte: TechCrunch

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