YouTube altera seu algoritmo e prejudica vários produtores de vídeos infantis

Por Daniele Cavalcante | 02 de Agosto de 2019 às 08h58
Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images
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Para tentar melhorar sua imagem junto aos pais de crianças e aos órgãos reguladores, o YouTube fez uma mudança em seu algoritmo no início de julho com o objetivo de gerar tráfego para determinados produtores de vídeo e “enterrar” outros que supostamente seriam pouco confiáveis. Mas isso acabou causando grande preocupação entre os criadores de conteúdos da plataforma, que, sem nenhuma explicação, viram uma grande queda no tráfego de seus vídeos.

Há alguns anos o YouTube tem enfrentado dificuldades com os conteúdos voltados para os pequenos. Esse público é enorme, mas também causa muitos problemas. No início deste ano, foram descobertos vídeos infantis na plataforma que escondiam instruções sobre como cometer suicídio, e esse é apenas um de muitos casos em que a empresa deixou passar conteúdos impróprios e perturbadores para as crianças.

Os algoritmos do YouTube determinam como os vídeos são colocados nos resultados de pesquisa e nas recomendações. A empresa é sempre muito reservada sobre as atualizações que realiza no sistema, bem como sobre como ele funciona, e muitas vezes essas mudanças sequer são percebidas. Mas, desta vez, seja lá o que foi alterado, foi bem perceptível para muitos canais infantis.

Videogyan, um canal do YouTube com mais de 7 milhões de assinantes, teve uma queda recente no tráfego. (Captura de tela: Bloomberg)

Queda para alguns, ascensão para outros 

Criadores de conteúdos afirmam que o YouTube não comunicou sobre a mudança. Um deles publicou em um grupo privado do Facebook um gráfico mostrando queda de 98% no seu tráfego, isso em apenas três dias. “É hora de parar de criar conteúdo infantil?”, questionou ele.

Além disso, os criadores disseram que as atualizações impactaram tanto o YouTube quanto o YouTube Kids, o aplicativo voltado ao público infantil. Alguns canais foram incluídos nas recomendações e viram aumentos nas visualizações e nas inscrições. Woolly e Tig, um canal britânico que faz vídeos de uma garota e seu bicho de pelúcia, teve um aumento de 156% nas visualizações nos últimos 30 dias, de acordo com a Social Blade, empresa que mede o tráfego na plataforma de vídeos da Google.

Outros tipos de conteúdo são determinados vídeos de canções de ninar, que contam com milhões de visualizações. James Bridle, um escritor britânico, elaborou um artigo sobre esse gênero em 2017, detalhando como esses vídeos criam seu conteúdo e formato com base em "palavras-chave geradas por algoritmo". Eles são feitos exclusivamente para ter um bom desempenho no YouTube, mas parece que o novo algoritmo está punindo esses produtores. Alguns dos canais do serviço que Bridle citou em seu texto tiveram queda de mais de 25% em suas visualizações no último mês.

Já outro gênero particular de vídeo de músicas infantis está proliferando. Eles são ricos em animação e cor, e vários deles usam legendas com frases em árabe ou coreano para “aprender inglês”. Esses canais produzem vários vídeos por semana e recebem receita líquida dos anúncios que são exibidos antes do conteúdo.

Heather Kirkorian, especialista em desenvolvimento, afirma que embora esses vídeos não sejam prejudiciais, várias de suas características indicam que eles não são propícios para o melhor aprendizado das crianças. "Eles estão proliferando. É como um fungo”, concorda Melissa Hunter, da Family Video Network. "É quase como se eles encontrassem uma rachadura na armadura e a estivessem explorando".

O Canal "ABC Drawing Land", iniciado em março, teve um grande aumento no tráfego recentemente. (Captura de tela: Bloomberg)

Qual é o critério, afinal?

Nathan Laud, animador britânico por trás do canal Tiny Tunes, disse que suas visualizações diárias caíram cerca de 80% desde a atualização do algoritmo. “Meu conteúdo tem um objetivo principal, que é ser educacional”, escreveu Laud, pai de dois filhos.

Quando ele perguntou ao YouTube sobre a queda de seu tráfego, o suporte da empresa respondeu por e-mail que houve uma mudança nos "sistemas de descoberta" que conectam os espectadores aos vídeos, mas não detalhou porque seus vídeos foram afetados por essa atualização. "Depois de investigações, não encontramos problemas em seu canal", dizia o e-mail. "Tudo está funcionando como pretendido."

Após a polêmica, o YouTube confirmou a atualização recente, mas se recusou a detalhar os motivos por trás disso, limitando-se a dizer que realizou "uma alteração que melhora a capacidade de os usuários encontrarem conteúdo familiar de qualidade".

Sundar Pichai, diretor executivo da Google, falou recentemente na teleconferência de resultados da empresa sobre "premiar os criadores de conteúdo confiáveis”. Infelizmente, o YouTube não oferece exemplos de "criadores confiáveis", o que deixa todos no escuro.

Fonte: Bloomberg

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