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Site expõe como a Apple tem ajudado o governo da China a censurar seus cidadãos

Por Rafael Rodrigues da Silva | 04 de Fevereiro de 2019 às 08h28
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Um novo website criado por pesquisadores da Great Fire, uma organização que monitora a internet chinesa para saber o que o governo está censurand, mostra aquilo que a Apple tenta esconder do público com todas as suas forças: o modo como a empresa tem ajudado o governo chinês a censurar o acesso à informação da população.

Conhecido como AppleCensorship.com, o site mostra quais apps não são acessíveis na Apple Store da China, indicando aqueles que foram removidos pela empresa a pedido de Pequim. Entre os apps censurados, é possível encontrar diversos aplicativos de notícias, de informações sobre direitos humanos e liberdade religiosa, além de apps cujo objetivo é melhorar a segurança da navegação e a privacidade dos usuários.

O fato de a Apple cooperar com o governo chinês não é novidade: em 2017, a empresa admitiu para senadores dos Estados Unidos que havia removido da App Store chinesa mais de 600 VPNs — apps que impediam que a navegação dos usuários fosse espionada pelo governo e o acesso a sites bloqueados no país. Mesmo assim, a empresa nunca revelou quais eram esses apps e nem se chegou a deletar outros programa a pedido do governo chinês.

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O site revela que, além de VPNs, a Apple também não permite que usuários da China tenham acesso a apps de diversas organizações de notícias, incluindo o New York Times, a Radio Free Asia, o Tibetan News e a Voice of Tibet. Os usuários do país também não conseguem acessar aplicativos como Tor e Psiphon (apps que permitem evitar as ferramentas de censura da internet da China), a busca do Google e o Google Earth, o app Bitter Winter (que possui informações sobre direitos humanos e liberdade religiosa na China) e um app da Autoridade Central Tibetana, que divulga informações sobre problemas sociais e direitos humanos de cidadãos do Tibet.

De acordo com Charlie Smith, cofundador da Great Fire, a motivação para a criação do site foi o fato de a Apple não ser nada transparente com os conteúdos que ela tem censurado na App Store da China, e muitos desenvolvedores só percebem que seu app foi censurado ao encontrarem uma queda repentina no tráfego e investigar a causa do problema.

Por enquanto, o site ainda não consegue dizer exatamente qual foi o motivo da retirada do app, então não dá pra dizer com certeza se um app foi removido da loja por causa da censura a informações e liberdade de expressão promovida pelo governo chinês ou se por violar outras leis do país, como por exemplo a que proíbe todos os tipos de jogos de azar. Mas, ainda que o site em si não forneça essas informações, é fácil descobrir o motivo ao procurar saber o conteúdo do app removido ou então procurar se ele está disponível em outros países que possuem leis parecidas (no caso de remoção por motivo de jogo de azar).

Por exemplo, a Radio Free Asia há décadas é censurada pelo governo chinês por conta de seu trabalho de reportar abusos aos direitos humanos cometidos na China por órgãos do governo. Desde a década de 1990 as transmissões da rádio são bloqueadas no país, e agora sabemos que a Apple tem ajudado a bloquear o acesso aos conteúdos dela pela internet.

Em entrevista ao site The Intercept, Rohit Mahajan, porta-voz da Radio Free Asia, revelou que, em dezembro do ano passado, um representante da Apple havia informado ao veículo que o app deles havia sido removido da App Store na China devido a “motivos legais”, mas não ofereceu nenhuma chance de a empresa se defender ou apelar da decisão.

Perguntada sobre o assunto, a Apple se recusou a falar sobre a remoção de apps específicos da App Store da China e apontou uma cláusula nas regras de uso de sua loja virtual que exige que os apps estejam de acordo com as leis específicas de cada país onde serão lançados. Além disso, a empresa disse que se reserva ao direito de removê-los de lojas específicas caso o aplicativo viole alguma lei local.

Tim Cook, CEO da Apple, tem publicamente se colocado como um defensor da privacidade dos dados dos usuários, declarando em outubro do ano passado que “a privacidade de dados é um direito humano fundamental” — e é essa defesa o pivô da briga com o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg. Apesar disso, o chefão da Maçã tem defendido algumas decisões polêmicas para poder operar dentro da China, como a permissão para que uma empresa estatal chinesa seja a responsável por gerenciar os servidores o iCloud no país, dando ao governo acesso a todos os dados de todos os usuários de iPhone no país.

Do ponto de vista de negócios, é fácil entender porque Cook defende esse acordo: afinal, aceitar ele era uma obrigação imposta pelo Partido Comunista para que a Apple tivesse acesso ao mercado do país, um dos mais lucrativos do mundo e que possui mais de 800 milhões de usuários de internet. Mas, ao mesmo tempo, pega mal para alguém que se expõe tanto como “defensor da privacidade” ajudar tão tranquilamente um governo que quer monitorar todas as atividades de seus cidadãos 24h por dia.

Fonte: The Intercept

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