CPI das Fake News debate formas de tornar a internet mais segura

Por Rafael Rodrigues da Silva | 01 de Novembro de 2019 às 10h48
Divulgação / Apple

Na última terça-feira (29) a CPI das Fake News realizou uma audiência pública para debater sobre três assuntos urgentes na questão da internet: o uso de fake news para manipular uma eleição, e maneiras de proteger as crianças de predadores sexuais e do cyberbullying, que pode levá-las ao suicídio.

O primeiro a depor para a comissão parlamentar mista de inquérito foi Thiago Tavares Nunes de Oliveira, fundador da ONG SaferNet Brasil, que atua no desenvolvimento de formas de aumentar a segurança da internet no Brasil e no mundo. Na audiência, Tavares explicou como funcionam as campanhas de desinformação pelas redes sociais, e no que realmente devemos prestar atenção para tentar coibir o problema.

Tavares explicou que o ponto de partida dessas campanhas que utilizam o Facebook são a criação de um conteúdo que ele chama de “inflamatório”, algo que é criado já com o objetivo de gerar comoção. Esse conteúdo é então injetado numa “bolha virtual”, ou seja, ele é direcionado para um público muito específico que sabe-se que não conseguirá ver este tipo de postagem sem interagir com ela. Não importa se as interações conseguidas são likes e compartilhamentos, ou então comentários explicando como aquilo é um absurdo: a ideia deste tipo de postagem não é angariar seguidores, mas sim enganar os algoritmos da rede social. Quanto mais interações de qualquer tipo um conteúdo tiver, mais “importante” o algoritmo do Facebook irá considerar aquela página ou perfil, fazendo com que as próximas postagens dele (essas sim criadas para se manipular o eleitorado) tenham um alcance orgânico maior.

Além de garantir uma maior relevância no algoritmo da rede social, muitas vezes essas postagens acabam se tornando pauta da grande mídia, o que faz com que mais pessoas procurem por ela, aumentando ainda mais o número de interações. Esse processo é repetido diversas vezes ao longo de toda a eleição, e essas postagens são adaptadas para que também façam sucesso em outros locais fora do Facebook, como no Twitter e nos grupos de WhatsApp.

De acordo com Tavares, este método não é exclusivo de nenhuma linha ideológica e todos os partidos políticos o utilizam como forma de garantir maior destaque nas redes. O fato de ser utilizado por tanta gente faz com que seja praticamente impossível criar um método capaz de coibir essa prática, pois qualquer tentativa de criminalizar conteúdos falsos acaba pondo em risco a liberdade de expressão, de opinião e de imprensa do país. A saída apontada pelo fundador da ONG é desenvolver mecanismos que detectam esses conteúdos falsos de maneira mais rápida e possam mostrar para o público que se trata de algo que não é verdade. Outra saída é exigir mais transparência e prestação de contas das empresas de tecnologia donas dos programas e redes sociais usados para espalhar essas notícias.

Proteção à infância

Quem também foi ouvido na audiência foi Alessandro Barreto, coordenador do Laboratório de Inteligência Cibernética (uma divisão do Ministério da Justiça e da Segurança Pública) e responsável pela Operação Luz na Infância, que investiga casos de exploração sexual de crianças e adolescentes em todo o país. Barreto afirmou que uma das maiores dificuldades em encontrar predadores sexuais é que não há um perfil específico para este criminoso, e as 600 pessoas presas pela Operação possuem perfis totalmente distintos.

Ele ainda alerta que a legislação brasileira possui falhas que atrapalham a proteção dos jovens no ambiente virtual, citando, por exemplo, que é necessário obter uma ordem judicial para conseguir o endereço IP de qualquer computador, mesmo que essa informação não tenha qualquer tipo de dado pessoal do usuário ligado a ela. Outro problema citado por ele são as penas do país para os crimes de abuso e exploração sexual de menores, que são bastante brandas.

Quem também falou à CPI foi o médico Carlos Felipe D’Oliveira, da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio. O médico alerta que, desde 2013, as taxas de suicídio no Brasil aumentaram em 10% e não há nenhum plano para reduzir esse problema de forma imediata.

Um dos problemas apontados como um possível causador desse aumento foi o cyberbullying, definição onde entra não apenas os insultos virtuais, mas também o compartilhamento sem permissão de conteúdos privados e o pornô de vingança. D’Oliveira alerta que criar um “plano geral” para a redução do suicídio não é suficiente, indicando que também é necessária a existência de planos regionais, pois o cyberbullying é um problema que tem impacto diferente em cada região.

Por exemplo, em uma cidade de poucos habitantes no interior do país, onde os círculos sociais são mais fechados e todo mundo se conhece, a divulgação de mensagens privadas (como um nude, por exemplo) acaba tendo consequências muito mais graves do que nas grandes metrópoles, onde os círculos sociais são mais abertos e há a possibilidade de sair na rua e participar de espaços públicos sem ser julgado. O médico ainda lembra que o suicídio não tem apenas uma causa, mas é a culminação de vários fatores de risco e por isso não deve ser tratado apenas como se a única causa dele fosse o bullying online.

Fonte: Senado

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