A guerra dos serviços de streaming

Por Colaborador externo | 02 de Abril de 2019 às 07h57
Ground Report

*Por Jo Rauen

A Apple anunciou dois serviços de streaming de TV durante uma conferência de imprensa no teatro Steve Jobs, em Cupertino, na última semana.

O primeiro é chamado de Apple TV Channels e oferecerá um pacote de conteúdo de serviços populares, com programas licenciados através de canais como HBO e Showtime, e facilitará o acesso àqueles que acompanham o conteúdo existente que você talvez já tenha através de uma assinatura de TV a cabo.

Há também um segundo serviço chamado Apple TV Plus, que inclui conteúdo original criado pela Apple e seus parceiros. O serviço será lançado neste outono, mas o valor ainda não foi divulgado. O foco da Apple TV será a programação original feita por e estrelando grandes nomes de atores, produtores e diretores, incluindo JJ Abrams, Steven Spielberg e Jennifer Aniston.

Os novos serviços da Apple TV colocam a Apple na competição direta de outros players estabelecidos como Hulu, Netflix e Amazon. Outras empresas como a Disney, a AT&T e a NBCUniversal planejam lançar seus próprios serviços de streaming este ano ou no início do próximo ano.

Este fenômeno marca a maior mudança na economia do setor de entretenimento em décadas, e é uma evolução, em grande parte, impulsionada por uma empresa que está no mercado de conteúdo original há poucos anos. Tudo isso é resultado do “efeito Netflix”. O modelo de streaming, popularizado pela empresa, abalou o setor de entretenimento e se enraizou de maneira profunda e significativa entre os consumidores. O tumulto causado pela ascensão meteórica da Netflix é tudo o que o todos os eventos e feiras de produção audiovisual falam nos últimos 5 anos.

Tentando acompanhar a Netflix, os maiores conglomerados de mídia dos EUA estão empenhados em reinventar parte de suas operações como um modelo de negócios direto ao consumidor. Os maiores produtores de conteúdo do setor buscam aproveitar a eficiência do streaming de vídeo via internet para criar canais proprietários nas salas de estar, laptops, tablets e smartphones que podem ser acessados a qualquer hora e de qualquer lugar pelos seus usuários.

O modelo de negócios de streaming de vídeo direto ao consumidor é a razão pela qual a Disney e a Comcast perseguiram a compra da 21st Century Fox com tanto fervor. Foi uma grande parte da motivação da AT&T para comprar a Time Warner. A mudança não será fácil ou barata. Depois destas compras bilionárias, mais bilhões de dólares deverão ser investidos em conteúdo de alta qualidade e, ao mesmo tempo, renunciar a toda a receita tradicional de licenciamento a partir da venda direitos a terceiros e redes de distribuidores, entre estes, a própria Netflix.

Por exemplo, no início deste ano, alguns usuários do Netflix notaram que a amada série, ainda uma das sitcoms mais assistidas do mundo, “Friends” estava programada para deixar a plataforma em janeiro. Milhares de usuários nas redes sociais entraram em modo de choque, lamentando a perda de um dos itens básicos da Netflix. Em poucas horas, a empresa anunciou um contrato de U$ 100 milhões com os proprietários do programa, a WarnerMedia, para manter o programa por mais um ano.

Mas essa negociação tem prazo. Quando lançado, o serviço de streaming da AT&T poderá decidir que quer todas as suas propriedades para si. E provavelmente recorrerá a muitos de seus ativos de cultura pop recentemente adquiridos na compra da Warner, dos filmes de Harry Potter, Game of Thrones, a várias séries de TV produzidas pela Warner Bros, incluindo Friends. A Netflix perderá um de seus principais ativos, mas também verá em seu caixa U$ 100 milhões de dólares extras para investir em conteúdo original.

A Disney se encontra em situação similar e deve se despedir de cerca de U$ 300 milhões em receita anual que recebe da Netflix para os direitos de TV paga e para seus lançamentos de cinema, começando com a lista de filmes de 2019. Esses filmes, que incluem Capitã Marvel, Dumbo, Toy Story 4, O Rei Leão, Frozen 2 e um novo de Guerra nas Estrelas, serão agora os principais pontos de venda para o novo serviço da própria Disney. Não é surpresa que a Disney - a maior empresa de mídia do mundo - esteja se movimentando para acompanhar a Netflix. Bob Iger, o CEO da Disney, chama o lançamento do Disney Plus "a maior prioridade da empresa durante o calendário de 2019." Investindo no poder da marca Disney, o gigante da mídia vem para a batalha armado com Marvel, Pixar, “Star Wars” e outras marcas banhadas a ouro.

Reconhecendo a próxima mudança, a Netflix tem gasto bilhões de dólares em seu próprio conteúdo. E deve dedicar ainda mais recursos em 2019 a originais como Stranger Things e concorrentes ao Oscar como Roma. Além disso, com sua enorme base de assinantes e os milhões pagos em taxas de licenciamento, não está claro se os grandes estúdios e redes realmente vão retirar todo o conteúdo da Netflix.

E de fato, a grande base de assinantes é o maior ativo da Netflix. Hoje com 140 milhões de assinantes mundialmente, a gigante se coloca quase inalcançável, até para empresas mais experientes como a Disney e a AT&T. Em projeções otimistas, a Disney deve chegar a 60 milhões de assinantes nos próximos 10 anos. E é nesse ponto que a jogada da Apple se destaca.

A Apple confirmou que o aplicativo Apple TV chegará gratuitamente aos seus telefones, iMacs e até para televisores Samsung, Sony, LG, Vizio e outros (através de uma daquelas incomodas atualizações de sistema). Diferente dos outros serviços, eles não terão que convencer novos usuários a acessarem uma nova plataforma, mas pretendem alcançar clientes através de seus próprios dispositivos, que já estão em milhares de bolsos e escrivaninhas pelo mundo.

Servir como um hub para assinaturas de vídeo não é uma ideia nova: a Amazon começou esse caminho com seus canais Prime Video, que permitem aos membros Prime transmitir programação de terceiros como HBO, Showtime, Starz, CBS e outros pagando por cada serviço separadamente através de sua conta de faturamento da Amazon. Conveniência é, na verdade, o nome do jogo, e colocar tudo em um só lugar é muito mais simples para as pessoas que estão tentando acompanhar o que estão gastando nesses serviços. A execução da Apple é um pouco diferente, já que não requer um grande serviço como o Prime como um pré-requisito para que os consumidores possam comprar assinaturas. Então a barreira de entrada é menor. A Apple terá um corte de cada assinatura que vende, o que ajudará a impulsionar ainda mais as receitas para a divisão de serviços da empresa. Isso é crucial, pois a Apple busca outras fontes de lucro confiáveis em um mundo de vendas de iPhone. Embora a empresa possa não estar investindo no mesmo nível que a Netflix, sua posição como criadora de dispositivos e criadora de conteúdo pode se revelar valiosa.

Mas prepare-se, pois há mais gigantes prestes a entrar na guerra pela sua atenção. O Facebook e a Google também estão ocupados criando suas próprias plataformas de conteúdo global, e, portanto, muitos bilhões ainda vão rolar.

*Jo Rauen é produtor audiovisual à frente da produtora Island Bridge com sede em Florianópolis (SC) e Nova Iorque (EUA). Além de ter sido a primeira produtora brasileira a assinar uma série para Amazon Prime USA, a empresa agora trabalha ao lado da paulista Black Filmes para recontar a trajetória do nadador Daniel Dias.

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