Tudo é Internet das Coisas, mas nem tudo é a mesma coisa...

Por Samir Vani | 13 de Fevereiro de 2020 às 19h20

Hoje em dia a Internet das Coisas está presente em todos lugares. Jornais, sites, vídeos em canais do Youtube, eventos, todos falam sobre a popularização da IoT. Mas, afinal, o que é isso? Na prática, estamos falando da capacidade de se adicionar conectividade a qualquer coisa e, aqui, queremos dizer qualquer coisa mesmo – em alguns casos, mesmo que isso não traga muitos benefícios ao consumidor.

E é exatamente nessa imensa possibilidade que o termo IoT começa a se perder, porque falta especificidade, inclusive de números. Por exemplo, especialistas apontam que, até 2025, 25 bilhões de equipamentos deverão estar conectados a algum tipo de sistema inteligente em todo o mundo. Mais que isso: conectadas, estas “coisas” deverão gerar um volume de 50 trilhões de GB e movimentar algo em torno de US$ 19 trilhões na próxima década.

Os números impressionam e chamam a atenção de empresas que querem buscar o seu lugar neste mercado. E é aqui que chegamos a um ponto importante. Neste mar de possibilidades e oportunidades, é preciso saber exatamente de que oportunidades estamos falando e de quais produtos finais queremos conectar. Só assim seremos capazes de tornar esse conceito mais tangível – e a Internet das Coisas, algo realmente necessário.

Para começar, em vez de falarmos de Internet das Coisas, acredito ser mais produtivo conversarmos sobre temas como Indústria 4.0, Smart Farming, cidades inteligentes, carros conectados, tecnologia de aparelhos vestíveis, produtos de saúde e bem estar, casa conectadas, eletroportáteis conectados etc. Aqui sim. Para cada um deles temos soluções e oportunidades específicas.

Isso porque, para cada um destes setores, identificamos necessidades bastante diferentes, usos de tecnologias muito distintas e soluções e arquiteturas diferentes, cada um deles com criticidades também muito distintas. Isso sem falar em segurança e privacidade de informações, que é um tema crítico e amplo, que vale um artigo à parte.

Para tratar apenas do aspecto técnico, temos o exemplo das tecnologias LPWAN (Low Power Wide Area Coverage), que terão um papel muito importante para as cidades inteligentes. São elas que vão suportar aplicações como medições remotas de energia, gás e água, além da iluminação inteligente. Elas também podem gerar economia para provedores de serviço e prefeituras, além de oferecer capacidade de monitoramento de energia em um nível não possível de executar hoje em dia.

Em outra frente, das chamadas Smart Farms, as tecnologias LPWAN levarão a possibilidade de cobertura de grandes áreas, permitindo conectar diversos tipos de sensores que irão aumentar drasticamente a produtividade no campo. Para se ter uma ideia, uma pesquisa da consultoria McKinsey, encomendada pelo BNDES, aponta que, no Brasil, somente as soluções de fazendas inteligentes devem movimentar algo entre US$ 5 bilhões e US$ 21 bilhões até 2025, levando a ganhos de produtividade de até 25% e redução de insumos de até 20%.

As novas tecnologias Wi-Fi estão por sua vez mais presentes em aplicações indoor onde, em conjunto com arquiteturas seguras, terão poder transformacional na indústria 4.0. Aqui também o mercado é imenso. Números do projeto Indústria 2027, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) e o Instituto Euvaldo Lodi (IEL), mostram que 21,8% de 759 grandes e médias empresas entrevistadas querem estar totalmente digitalizadas em nove anos. Hoje, apenas 1,7% das empresas brasileiras seguem totalmente os preceitos da Indústria 4.0.

Na área residencial também temos um mercado à parte, voltado para aplicações de casa conectada, smart appliances e segurança residencial. Este setor vai se beneficiar da junção das tecnologias Wi-Fi, celular e inteligência artificial, que vão permitir a criação de sistemas muito mais inteligentes e efetivos que os aparelhos em uso hoje em dia. Há também o uso veicular, onde a tecnologia 5G, ainda em discussão em nosso país, terá um papel preponderante na comunicação entre automóveis, prometendo ampliar a segurança e melhorar o tempo de deslocamento em grandes cidades.

Analisando desta forma, percebemos que, quando se fala em IoT, não se pode colocar tudo em uma única cesta. Ao contrário, vemos que diferentes tecnologias e arquiteturas terão papéis distintos na tarefa de levar conectividade aos diferentes objetos ao nosso redor.

Cada coisa será conectada de acordo com a criticidade das aplicações finais previstas e diferentes conjuntos de tecnologias e soluções serão utilizadas para obtermos o melhor resultado. É hora de sair do jargão da tecnologia e começarmos a buscar maior especificidade ao falarmos de Internet das Coisas. Afinal, não é tudo a mesma coisa...

Samir Vani é country manager da Mediatek, empresa fabricante global de processadores para equipamentos como smartphones, tablets, TVs digitais e soluções para Internet das Coisas (IoT)

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