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É seguro usar uma IA para montar treinos de academia?

Por  • Editado por Bruno De Blasi | 

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Arte/Canaltech
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A popularização das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa oferece a possibilidade de utilizá-las em diferentes tarefas do dia a dia, inclusive com relatos de usuários que geram planilhas de treinos de academia. Mas usar esses sistemas como assistentes em áreas relacionadas à saúde requer cuidados.

À primeira vista, parece um caminho facilitado: com muitas IAs podendo ser acessadas sem custo, algumas pessoas veem a oportunidade de personalizar seus treinos diários diretamente com chatbots.

O processo adotado pelos usuários inclui o envio de um prompt com informações como objetivo (emagrecimento ou ganho de massa muscular), características físicas (peso e altura), disponibilidade, local do treino e até mesmo limitações médicas. Mas educadores físicos ouvidos pelo Canaltech apresentam ressalvas a essa prática.

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“O grande risco é acreditar que todo treino gerado por IA está 100% personalizado e adaptado para o aluno. A crença de que esse programa é perfeito muitas vezes leva as pessoas a deixarem de ouvir os sinais que o corpo pode dar. O nosso corpo precisa se adaptar à carga de treino, e cada pessoa responde de forma diferente a uma determinada dose de exercício”, explica educador físico e gerente técnico e corporativo da rede de academias Cia Athletica, Cacá Ferreira.

Problemas na progressão e risco de lesões

Um dos principais problemas apontados pelos especialistas é o fato de a IA trabalhar com o que eles definem como “progressões lineares”. Essa evolução sugerida pela tecnologia não leva em conta detalhes como alterações na alimentação, no sono e nos níveis de estresse das pessoas.

“Quando a IA não considera essas variações humanas, o aluno tenta acompanhar um programa que não respeita sua condição real naquele dia. Isso gera compensações, execução inadequada e aumenta muito o risco de lesão, principalmente por excesso de carga e repetição de erros”, destaca o profissional de Educação Física e embaixador da Bluefit, Leandro Twin.

Ele afirma que nem mesmo um prompt detalhado enviado à plataforma de inteligência artificial garante a eficiência e a segurança necessárias para o treino. Os planos de exercícios, segundo ele, exigem avaliação presencial, testes de mobilidade, análise de execução e ajustes constantes.

“O que funciona hoje pode não funcionar na semana seguinte. A resposta do corpo muda. A segurança não está apenas no planejamento, mas na adaptação contínua — e isso ainda depende do olhar humano”, pontua o educador físico.

O que dizem empresas responsáveis pelas IAs

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IAs como ChatGPT e Claude já contam, atualmente, com recursos voltados especialmente à saúde, como o ChatGPT Health e o Claude for Healthcare. As funcionalidades, apesar de apresentarem algumas diferenças, oferecem a possibilidade de acompanhamento contínuo, com o compartilhamento de arquivos por parte dos usuários, como exames e outras informações sobre a saúde.

Ainda assim, até mesmo as companhias responsáveis pelas ferramentas orientam que os usuários tenham cautela ao utilizá-las para temas relacionados à saúde. Em contato com o Canaltech, a OpenAI — responsável pelo ChatGPT — afirmou que a IA não substitui a orientação de profissionais qualificados na elaboração de planos de treino.

“Incentivamos o uso responsável de ferramentas de IA como um recurso complementar, que ajuda as pessoas a aprender, organizar informações e formular perguntas mais bem fundamentadas, e não como uma solução única para decisões relacionadas ao treinamento físico ou à saúde”, destacou a empresa.

A companhia liderada por Sam Altman também afirmou que o ChatGPT conta com mecanismos de segurança que têm como objetivo “mitigar recomendações que possam causar riscos”.

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Google e Anthropic, responsáveis pelo Gemini e pelo Claude, respectivamente, retornaram as tentativas de contato da reportagem até o momento.

Privacidade dos dados

Outro ponto de atenção diz respeito ao compartilhamento de informações pessoais com ferramentas de inteligência artificial. O advogado Pedro Sanches, especialista em proteção de dados e direito digital, recomenda que os usuários estejam atentos às práticas de transparência das empresas.

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“A cautela deve se concentrar principalmente na verificação das práticas de transparência da plataforma escolhida. É recomendável que o usuário avalie se há clareza nas políticas de privacidade e se existe explicação sobre o destino e a forma de tratamento de suas informações”, destaca.

Segundo o especialista, esse cuidado deve ser adotado independentemente da plataforma com a qual as informações estão sendo compartilhadas, desde chatbots de IA até aplicativos fitness que prometem automatizar a prescrição de treinos.

IA também pode ser vista como aliada dos profissionais

Apesar dos riscos, os recursos de inteligência artificial também são vistos como potenciais aliados pelos profissionais. Eles destacam que a tecnologia pode ser usada principalmente para organizar treinos a partir de informações do aluno fornecidas periodicamente.

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“Se você tiver uma IA cuja base de dados, a partir das informações fornecidas sobre os alunos, consiga predizer que, ao seguir determinado caminho, essa pessoa pode desenvolver situações complicadoras para a saúde, é possível personalizar ou até hiperpersonalizar o treino. Isso permite selecionar exercícios e métodos que evitem esse direcionamento”, afirma Ferreira.

Ferreira acrescenta que, a partir disso, o profissional entra na etapa de transformar esse conteúdo em prática, com didática e acompanhamento adequados. Esse processo indica como é possível haver uma “parceria” entre o trabalho humano e a automação oferecida pelos apps de IA.

“Eu acredito que o profissional de educação física que não usar IA pode acabar sendo superado por aquele que usa. Eu mesmo utilizo IA e considero muito válido, mas sempre como ferramenta. Quem decide, ajusta e cuida da segurança do aluno continua sendo o profissional”, conclui Twin.

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