Como a China quer ditar os padrões da tecnologia para os próximos anos

Por Rui Maciel | 27 de Abril de 2020 às 16h00

"China Standards 2035": se você ainda não está familiarizado com este nome, prepare-se, porque ele pode tomar conta do seu dia a dia daqui para frente. Isso porque se trata de um ambicioso plano de 15 anos do governo chinês para definir os padrões globais para a próxima geração de tecnologias.

Basicamente, o gigante asiático quer influenciar como o mundo utilizará tecnologias como Inteligência Artificial (IA), redes de telecomunicações e fluxo e análise de dados. Segundo uma reportagem do canal CNBC, o “China Standards 2035” está programado para ser lançado já em 2020, após dois anos de planejamento. Depois do "Made in China 2025", um plano de fabricação global onde boa parte dos dispositivos virá do país em questão, desta vez, o programa terá um foco muito maior nas tecnologias que definirão a próxima década.

O que são esses padrões?

Tecnologias e indústrias em todo o planeta têm padrões que definem como estas funcionam e sua interoperabilidade mundo afora. Um bom exemplo disso é o setor de Telecom e o 5G. A quinta geração de redes móveis - assim como as anteriores e as do futuro - exige anos de planejamento, investimento e desenvolvimento, com os padrões técnicos sendo criados através da colaboração entre órgãos da indústria, especialistas, governos e empresas.

Essas especificações técnicas são adotadas e integradas ao que são conhecidos como padrões (ou standards, se você gosta de um anglicismo). Isso garante que eles sejam os mais uniformes possíveis, melhorando a eficiência das implementações da rede e garantindo que funcionem de modo uniforme, não importa em que ponto do planeta, como é o caso, por exemplo, dos smartphones. Empresas como Qualcomm e Ericsson fazem parte do estabelecimento de padrões em vários setores. No entanto, é a China que tem desempenhado um papel cada vez mais ativo nos últimos anos nesse campo e, agora, o país quer um protagonismo cada vez maior.

Mas do que se trata o "China Standards 2035"?

Em março desse ano, o governo chinês divulgou um documento intitulado “Os principais pontos do trabalho nacional de padronização em 2020”. Alguns dos pontos do programa incluem um esforço para melhorar os padrões no mercado interno de vários setores, da agricultura à manufatura. Porém, uma seção da iniciativa destaca a necessidade de estabelecer uma “nova geração de sistemas de tecnologia da informação e biotecnologia”.

Para estes pontos, há um foco especial no desenvolvimento de padrões para a Internet das Coisas (IoT), computação na nuvem, big data, 5G e IA. Ou seja, todas as tecnologias mais debatidas e demandadas no mundo para os próximos anos. Dentro do documento, o governo chinês descreve a necessidade de “participar da formulação de padrões internacionais” e que a China deve apresentar mais propostas nesse campo.

A ideia seria, além de fortalecer os padrões internos e impulsionar a economia, tornar o país mais influente mundo afora na hora de discutir e implementar essas especificações.

Smartphones chineses: depois do "Made in China", o país quer protagonizar os padrões tecnológicos

“A China, domesticamente, está tentando melhorar seu jogo de padrões. Uma das grandes fraquezas da economia é o fato de que nada acontece de maneira normalizada através do tempo, distância e espaço. Você tem requisitos diferentes nesta cidade, requisitos diferentes dia a dia, mês a mês”, disse à CNBC, Andrew Polk, sócio da empresa de consultoria e pesquisa Trivium China, com sede em Pequim. "Logo, o 'China Standards 2035' é uma combinação de exigências domésticas e a necessidade de melhorar seu próprio desempenho econômico e de eficiência e seu desejo de estabelecer padrões, literal e figurativamente, no exterior”, afirmou o especialista.

De olho nesse domínio, Dai Hong, diretor do segundo departamento de padrões industriais do Comitê Nacional de Gerenciamento de Padronização da China, foi citado pela publicação estatal Xinhua, afirmando alguns anos atrás que patentes e padrões técnicos para as tecnologias da próxima geração ainda não haviam sido formadas. Foi a partir daí que o governo chinês começou a pesquisar os padrões tecnológicos da China para 2035, uma oportunidade do país de “superar” o resto do mundo.

Os padrões impulsionados

O "China Standards 2035" dá um novo impulso a um país que já vinha influenciando o mundo quando o assunto é tecnologia. O 5G é um bom exemplo disso. A Huawei, uma das principais companhias no fornecimento de infraestrutura para as redes 5G, também tem grande influência no estabelecimento de padrões. Ela possui o maior número de patentes relacionadas a esta tecnologia e, segundo a IPlytics, consultoria especializada em análise de propriedade intelectual, está à frente de seus rivais europeus mais próximos, a Nokia e Ericsson.

A China tem maior número de patentes 5G que seus rivais Nokia e Ericsson

“O 5G é um exemplo proeminente, na medida em que ele é o caso em que vemos as empresas mais agressivas não apenas para estabelecer padrões em casa, mas para moldar ativamente os padrões globais”, afirmou à CNBC, Elsa Kania, assistente sênior de tecnologia e segurança nacional no Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS).

Além disso, a Huawei foi uma parte essencial da formação das especificações técnicas para 5G por meio de um órgão da indústria conhecido como 3GPP. Também conhecido como Projeto de Parceria de Terceira Geração, a entidade reúne organizações que buscam desenvolver padrões globais para redes celulares. “Os padrões técnicos não são um tópico simplesmente obscuro, mas uma maneira concreta de moldar o campo de jogo e o cenário para o futuro dessas tecnologias”, continua Kania. “A decisão tomada sobre os padrões pode ter consequências comerciais, além de moldar a arquitetura para a vantagem ou desvantagem das empresas”.

Além disso, há, claro, outras tecnologias que a China quer protagonizar as discussões quando falamos de padrões. Entre elas, está a tecnologia de blockchain, onde já há um comitê focado no assunto no país. Inclusive, algumas das principais empresas de tecnologia do país, como Huawei e Tencent, já fazem parte desse debate.

Fluxos de dados

Este é um dos pontos mais delicados quando falamos na influência da China no setor de Tecnologia mundo afora. Isso porque, quanto mais o país asiático cresce nessa área, mais as preocupações sobre os acessos aos dados crescem. Em um país fechado como a China, as questões são especialmente mais relevantes.

“Os padrões da China se sobrepõem e pretendem expandir sua estratégia de acesso assimétrico aos dados”, disse Nathan Picarsic, cofundador da consultoria Horizon Advisory. “Quanto mais padrões técnicos e tecnológicos forem definidos por Pequim, mais dados associados estarão sujeitos às várias políticas de localização e acesso de dados do governo chinês”.

Ren Zhengfei - o CEO da Huawei jura de pé juntos que sua empresa não usa o 5G para enviar dados para o governo chinês

Isso pode ser visto no conjunto de leis do país asiático. Algumas legislações na China parecem obrigar qualquer empresa a cumprir os pedidos do governo, sob a justificativa de ajuda com o “trabalho de inteligência” cuja definição é para lá de vaga. Essa, inclusive é uma das razões pelas quais os EUA e outros países levantaram preocupações sobre a Huawei. Eles consideram que se a empresa fornecer a infraestrutura do 5G em seus territórios, os dados passarão a ser acessados ​​pelo governo chinês. No entanto, o fundador da Huawei, Ren Zhengfei, disse repetidamente que a ela nunca entregaria dados de clientes às autoridades chinesas.

A visão dos EUA

A extensão da influência da China nos padrões das novas tecnologias já está na mira do governo dos EUA há algum tempo. No entanto, a pandemia de coronavírus - que atinge o território norte-americano com força - distraiu o governo Trump nessa questão.

“Padrões, são, provavelmente, a coisa menos sexy que você pode pensar”, afirmou Andrew Polk, sócio da consultoria Trivium China, com sede em Pequim. “E é preciso esforço, atenção e investimento sustentados a longo prazo. É por isso que você se preocupa com o fato de que os governos ocidentais ainda estão correndo atrás disso. E eles precisam ter a capacidade de manter um foco sustentado (como a China) nessas questões".

Polk afirma que a falta de foco do governo norte-americano na questão dos padrões de novas tecnologias é algo que pode, inclusive, ser comprometedor em um futuro próximo: “Parece que os chineses estão se preparando para tentar andar e mascar chicletes ao mesmo tempo, quando falamos em enfrentar os desafios de curto prazo e manter seus objetivos de longo prazo sob controle. Não vejo esse equilíbrio dos objetivos de longo e curto prazo nos EUA”, completa.

O que vem pela frente

Ainda que as ambições chinesas sejam enormes, o país enfrentará um desafio gigantesco para tentar tirar o domínio dos EUA e Europa quando o assunto é o protagonismo tecnológico.

“Embora o aumento da participação e do envolvimento do governo chinês tenha criado alguns desafios processuais, ele não criou influência indevida, nem derrubou as escalas competitivas em favor dos chineses”, disse Naomi Wilson, diretora sênior de política na Ásia do Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação (ITI), em depoimento escrito no mês passado à Comissão de Revisão Econômica e Segurança EUA-China. “De fato, as empresas norte-americanas e multinacionais ainda são amplamente consideradas como os participantes mais influentes nos órgãos de padrões relacionados às tecnologias. E isso é baseado em sua liderança e conhecimento técnico, profundo entendimento dos processos e regras de padrões, qualidade das contribuições e participação consistente ao longo do tempo”.

Donald Trump: o presidente norte-americano quer barrar o crescimento chinês no setor de Tecnologia

Para além da tradição dos EUA e Europa no protagonismo desse setor, a China também precisará aumentar a qualidade das empresas que contribuem para os padrões globais de tecnologia. Em outras palavras, o país precisará desenvolver mais companhias como a Huawei, capazes de atuar em diversos setores de tecnologia.

“Esses padrões são estabelecidos pelos órgãos da indústria, por meio das empresas que participam deles. Geralmente, as empresas desejam o melhor, os mais altos padrões e a melhor tecnologia geralmente vence. É por isso que os EUA e a Europa têm a vantagem histórica. Eles têm empresas altamente avançadas”, afirmou Polk à CNBC.

Nesta segunda-feira (27), inclusive, a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China deveria realizar uma audiência intitulada “Um Modelo Chinês? Promoção de normas e padrões globais alternativos de Pequim". No entanto, o evento teve de ser adiado por causa do coronavírus. Mas, de forma geral, não há um esforço dos grandes por parte dos EUA para que adoção dos padrões chineses ganhe corpo. Inclusive, o presidente Donald Trump até propôs cortes de financiamento ao Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia.

E como o Brasil será impactado pelo protagonismo chinês?

Em tecnologias como big data e cloud computing, o Brasil utiliza, basicamente, plataformas norte-americanas e europeias no que tange a serviços de infraestrutura crítica. No entanto, o país pode ficar mais próximo aos padrões chineses quando o assunto é a implementação do 5G em território nacional.

Nicolas Driesen, diretor de tecnologia da Huawei, afirmou que testes com o 5G já foram conduzidos pela empresa, em 2019, junto às quatro operadoras de telefonia mais proeminentes do Brasil: TIM, Claro, Vivo e Oi. Embora os testes tenham sido satisfatórios no aspecto técnico, eles também revelaram que outros países podem apresentar um desempenho de implementação mais aprimorado em relação ao nosso país.

Além disso, a briga EUA-Huawei chegou a colocar em risco a participação da Huawei no 5G brasileiro. Isso porque o presidente Jair Bolsonaro é aliado de primeira hora de Donald Trump. O mandatário norte-americano acusa a fabricante chinesa de usar sua infraestrutura do 5G enviar dados para o governo chinês. Com isso, o país proibiu que empresas locais fizessem negócios com a Huawei, o que vem impactando os dois lados. E, de quebra, ameaçou as nações aliadas que fizessem negócios com a companhia chinesa, com boicotes no compartilhamento de informações de inteligência.

No entanto, no final de março desse ano, o Brasil decidiu não vetar ou limitar a atuação da Huawei no fornecimento de infra para a instalação das redes 5G no Brasil. Em 27 de março, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) publicou os requisitos de segurança cibernética exigidos das concessionárias e servidores do sistema - o leilão para a nova rede está previsto para o final deste ano. O edital em questão não prevê restrições aos fornecedores das operadoras - onde se encaixa a Huawei no processo - ainda que o próprio GSI tivesse apresentado certa resistência à participação da fabricante chinesa, por preocupações de segurança de dados.

A permissão à Huawei também é um alívio para as operadoras brasileiras, que usam a fabricante chinesa em boa parte de suas infraestruturas. Além disso, a Huawei teria ainda soluções 5G mais baratas e mais avançadas do que suas principais concorrentes, Nokia e Ericsson, o que aliviaria o peso dos investimentos por parte das operadoras que participarão do leilão - previsto para o final de 2020.

Fonte: CNBC  

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