Brasil inaugura placa em homenagem às vítimas da tragédia de Alcântara

Por Rafael Rodrigues da Silva | 17 de Julho de 2019 às 22h50

Na última sexta-feira (12) o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, e o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Carlos Moura, inauguraram uma placa em homenagem aos 21 brasileiros mortos na tragédia de Alcântara.

A placa, que está afixada na entrada do gabinete do ministro, contém a frase “Aos 21 heróis da tragédia de Alcântara” e a relação de todos os 21 nomes dos membros da equipe que morreram no acidente. A placa é finalizada com a inscrição “Aos que prosseguem na missão, honraremos a memória daqueles que desbravaram o desconhecido”.

No discurso de inauguração da placa, o ministro Marcos Pontes lembrou de outras tragédias em programas espaciais ao redor do mundo, e declarou que os profissionais que perderam suas vidas em Alcântara servem de inspiração para a continuidade de todo o Programa Espacial Brasileiro. Já o presidente da AEB recordou o perfil da equipe, que era composta tanto por jovens profissionais quanto por veteranos com mais de 30 anos de experiência, e reafirmou o compromisso de que essas perdas não tenham sido em vão, servindo de inspiração para que o Programa Espacial Brasileiro se torne um sucesso.

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A tragédia de Alcântara

A “tragédia de Alcântara” foi um acidente que ocorreu em 22 de agosto de 2003, no Centro de Lançamento de Alcântara (Maranhão), onde um foguete VLS (Veículo Lançador de Satélites), ao ser acionado três dias antes da data oficial de lançamento, causou uma explosão que acabou matando todos os 21 funcionários que estavam na torre de lançamento naquele momento.

De acordo com o relatório final de investigação, que foi concluído pela Aeronáutica em fevereiro de 2004, o acionamento súbito de um dos motores do VLS foi provocado por uma falha em uma pequena peça responsável por ligar o motor. Existem atualmente duas hipóteses de o que teria ocasionado o disparo desse detonador do motor (passagem de corrente elétrica pelo local ou uma descarga eletrostática próxima), mas até hoje não se sabe exatamente o que foi o causador da tragédia.

O relatório descarta qualquer possibilidade de sabotagem, e cita como provável explicação para a tragédia uma interferência meteorológica em conjunto com o que chamou de “grosseira falha humana”. O relatório apontou diversas fragilidades da operação em terra (por exemplo, o fato de todas as saídas de emergência da estação de lançamento levarem para dentro da torre, o que na prática serviu para confinar os trabalhadores em um local fechado próximo da explosão), além da perda de pessoal tecnicamente qualificado e cuja contratação não foi reposta pela falta de verbas do projeto, o que fez com que os trabalhadores que estavam na torre estivessem sobrecarregados e com salários defasados — o que pode ter contribuído para que as checagens de segurança não tenham sido feitas com atenção necessária.

Além disso, testemunhas ouvidas na época do acidente — pessoas que trabalhavam na estação mas não estavam presentes no momento da explosão — relatam que não sabiam que os motores de arranque do foguete haviam sido instalados antes do previsto; ou seja, possivelmente as pessoas que trabalhavam na estação não sabiam do perigo que corriam, já que o correto seria que a instalação dos motores de arranque acontecesse apenas no dia do lançamento, justamente para diminuir o risco de acidentes enquanto os funcionários trabalhavam nos últimos ajustes.

Além disso, algumas dessas testemunhas também relataram ter levado choques quando tocavam no corpo do foguete, o que dá mais força para as hipóteses de que foi uma passagem de corrente elétrica ou uma grande carga eletrostática os responsáveis por acionar o detonador do motor, o que iniciou a explosão da plataforma.

Sabotagem do Tio Sam?

Ainda que a investigação da Aeronáutica tenha descartado totalmente a possibilidade de sabotagem, sempre existe algum conspiracionista pronto para revelar “a verdade” sobre qualquer assunto polêmico e sem muitas respostas. E, no caso da tragédia de Alcântara, esses conspiracionistas possuem um alvo em específico: o governo dos Estados Unidos.

Essa teoria, publicada inicialmente em vários jornais do país pelo colunista Cláudio Humberto dias depois do acidente, e depois novamente veiculada pelo jornalista Carlos Chernij na revista Superinteressante alguns anos após a tragédia, afirma que os conspirólogos tinham muitas dúvidas sobre a causa real do acidente pelo fato de os militares já terem descartado qualquer possibilidade de sabotagem poucos dias após o acidente, bem antes que as investigações pudessem chegar a qualquer conclusão. Além disso, eles também apontam para o fato de o acidente ter ocorrido três dias antes do lançamento, quando não deveria haver combustível em quantidade suficiente para causar uma explosão daquele tipo (como a teoria foi criada antes da publicação do relatório final da investigação, ainda não havia a informação de que os funcionários não sabiam que o motor de arranque do VLS foi instalado antes do previsto), e de que o exército já havia adiado outras três vezes a data de lançamento do foguete, sem explicar o motivo do adiamento para o público.

Para os conspiracionistas, isso tornava algo claro: que o exército brasileiro desconfiava de que havia alguém tentando sabotar o Programa Espacial Brasileiro. Eles ainda falam que, dias antes do acidente, os militares brasileiros fizeram um levantamento registrado em hotéis da região de São Luís e descobriram que, naquela semana, haviam 20 turistas dos Estados Unidos hospedados em hotéis e pousadas de Alcântara — algo que seria bastante incomum, já que ela não é uma cidade turística. O problema desse dado é que ele é totalmente vago, e não cita nem quem seria o militar responsável por essa inspeção e nem há qualquer registro de que uma inspeção do tipo foi ao menos ordenada pelo comando da Aeronáutica, o que são grandes indícios de que esse tenha sido um dado inventado pelos conspiracionistas para dar maior credibilidade à história.

A teoria publicada por Cláudio Humberto levanta dois possíveis causadores da explosão: na primeira versão, publicada em 27 de agosto de 2003 (apenas cinco dias depois da tragédia) traz uma fala de Ronaldo Schlichting, pesquisador espacial e perito em armas. Schlichting afirma que um possível causador da explosão do foguete seria uma bala do fuzil Barret .50, capaz de atingir um alvo a três quilômetros de distância — o que permitiria que o sabotador ficasse escondido a uma distância segura da base. Já no dia 28, o colunista traz uma segunda causa possível de conspiração, citada pelo cientista Edson Bittencourt, do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), que sugere que a explosão no motor do foguete pode ter sido causada por um dispositivo implantado dentro dele, e que seria acionado por controle remoto à distância, permitindo assim que o sabotador destruísse o foguete de uma distância segura e sem gerar suspeitas.

Fuzil Barret M82 com munição .50, citado por conspiracionistas como um possível causador da tragédia de Alcântara (Imagem: Barret Firearms)

Apesar disso, todas essas teorias levantavam possíveis hipóteses de sabotagem em um momento em que não havia ainda nenhum resultado preliminar das investigações, e o colunista parou de tocar no assunto conforme os primeiros resultados foram aparecendo — o que provavelmente revela que ele trabalhava com suposições sem nenhum embasamento técnico (como uma testemunha do exército que lhe revelou essas informações secretas).

Para esses conspiracionistas, haveria dois motivos de por que os Estados Unidos teriam interesse em sabotar o teste: primeiro, porque o país não veria com bons olhos nenhum outro país que tenta criar seu próprio programa espacial. Isso porque a capacidade de lançar satélites ao espaço daria a um país um maior poder de vigilância sobre o que ocorre em qualquer lugar do mundo, como também a tecnologia de se enviar um VLS para o espaço é a mesma usada em foguetes de longa distância, e um dos maiores medos dos militares estadunidenses é que a tecnologia que permite qualquer país lançar um míssil de seu próprio solo e atingir uma cidade dos Estados Unidos se tornasse algo popular.

Além disso, a base de Alcântara possui uma localização estratégica: como está próxima à linha do Equador, ela é considerada como o melhor espaçoporto do mundo, pois qualquer foguete lançado dali necessita de 30% a menos de combustível para sair da órbita da Terra, o que na prática permite que se faça lançamentos mais baratos ou ainda que se leve uma maior quantidade de equipamentos para o espaço.

O motivo real

Centro de Lançamento de Alcântara (Imagem: Agência Brasil)

Ainda que os conspiracionistas insistam na tese de sabotagem, para o presidente da Associação Aeroespacial Brasileira (AAB), Aydano Carleial, o desastre não foi culpa de sabotagem e nem uma indicação da falta de capacidade técnica dos profissionais brasileiros, mas da ausência de organização. Carleial afirma que o fato de todo o processo de lançamento ter ocorrido às pressas e de forma improvisada aumentou ainda mais os riscos já inerentes da profissão desses trabalhadores.

Já para o major-brigadeiro Hugo Piva, um dos pioneiros do programa espacial, o que prejudicou toda a evolução do programa brasileiro e causou a tragédia de Alcântara foi a diminuição do repasse de verbas federais. Ele lembra que até 1987 (quando a porcentagem do repasse federal foi diminuída), nenhum dos foguetes aprovados para voar falharam. Desde então, todas as três próximas tentativas feitas pelo governo brasileiro resultaram em falhas — a terceira delas na explosão de Alcântara, que acabou matando as 21 pessoas.

Apesar dos mortos, ao menos a tragédia parece ter servido de “lição” para o país, e desde o incidente em Alcântara o Brasil acumulou dois sucessos em lançamentos de foguetes: o primeiro ocorreu em 2010, feita da própria base de Alcântara, quando o foguete de médio porte VSB chegou a efetuar experimentos em ambientes de microgravidade e retornar em segurança com toda a sua carga. O segundo aconteceu em 2014, quando, também no Centro de Lançamento de Alcântara, o país conseguiu lançar com sucesso o seu primeiro foguete de propulsão líquida.

Ambos os sucessos fazem parte do Programa Nacional de Atividades Espaciais, implementado pela AEB em 2005 e que tem como objetivo possibilitar que, até o ano de 2022, o Brasil seja totalmente independente no transporte espacial de satélites tanto de pequeno quanto de grande porte.

Fonte: AEB, Superinteressante, G1

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