Análise | UFC 4 traz combates inteligentes e divertidos, mas falta fluidez

Por Felipe Ribeiro | 14 de Agosto de 2020 às 08h20
EA Sports

Quando a EA Sports adquiriu os direitos para a produção dos jogos do UFC, todos imaginavam que o game, então desenvolvido pela Yuke's, tivesse um salto enorme em vários aspectos, seja nos gráficos, seja na jogabilidade. Isso pode ser reforçado por causa da fama da EA em fazer bons games de luta esportiva, como a saudosa franquia Fight Night, que apresentava combates espetaculares.

Talvez pelo MMA ser um esporte mais complexo e cheio de vertentes, a empresa tenha tido mais dificuldades em entregar um jogo realmente de encher os olhos. Em UFC 4 temos tudo o que um bom jogo de luta precisa: diversão, estratégia, bons gráficos e, claro, os lutadores de todas as eras do UFC, que são um belo atrativo para fãs de longa data.

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Mas, por mais que UFC 4 tenha sido, até então, o melhor jogo lançado na franquia, seus defeitos saltam aos olhos e nos fazem pensar: o que a empresa vai precisar fazer para trazer um pouco do brilho de Fight Night para o UFC? Sendo mais específico: a tão prometida fluidez não veio, apesar de ter melhorado um bocado desde UFC 3.

O Canaltech teve a chance de experimentar o game antes de seu lançamento, que acontece hoje, dia 14 de agosto.

A vida é feita de escolhas

O principal modo de jogo em UFC 4 é, mais uma vez, o modo Carreira. Totalmente reformulado em UFC 3, a EA optou por manter o que deu certo e aprimorar algumas coisas para torná-lo ainda mais atrativo - e conseguiu. Para iniciá-lo, é muito simples: monte seu lutador e escolha, logo de cara, que tipo de modalidade será a sua especialidade: mais voltada ao Boxe, Muay Thai, Luta-Livre ou Jiu-Jitsu.

Ao escolher uma especialidade, você tem que ter em mente que as escolhas para evolução das habilidades devem ser pensadas com base nela. Ou seja: se você, assim como eu, escolheu ser um especialista em boxe, procure desenvolver mais suas aptidões de trocação, como socos, cruzados, ganchos, uppercuts, esquivas e por aí vai. Já se você gosta de levar a luta para o chão, o foco é nas habilidades que visam as raspagens e finalizações.

Com a carreira iniciada, seu treinador vai fazer de tudo para que você entre logo para a principal organização de MMA do mundo, o UFC. Para isso, claro, você terá que fazer muitas lutas e mostrar todo o seu potencial para Dana White, o presidente da empresa. O legal nisso tudo, é que o Modo Carreira é bem dinâmico e, mesmo entre as lutas oficiais, você estará sempre no octógono fazendo treinando ou procurando melhorar seu lutador, o que torna tudo bem mais divertido.

De degrau em degrau

Para evoluir seu lutador, é necessário, além das lutas oficiais, usar e abusar da academia, com treinos semanais que podem ser feitos dentro de um limite estabelecido pelo jogo: os chamados "pontos semanais". Com eles, você precisará ter mais responsabilidade e equilíbrio para optar em ser um rato de academia ou um lutador fanfarrão de redes sociais.

No treinamento, que também é separado nas mesmas especialidades que descrevemos acima, você precisará efetuar exercícios, que variam de dificuldade conforme você vai evoluindo em sua carreira. Ao acertar os desafios, pontos de habilidade são fornecidos para que você melhore suas aptidões de luta, recupere-se de uma lesão ou adquira habilidades especiais novas. Com o passar do tempo e conforme você vai ganhando lutas, golpes mais complexos e mortais são desbloqueados, o que vai, claro, te ajudar em diversas situações.

(Captura de Tela: Felipe Ribeiro/ Canaltech)

Algo que também é muito interessante dentro dos treinos é a preparação física. O seu condicionamento para a luta é oriundo dos treinos, ou seja, além de elevar suas habilidades, os treinos te deixam, de fato, em forma. Há a chance, também, de se lesionar nas sessões de sparring, portanto, tome cuidado e use essa feature corretamente. Chegar com pouco vigor à luta oficial pode te trazer problemas.

Além de desenvolver seu lutador, o modo carreira te coloca em situações importantes e que também fazem parte do circo do UFC. Uma delas é a análise dos oponentes. Depois de aceitar uma luta, você poderá, também com uso dos pontos semanais, descobrir como seu desafiante luta dentro do octógono; se é mais afeito à trocação ou se gosta de levar a luta para o chão. Com isso em vista, você poderá se preparar muito melhor para o combate, selecionando, sempre que possível, uma habilidade que mais se encaixe com seu adversário.

(Captura de Tela: Felipe Ribeiro/ Canaltech)

Mas, como é de praxe no UFC (e em outros esportes), a publicidade se faz presente. Além de se preocupar com sua forma física e suas habilidades de luta, é necessário criar uma boa imagem junto à imprensa, à organização e, claro, aos seus oponentes. Para isso, há uma opção chamada "promoção", em que você faz postagens em suas redes sociais, manda recados aos seus oponentes e faz campanhas publicitárias.

Cadê a fluidez?

A tão prometida fluidez para UFC 4 não apareceu da forma que gostaríamos. Por mais que a EA Sports tenha dito que o atual game apresentaria um combate mais fluído e com movimentos naturais, eles não melhoraram tanto assim - embora tenha, sim, apresentado evolução.

Apesar das inúmeras opções de golpes, com combinações das mais variadas seja com socos ou chutes, o que mais incomoda em UFC 4 é a movimentação dos atletas. Muito embora, a parte orgânica do combate seja impecável, como o fôlego, a resistência dos membros e da cabeça e, também, da lucidez dos lutadores, a forma como eles se mexem ainda é estranha.

É tudo muito duro e robótico, mesmo que, nas quedas e nos clinches, a coisa tenha, mesmo, ficado mais "solta", com mais opções de golpes quando os lutadores estão agarrados. Na trocação, que é onde mais há o uso de agilidade e movimentações mais bruscas, tudo segue bem parecido com o que víamos lá em 2010, com UFC Undisputed 2010.

Sobre as finalizações e luta no chão, segue aquele velho esquema de controle para finalizar o combate, com comandos confusos e pouco precisos, fazendo com que um mata-leão ou uma chave de braço decisiva sejam feitos quase que por um milagre. Aposto que nem mesmo Demian Maia, um dos melhores lutadores da organização quando falamos em Jiu-Jitsu, conseguiria finalizar seus adversários em UFC 4.

Para elucidarmos melhor os leitores, a EA Sports já fez um jogo de luta esportiva ultrarrealista e com fluidez impecável: Fight Night. Para quem se lembra, principalmente na época de Xbox 360 e PlayStation 3, esse game, além de divertido e muito bem feito no "extra-ringue", trazia combates praticamente perfeitos, com movimentação muito fidedigna e com uma transcrição das estrelas do boxe impecável.

O caminho, EA, pode ser esse. Fica a dica.

Fórmula mantida

A EA manteve a fórmula de UFC 3 e trouxe muitos modos de jogo, tanto on-line quanto off-line. Além dos já tradicionais "Lute Agora", em que podemos simplesmente escolher os lutadores em qualquer uma das categorias masculinas e femininas, a empresa aperfeiçoou o que já fora apresentado no game de 2018.

(Captura de Tela: Felipe Ribeiro/ Canaltech)

O destaque fica por conta do Modo Nocaute que, agora, transporta a emoção dos arcades para a luta de MMA. Aqui, escolhemos um lutador e, ao invés de buscarmos o nocaute ou a vitória por pontos, basta que apliquemos golpes em nosso adversário até que sua barra de sangue acabe. E por falar em sangue, a EA escolheu uma temática diferente para esse modo de jogo: o tradicional ringue kumite, bem parecido com o que vimos em filmes como O Grande Dragão Branco, estrelado por Jean-Claude Van Damme.

Já nos modos on-line, que estavam desligados no momento em que essa análise foi escrita, o destaque deve ser mesmo Blitz Battles: torneios com suporte a até 64 jogadores, com regras variadas e que são vistas nos demais modos de UFC 4, como o combate apenas de trocação ou golpes violentos.

Já no conteúdo, seguem, além dos lutadores atuais da organização, as lendas que fizeram com que o esporte se tornasse o que é hoje, como Chuck Lidell, George Saint-Pierre, Anderson Silva, Antônio "Minotauro" Nogueira, Ronda Rousey e, até, o próprio Dana White, que é jogável em algumas categorias, como o peso meio-médio e os médios.

Além disso, UFC 4 traz lutadores convidados, como os boxeadores profissionais Anthony Joshua e Tyson Fury. O britânico Joshua é, atualmente, o maior campeão dos pesos-pesado do esporte, atualmente segurando os cinturões da World Boxing Association (WBA Super), International Boxing Federation (IBF), World Boxing Organization (WBO) e International Boxing Organization (IBO) - estas, associações internacionais de boxe. No nível regional, o gigante de 1,98m também foi campeão nacional da Inglaterra e do CBC (Commonwealth Boxing Council), além de medalhista olímpico, levando o ouro do boxe nos Jogos de 2012 em Londres, também como peso-pesado.

Visualmente ok

Na parte técnica, UFC 4, embora melhor que o antecessor, ainda precisa melhorar. Mesmo com a maioria esmagadora dos lutadores da organização sendo fielmente retratados, percebe-se que falta um capricho maior nas feições e, também na construção dos corpos - incluindo as mulheres. Todos os "bonecos" parecem genéricos e isso incomoda. Nas lutas, porém, os machucados, hematomas, suor e sensação de contato são muito bem feitos.

(Captura de Tela: Felipe Ribeiro/ Canaltech)

Já os efeitos sonoros seguem o bom padrão dos jogos anteriores, com um detalhe que chamou atenção: os técnicos no corner falam de acordo com o idioma do lutador. No Modo Carreira, escolhemos ser um lutador brasileiro e é possível ouvir as dicas de luta em português do Brasil. Muito legal.

Evoluiu, mas ainda dá para melhorar

UFC 4 é o melhor jogo da franquia até o momento, mesmo somando os games que vieram antes da EA, com bom pacote de conteúdo, lutas complexas e modos de jogo divertidos. Apesar disso, a fluidez, problema crônico da série, se mantém, apesar das melhorias notórias.

A EA já teve na mão uma franquia para se espelhar. Se a empresa conseguir trazer o espírito de Fight Night para a franquia de MMA, o sucesso será maior e poderemos ver a excelência em um jogo do gênero.

UFC 4 está disponível para Xbox One, PlayStation 4 e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado no Xbox One X com cópia gentilmente cedida pela EA Sports.

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