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Review Resident Evil 4 | Elevando novamente a barra do que é um remake

Por| Editado por Jones Oliveira | 17 de Março de 2023 às 16h29

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Divulgação/Capcom
Divulgação/Capcom

A responsabilidade nas costas da Capcom era grande. Estamos falando de Resident Evil 4, não somente um dos títulos preferidos e consagrados de sua principal franquia, mas também um dos games mais importantes de todos os tempos. O peso que um projeto desse tipo carrega é imensurável, mas também é um que os desenvolvedores demonstram saber carregar durante toda a experiência, com um dos times de elite da empresa atualmente fazendo um trabalho incrível.

É quase como visitar uma cidade que frequentávamos na infância, mas para a qual não viajamos há décadas. O território europeu onde Resident Evil 4 se passa ainda é aquele do qual nos lembramos, muitas vezes com cenários idênticos para avivar a memória; tudo, porém, está fundamentalmente diferente, assim como nós mesmos, enxergando aqueles cenários do passado com uma nova ótica e visão aprimorada do mundo, fruto de experiência e evolução. É familiar e reconhecível, mas também absolutamente inédito.

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Ao retornar em uma versão modernizada e reimaginada, o game soa mais maduro e seguro de si, aliando elementos clássicos a mecânicas modernas como uma máquina ajustada quase à perfeição. Quase tudo o que fez de Resident Evil 4 um sucesso em 2005, quando foi lançado originalmente para o GameCube, está nesta nova edição, que agrega elementos modernos e, principalmente, uma magnífica adição de elementos viscerais e crus como vemos em poucos títulos de terror por aqui. Esta, porém, tem se tornado cada vez mais uma marca da era atual da franquia.

Que bom que é assim e, principalmente, que maravilhoso é esse reencontro com Resident Evil 4. Mais impressionante ainda é pensar que, como fez em 2002 com o remake do primeiro game da série de terror e em 2019, trazendo de volta sua sequência, a Capcom conseguiu de novo. Agora, há um novo padrão de qualidade quando o tema for este.

Este review não contém spoilers do game. A pedido da Capcom, também, só foi possível usar imagens de momentos específicos do game, para não estragar a experiência com o remake.

Cachorro velho precisa aprender novos truques

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Ao longo da divulgação de Resident Evil 4, seus produtores afirmaram mais de uma vez temerem a produção. Afinal de contas, como retrabalhar um game que mudou tudo, não apenas dentro da própria franquia, mas também na indústria? Felizmente, a equipe partia de bases sólidas e de ampla experiência com a saga, demonstradas a cada nova tela do game, que representa um passo gigantesco em relação aos títulos recentes da franquia.

Um dos pilares, aqui, é o remake de Resident Evil 2, lançado em 2019 e seguido por uma reimaginação do terceiro game da franquia que deixou muito a desejar. Felizmente, a Capcom escolheu o certo e decidiu pelo caminho do respeito ao original, trazendo adições e evoluções à consagrada fórmula, que ainda que tenha envelhecido bem, agora soa defasada diante das novas opções dadas a Leon em sua missão de salvar a filha do presidente dos EUA, Ashley Graham.

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A fidelidade chega a impressionar, muitas vezes com a memória muscular nos levando a espaços onde sabemos que há munição, itens de cura ou uma posição segura para se defender dos inimigos — e os itens estão efetivamente lá. Entretanto, o jogo brinca de forma genial com esse mesmo conhecimento prévio, entregando novo comportamento para os oponentes e mostrando que as velhas táticas, assim como o game de 2005, são passado. Por mais que a memória dialogue com o presente, ela não o define totalmente.

De longe, a principal adição do remake de Resident Evil 4 é o movimento de defesa com a faca, que pode ser usado tanto contra inimigos como o assassino portando uma motosserra quanto com os infectados convencionais. Pressionar o botão na hora certa é fundamental para evitar sofrer dano e abrir novas oportunidades de ataque, principalmente quando a munição das armas precisa ser recarregada sem que haja muito espaço para isso.

O game foca no realismo e, como tal, tem um protagonista que reage mais aos acontecimentos. Isso vale para os comentários sobre ataques bem-sucedidos ou cenas grotescas, mas também para os ferimentos sofridos, com o personagem podendo perder o equilíbrio ou demorar um pouco mais para se recuperar de um ataque mais forte. As hordas, enquanto isso, são gigantescas e nunca param de atacar de maneira absolutamente violenta, cercando Leon e lançando tudo o que puderem nele.

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Cria-se então um sistema bem azeitado de risco e recompensa, que obriga o jogador a sempre estar pensando se o melhor é fugir para um local seguro ou manter a posição e se defender. Com inimigos mais inteligentes, que também são capazes de desviar e usar os flancos, a contagem de munição restante, a posição dos equipamentos na roda de armas e o uso dos cenários mais ricos e cheios de elementos, muitos deles verticais ou com potencial ofensivo, ganharam importância adicional.

Ao contrário de outros títulos com tantas opções, Resident Evil 4 nos obriga a aprender todas elas, em vez de escolher as nossas preferidas. Há um cuidado com a acessibilidade na dificuldade normal, com janelas elásticas para o parry, mas o nó nos dedos com tantas opções pode confundir de início, principalmente nos casos em que a opção de desvio não está no botão da faca, mas sim no comando de abaixar, usado apenas contra inimigos mais fortes em que defletir um golpe com a lâmina não é possível.

O balanceamento é perceptível, com mesmo as muitas mortes que encontramos durante nossa experiência de cerca de 16 horas para finalizar o game não trazendo amargor, mas sim a sensação de que poderíamos fazer diferente para sobreviver. Existem dois ou três momentos em que a Capcom perde a mão no desafio, mais especificamente na porção final do game, mas na maior parte da experiência a fluidez dos combates e o equilíbrio são perfeitos. Jogando pela primeira vez, voltamos à mesma sensação proporcionada em 2005, de que nunca estamos confortáveis, e isso é bom demais.

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Por outro lado, o remake de Resident Evil 4 também acaba complicando coisas onde não é necessário. O sistema de combinar itens para criar munição ou curas mais potentes é um clássico da franquia, mas assume um tom burocrático com uma lista enorme de opções, em vez do simples arrastar de um item sobre o outro, algo que também é possível de forma contraintuitiva, usando a opção de mover as coisas pelo inventário. Nos momentos de maior tensão, parar para ler uma relação de itens indisponíveis para encontrar o que buscamos não é algo desejável, principalmente no caso dos armamentos, sem contar quando as opções não parecem levar em conta todos os itens no inventário, algo que pode ser corrigido em uma atualização.

Indo além

Sob o risco de soar repetitivo, é importante fazer uma volta ainda mais ao passado. Enquanto a principal referência de Resident Evil 4 é a versão reimaginada do segundo título, em conceito e abordagem ela se assemelha muito mais ao remake do primeiro, lançado em 2002 e até hoje lembrado como um dos melhores de todos os tempos. Estamos diante, também, da produção mais ambiciosa entre as quatro.

Ao mesmo tempo em que muita coisa está no seu devido lugar, há sempre algo de novo e diferente acontecendo, mesmo que de formas menores, como um corredor adicional ou inclusão de um sótão em uma casa que não o possuía antes. No quadro maior, temos missões secundárias e elementos inacessíveis em uma primeira passagem pelos cenários, mas que convidam à revisita em um momento posterior, em que Leon esteja acompanhado de Ashley ou na posse de um item só encontrado mais adiante.

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O remake de Resident Evil 4 adiciona elementos e novidades a absolutamente todos os aspectos do original. Fica claro, também, que a equipe se debruçou de forma cautelosa sobre o jogo, trazendo todos os seus elementos e referências, indo além apenas das falas e cenas iguais. Há um cuidado minucioso em entender o que fez do título um clássico revolucionário e transportar isso para o presente, além de entender o que não funcionava tão bem, para que fosse melhorado ou eliminado sem deixar saudades.

Velhos enigmas estão lá, só que mais complexos; os medalhões azuis também, agora acompanhados da caça a ovos dourados e outros animais. Algumas cenas estão fora do lugar, outras acontecem exatamente como nos lembramos e há também as inéditas, com um remix feito em prol da profundidade da trama e das surpresas. Há novidade e familiaridade a cada passo, com sorrisos no rosto, principalmente, dos fãs veteranos, que conhecem o vilarejo, o castelo e a ilha como a palma da mão.

Em termos de jogabilidade, a exploração de cenários chega a lembrar um pouco o estilo visto nos recentes jogos da série God of War, com um olhar muito próximo em um cenário gigantesco e cheio de elementos perto ou longe do jogador. Enquanto isso, novas armas mudam a forma de jogar, enquanto é perfeitamente possível se apoiar nos equipamentos antigos, mas sabendo que eles, também, receberam melhorias e adições, bem como a própria maleta, com upgrades e características especiais além do aumento do próprio tamanho.

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O Mercador, agora, é dono de um comércio muito mais promissor, com itens adicionais e mais opções de compra de artigos e melhorias. Ele lida com a análise de tesouros de forma diferente, enquanto tipos específicos de pedras preciosas representam uma economia à parte, garantindo itens especiais e exclusivos; tudo, claro, sem perder o bom humor de quem trafega em meio aos caos como um verdadeiro comerciante da guerra.

Chegamos então no enredo, o verdadeiro calcanhar de Aquiles do Resident Evil 4 original e, também, um de seus aspectos mais criticados. A boa notícia é que a reimaginação também soube focar nisso e trouxe elementos adicionais, tanto na forma de contexto sobre o que acontece naquela região, alguns de seus habitantes e criaturas, como também na profundidade dos personagens. Eles se tornaram mais reativos e interessantes, além de terem maior profundidade e elementos a serem explorados.

De todos, Ashley Graham e Luis Serra são os que mais ganham com a reimaginação. Ela deixa de ser uma donzela em apuros para ganhar aspectos mais interessantes e camadas de personalidade, principalmente diante das atrocidades que vê em sua frente. Já ele assume ainda mais a postura de canastrão entendido do que está acontecendo, deixando claramente de entregar informações e participando de forma mais ativa do game, sendo ao mesmo tempo um mistério e um aliado interessante. Palmas, aliás, para a dublagem nacional, que soube transportar a nova profundidade destes e todos os outros protagonistas para o nosso idioma, em mais um grande trabalho da Capcom na escolha de elenco, tradução e produção.

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Não vamos entregar o ouro aqui, pois o remake de Resident Evil 4 é um convite à exploração e à experiência, mas é importante dizer que, ainda que tenha tornado a trama mais interessante e suculenta, a Capcom não vai até o fim em algumas das oportunidades apresentadas. Existem elementos narrativos que parecem fora do lugar, mas a trama é melhor de maneira geral, com laços mais bem amarrados e ligações menos deslocadas com a cronologia das reimaginações do que o game original em relação ao canon da série na época.

Você não precisa mais imaginar como seria

O maior argumento dos fãs para justificar o desejo pelo remake de um game antigo de Resident Evil, por mais contemporâneo que ele seja, é o pacote gráfico proporcionado pelas novas plataformas. E, como aconteceu em 2002 e 2019, o conjunto visual é um dos elementos mais impressionantes do novo título, com cenários inspirados, bem desenhados e uma fidelidade gráfica impressionante.

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O contraste entre o grotesco da vila e o luxo decadente do castelo de Salazar trazem ainda mais personalidade ao título, enquanto detalhes dos oponentes, do mais normal aos chefes de fase, mostram cuidado na composição. Há ainda um trabalho de luz e sombra, com Leon saindo de locais claros para cavernas escuras, onde precisa usar a lanterna, ou tendo a visão ofuscada por uma granada atordoante de maneira interessante. Os elementos trazem variação, ainda que a própria jornada tenha seus momentos repetitivos, os quais a Capcom faz todo o possível para dissolver com novidades.

Em um game baseado em hordas, não tem como escapar da repetição de modelos de oponentes, que fica mais clara na vila, onde os inimigos não andam uniformizados. Por outro lado, em meio à ação, você não terá tempo para reparar muito nisso, principalmente diante de outros elementos visuais bem colocados, como o castelo à distância durante a passagem pelo lago ou a verticalidade de alguns dos cenários, bem como as diferentes rotas e segredos escondidos nele, alguns acessíveis e outros vistos apenas de longe.

Quem jogar a versão PlayStation 4 de Resident Evil 4, entretanto, sentirá a diferença, principalmente, nestes momentos. Fica claro que o console de geração passada sofre para rodar um título idealizado para os modelos atuais, com uma otimização nem sempre fluida no que toca, principalmente, a taxa de quadros por segundo e os efeitos de ambientação.

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Em alguns casos, itens exibidos na tela nem mesmo carregam, enquanto os serrilhados e texturas que surgem diante dos olhos são uma constante. Também dá para notar muitos elementos em baixa resolução, principalmente quando se usa a mira telescópica dos rifles, que também evidencia as quedas de frame rate nos oponentes que estão longe e chega, até mesmo, a entrar no caminho da precisão que é necessária em alguns momentos críticos da jogabilidade.

O acesso importa e é interessante ver que Resident Evil 4, com a importância que tem, será disponibilizado para mais gente — apesar da inexplicável ausência no Xbox One. Quem jogar a versão de antiga geração terá acesso à experiência e todos os seus elementos, mas claramente sairá perdendo em relação aos donos do PC, PS5 e Xbox Series X|S, com seus loadings imediatos, modos de performance e visuais muito superiores.

Vale a pena jogar Resident Evil 4?

Com a nova versão de um clássico absoluto, a Capcom entrega um dos melhores jogos de ação e terror da atualidade. A desenvolvedora traz fidelidade absurda ao original ao mesmo tempo em que adiciona novos elementos que modernizam o título e o tornam mais interessante do que nunca. Não se trata apenas de corrigir o que faltou ou atualizar o medalhão, mas sim o refazer de olho no novo, sem nunca perder o original de vista.

Nesse caso, ele fica no retrovisor, com a reimaginação superando o game de 2005 nos aspectos em que ele deixava a desejar e mantendo intactos aqueles elementos que funcionam bem até hoje. Um feito que se torna ainda mais impressionante quando pensamos que os criadores originais de Resident Evil 4 não estão mais presentes, apenas uma equipe apaixonada e competente, com muitos veteranos.

Apesar de ter uma versão PlayStation 4 claramente defasada nos aspectos visuais, estamos diante de uma experiência absoluta, com um dos melhores jogos de ação e terror da atualidade. Isso vale tanto para os velhos de guerra de Resident Evil 4 quanto para aqueles poucos que nunca tiveram essa experiência. Há muito para todos aqui, em um título simplesmente impressionante que firma, pela terceira vez na história da Capcom, um novo padrão de qualidade para remakes.

Resident Evil 4 está disponível para PC, PS5, PlayStation 4 e Xbox Series X e Series S. No Canaltech, o game foi testado no PS5 e PS4, em cópia digital gentilmente cedida pela Capcom.