Análise | FIFA 21 é a melhor edição dos últimos anos

Por Douglas Ciriaco | 06 de Outubro de 2020 às 16h01
Divulgação/EA

Eu não gostei de FIFA 20. Apesar de ter jogado sabe-Deus-quantas-horas, o game do ano passado sempre me soou pior do que o seu antecessor, mesmo com algumas correções que diminuíram a frequência daqueles gols oriundos de saída de bola, por exemplo.

No geral, porém, o jogo de 2019 trouxe pouca novidade e até o grande retorno do FIFA Street não foi bem do jeito que todos esperavam. Eis que agora, em meio à pandemia que ainda castiga o planeta, a EA Sports traz ao mundo o novo FIFA 21, e, meus amigos, estamos diante de uma das edições mais interessantes dos últimos anos.

Melhorias na jogabilidade e no visual podem até ser sutis, mas é fato que tudo soa mais fluido por aqui, enquanto o visual ganhou aquele retoque dentro do que é possível para uma geração que chega ao fim.

O grande trunfo de FIFA 21, porém, mora fora das quatro linhas. Adições desejadas já há algum tempo pelos fifeiros no Modo Carreira, um Ultimate Team muito mais organizado e até melhorias do VOLTA Football resultam em um game divertido para diferentes públicos.

O Modo Carreira que você queria

Calma, ainda não estamos falando de um FIFA Manager embutido no "FIFA Soccer", mas a edição deste ano do game de futebol mais famoso do mundo traz algumas melhorias muito interessantes e capazes de dar vida nova à jogatina.

A primeira delas é a possibilidade de simular as partidas vendo um futebol de botão animado na tela. Tal qual no Football Manager, você acompanha o desenrolar da disputa, com narração e tudo, mas aqui há uma pequena vantagem: é possível assumir o controle do jogo a qualquer momento para decidir tudo em campo.

Essa novidade parece sutil, mas não é, pois cria uma possibilidade nova de jogo muito legal para quem quer focar seus esforços como treinador. E como assumir o controle dos atletas é fácil, a brincadeira fica ainda melhor e mais dinâmica — é possível entrar e sair da simulação a qualquer momento e quantas vezes quiser.

Outra adição digna de celebração é a de desenvolvimento personalizado de cada atleta. Essa é a grande novidade do Modo Carreira, na minha opinião, porque permite aproveitar melhor os jogadores de acordo com a sua necessidade ou mesmo com seu plano de jogo.

Modo Carreira finalmente tem uma simulação estilo Football Manager (Imagem: Douglas Ciriaco/Captura de tela)

Com esses treinos específicos, você pode fazer um atleta ganhar desenvoltura em novas posições ao longo do tempo, algo especialmente útil para aproveitar as aptidões de um lateral que pode virar ponta ou dar uma sobrevida a um volante já em fim de carreira, mas capaz de jogar como zagueiro, por exemplo.

Vale destacar que esse sistema é bem coerente dentro de FIFA 21, e fazer um volante virar meia central levará menos tempo do que transformar um lateral direito em ponta esquerda, por exemplo. O nível de detalhe aqui impressiona e também confere mais realismo ao Modo Carreira.

Ainda falando em termos de jogadores, vale destacar outros dois novos recursos: o impacto da presença de um jogador no elenco e também a queda de desempenho quando ele joga fora de posição. Tais novidades também aumentam o desafio, pois exigem mais versatilidade tanto do elenco quanto do treinador (ou seja, você) na hora de colocar o time em campo.

Agora é possível adaptar atletas a novas posições (Imagem: Douglas Ciriaco/Captura de tela)

A inteligência geral deste modo de jogo foi reforçada e o mercado de transferências não deve apresentar muitos comportamentos bizarros. Esses dois elementos também resultam numa experiência de jogo menos surreal, e provavelmente não será simples trazer o Messi para jogar no Brasil ao final do seu contrato com o Barcelona.

Em suma, o Modo Carreira reúne diversos novos elementos que o tornam uma opção cada vez mais interessante de passar o tempo dentro de FIFA. Sem dúvida, este ano traz um dos maiores saltos de qualidade anuais já vistos na modalidade.

Futebol de rua ainda mais coletivo

O VOLTA Football não era o FIFA Street que todos nós esperávamos, isso é fato, mas a segunda edição da modalidade dentro de FIFA 21 está mais robusta e interessante do que a versão que estreou no ano passado. Os desafios foram ampliados e o modo história conseguiu me divertir de maneira até inesperada, com mais opções de personalização, mais desafios e um enredo simples, mas bem legal.

Como no ano passado, é possível criar seu próprio personagem, montar um time de futebol de rua e sair pelo mundo enfrentando desafios, ganhando troféus e dinheiro e adquirindo peças de vestuário para incrementar o visual do atleta. Essa é uma parte bastante agradável do ecossistema de FIFA e que conta com o reforço de novos modos de jogo, inclusive com grandes estrelas do futebol emprestando o seu talento para uma pelada de rua altamente qualificada.

Entre as novas quadras, o destaque fica para São Paulo, que traz como pano de fundo o icônico edifício Copan. Se o FIFA continua falhando em trazer conteúdo personalizado de clubes brasileiros, algo que se repete na edição deste ano, ao menos nessa parte cosmética parece haver algum cuidado.

VOLTA Football ganhou novidades e está mais maduro (Imagem: Douglas Ciriaco/Captura de tela)

O grande destaque desta nova versão do VOLTA Football, entretanto, fica com as disputas cooperativas online. Se a pandemia impede você de reunir a galera e passar horas se divertindo em quadras de futsal ou no bom e velho golzinho dentro de FIFA, a nova modalidade ajuda nesse sentido porque deixa você se ligar a amigos e desconhecidos de várias partes do mundo pela internet.

Enfim, o VOLTA Football do FIFA 21 está mais maduro e completo, com mais opções de jogo e mais recursos que dinamizam a experiência dos jogadores. Apesar de ainda não oferecer times reais batendo bola com roupas de "civis" (os times jogam com seus uniformes mesmo na rua) e de estar longe da popularidade do FUT ou do Modo Carreira, o VOLTA tem tudo para se estabelecer como um grande diferencial do game em relação ao seu principal concorrente.

Inteligência natural e um time mais acertado

A inteligência artificial de FIFA costuma ser um destaque, mesmo que obviamente ainda haja muito espaço para melhoria. No FIFA 21, é possível sentir um jogo mais robusto, com adversários mais inteligentes e que reagem de maneira natural a diversas situações de jogo. Isso faz com que o ato de enfrentar a máquina tenha um nível de desafio adequado, algo essencial para a peleja não perder a graça por ficar fácil ou difícil demais.

Entre as novidades do novo FIFA está a possibilidade de fazer um companheiro sem a bola disparar no espaço vazio. Isso já existe no Pro Evolution Soccer há alguns anos, mas, claro, é uma adição bem-vinda ao game da EA, pois amplia o leque de jogadas possíveis para quem está com a posse da bola e exige ainda mais de quem vai se defender.

Saber aproveitar bem esse novo recurso certamente resultará em diversas chances de gol, assim como ter grandes craques à sua disposição também pode favorecer a sua equipe: no FIFA 21, a consciência tática dos atletas está refinada e fica evidente em grandes jogadores, algo também capaz de reproduzir dentro do jogo ações básicas do futebol de verdade.

Um problema das duas últimas edições — no FIFA 19 porque era fácil demais, no FIFA 20 porque era difícil demais —, a precisão do cabeceio parece mais ajustada. Em algumas horas de jogo foi perceptível que a EA está ao menos próxima de encontrar um meio termo que faça os escanteios serem perigosos novamente, e isso é ótimo.

Em termos de controle de jogo, tudo parece mais cadenciado e natural, nem muito lento nem muito rápido. As trombadas estão mais naturais, a movimentação defensiva também parece mais consciente e a combinação desses elementos resulta num jogo melhorado e com diversas potencialidades para se explorar.

Ultimate Team: organizando o time

Os fãs do FIFA Ultimate Team (FUT) têm motivo para celebrar no FIFA 21. A modalidade foi ampliada naquilo que precisava e oferece muito mais recompensas aos jogadores, com destaque para objetivos coletivos que somam os pontos de experiência de toda a comunidade para destravar novos prêmios.

O visual dessa modalidade foi todo renovado e provavelmente soará confuso no começo. Pouco tempo de uso, porém, deixa claro que as mudanças são coerentes e ajudam a tornar o que importa mais acessível.

Menu do FUT está mais organizado (Imagem: Douglas Ciriaco/Captura de tela)

Em termos de recursos, há muito mais personalização. Agora é possível customizar diversos aspectos do seu estádio, como trapos da arquibancada e até a música que toca quando seu time entra em campo — detalhes cosméticos, claro, mas que incrementam a diversão da jogatina. Tudo isso cria fato novo e torna até mesmo a busca por recompensas mais legal.

Até escolher novos uniformes, bolas, estádios e comemorações especiais está mais simples, algo muito bem-vindo e que evita ter que vasculhar o banco de itens para encontrar uma cancha nova onde você vai desfilar o seu futebol. Aqui, mais um ponto a favor de FIFA 21.

Mas as novidades do FUT não se resumem aos aspectos visuais: há novas opções de jogo também. O grande destaque é a chance de chamar um amigo para jogar com você as partidas do Division Rivals ou as Squad Battles, mais uma inclusão interessante especialmente durante o período de isolamento social. Aos poucos, o FUT também vem se tornando um modo de jogo altamente coletivo.

FUT está mais personalizável do que nunca (Imagem: Douglas Ciriaco/Captura de tela)

Outro ponto legal e que dinamiza os duelos são as House Rules. Aqui os jogadores devem preencher requisitos específicos para participar das partidas, tirando todo mundo da zona de conforto para tentar derrotar os adversários e obter recompensas. Assim como os novos Amistosos Ao Vivo, sempre com temas temporários e possibilidade de ganhar mais prêmios e moedas, ela ajuda a incrementar uma modalidade que já funciona muito bem e normalmente rende muito dinheiro para a Electronic Arts.

Para fechar o bloco do FUT, é preciso destacar uma grande correção feita pela EA: agora, qualquer um dos jogadores envolvidos em uma partida pode encerrar o replay de um gol a qualquer momento. Isso sem dúvida garantirá menos momentos de irritação e muito mais diversão e bola rolando para todos os jogadores.

O melhor FIFA dos últimos anos

Todo ano é a mesma coisa: um FIFA novo a caminho e aquela expectativa baixa porque as mudanças sempre são muito superficiais. De certa maneira, FIFA 21 não foge disso, e mesmo as boas novas adições em termos de jogabilidade e estética não parecem reverter esse quadro.

Porém, o game consegue trazer uma série de novos elementos que tornam a jogatina mais divertida. A edição de 2020 avança em basicamente todas as suas frentes — VOLTA, Modo Carreira e FIFA Ultimate Team —, mostrando que a EA está de ouvidos atentos às solicitações de seus jogadores e, ao menos neste ano, não pretende deixar ninguém de lado.

Apesar de ser um adepto do FUT e de ter gostado das novidades apresentadas neste ano, o grande destaque fica por conta da evolução do Modo Carreira. Por anos, quem tentava a sorte comandando um time ali se sentia negligenciado pela ausência de novidades e por problemas que soavam até como desleixo por parte da EA.

Este ano, porém, a coisa é diferente e a evolução é robusta na comparação com o FIFA 20, devolvendo à modalidade o protagonismo que ela nunca deveria ter perdido.

Some-se a isso ajustes muito bem colocados de inteligência artificial, dribles e divididas mais realistas e um sistema de consciência tática mais maduro e temos diante dos olhos e das mãos um grande jogo de futebol.

Gustavo Villani é um alento para quem quer jogar FIFA 21 com narração em português (Imagem: João Miguel Júnior/Divulgação/Globo)

A grande ausência de FIFA 21, porém, segue sendo um cuidado maior com o futebol brasileiro. Diferente do que acontece no PES, os times brasileiros de FIFA estão todos com jogadores falsos por uma série de questões burocráticas. Além disso, faltam também os estádios nacionais: não há qualquer estádio brasileiro disponível e, assim como ano passado, a única praça latino-americana no jogo é o lendário Azteca, no México.

A falta desse tipo de localização pode até parecer pouca coisa para muitos jogadores, e de fato não interfere na qualidade geral do jogo, mas não deixa de ser um problema especialmente porque essa é uma das principais características do rival do Konami. No PES 2021, além de jogadores com nomes reais, há vários estádios brasileiros à disposição do jogador.

Por fim, impossível não destacar o grande reforço do elenco do FIFA 21 para o Brasil: a troca de Tiago Leifert por Gustavo Villani traz um narrador de verdade para o jogo e faz isso de maneira brilhante. Villani empresta seu vozeirão, junto de seus bordões e de todo o seu dinamismo para as narrações de FIFA, e o resultado é incrível, deixando no ar a sensação óbvia de “por que não fizeram isso antes?”.

Com Villani (lado bom) e sem muito cuidado com o futebol brasileiro (lado ruim), o veredito é que FIFA 21 tem absolutamente tudo para manter a dianteira da preferência dos fãs do futebol eletrônico.

FIFA 21 já está disponível para quem fez a compra antecipada no Xbox One, PlayStation 4 e PC. O jogo também receberá edições para PlayStation 5, Xbox Series X | S, Switch e Stadia. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela EA Sports.

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