Análise | Empire of Sin é uma guerra perdida em si mesma

Por Felipe Demartini | 06 de Abril de 2021 às 15h20
Divulgação/Paradox
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John Romero

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A Chicago dos anos 1920 se viu envolvida em uma guerra entre mafiosos e contrabandistas pelo controle de itens ilegais, estabelecimentos, casas de espetáculo e rotas de importação. Em um período no qual a linha entre a lei e o crime era um bocado tênue, imaginar a cidade como um tabuleiro dominado entre facções que impunham uma tensão constante é fácil, com essa mesma ideia sendo uma das bases de Empire of Sin.

A primeira franquia original e de destaque da Romero Games desde sua fundação, em 2015, trouxe dois dos designers de jogos mais consagrados de todos os tempos de volta a uma posição de destaque. John e Brenda Romero apresentam, aqui, sua visão sobre um estilo reconhecido, querido e amplamente utilizado, unindo isso a uma série de outros elementos que, na tentativa de diferenciar o game em seu próprio nicho, acabam contribuindo para o exato contrário.

A ideia de Empire of Sin é ir além apenas dos tiroteios estratégicos e da combinação de habilidades de games como XCOM, o maior expoente do gênero. O posicionamento de agentes e a movimentação cuidadosa entre elementos do cenário para escapar do fogo inimigo enquanto encontra alternativas importantes de ataque é apresentada como apenas uma das características do game, sendo a culminação de outras ações realizadas fora do campo de batalha. Não curiosamente, o aspecto estabelecido acaba sendo um dos poucos a realmente funcionar neste game.

A ambição impressiona desde o início, quando o jogador deve escolher entre personagens bem peculiares para entrar de cabeça na guerra de Chicago. Entre figuras histórias como Al Capone e personagens fictícios, já começam a se desenhar estratégias que, em um momento inicial, nem mesmo fazem sentido, como bônus relacionados a bares de venda ilegal de bebidas, ganhos com a contratação de seguranças para cassinos ou habilidades diplomáticas maiores ou menores. Você até consegue imaginar o que cada atributo faz, relacionando isso a seu próprio estilo de jogo, mas fica difícil de fazer uma escolha acertada antes mesmo de conhecer o jogo a fundo.

Fora dos combates, Empire of Sin é cheio de elementos de gerenciamento, menus e opções; as telas são confusas, enquanto as decisões não transparecem tanto assim na jogabilidade (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Quando tudo começa efetivamente a ser apresentado, porém, a sensação é de confusão em meio à profusão de conceitos, números, elementos e atributos a serem considerados durante todo o tempo — todos em inglês e sem versão em português brasileiro, diga-se de passagem. Ainda durante o tutorial, e ao longo de toda a experiência com Empire of Sin, não estranhe se a tela de jogo se assemelhar a uma planilha do Excel, com a mudança de um item ou o domínio de um território, por exemplo, mudando tanta coisa que fica difícil acompanhar exatamente os reflexos gerados por cada ato.

Fica pior ainda quando todos os elementos apresentados nos longos tutoriais (e acredite, eles estão por todo lado para que o jogador faça sentido de tudo o que está na tela) não interfere tanto assim na realidade desse conflito. Entre ícones, números, planilhas e relatórios, Empire of Sin acaba se parecendo demais com um game de ação estratégica tradicional, com esse aspecto sendo também o que melhor funciona no game, enquanto, rapidamente percebemos, que todos os adicionais e elementos de gerenciamento fazem pouca diferença diante dos tiroteios e ataques às instalações inimigas.

Tentando ser maior

Os combates de Empire of Sin funcionam bem, fazendo o básico da jogabilidade enquanto foca em elementos adicionais que não adicionam quase nada, além de confusão, ao formato interessante (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini?Canaltech)

Em meio a diálogos com personagens secundários e uma trilha sonora que transmite o clima dos anos 1920, juntamente com a ambientação fiel às versões ficcionais dos EUA, que tanto conhecemos dos filmes, se desenham as rivalidades de Empire of Sin. O texto, aliás, chama a atenção pela qualidade, com dublagens que adicionam personalidade e o machismo e preconceito que imperava na época, fazendo com que chefões do crime ou descendentes de europeus desdenhem de mulheres, negros ou asiáticos em posição de comando.

Logo, claro, os oponentes perceberão que subestimar seus adversários é o caminho mais rápido para ganhar um tiro no meio da testa e perder o controle de seus estimados bares, depósitos ou cassinos. Para o jogador, por outro lado, fica sempre a noção de que partir para o conflito é a forma mais interessante de resolver as coisas, com todo o restante sendo obstáculos nessa rota.

Alguns dos aspectos trazidos por Empire of Sin interferem diretamente no andamento das batalhas, como a contratação de gangsteres que se deem bem ou mal com outros elementos da equipe ativando ou impedindo o uso de habilidades combinadas ou melhorias. Da mesma forma, usar equipamentos adequados ao estilo de cada personagem ajuda no tiroteio, assim como utilizar os líderes de facção para certas tarefas ativa cutscenes ou diálogos especiais.

Figuras históricas e tipos peculiares aparecem entre os personagens de Empire of Sin, com campanhas separadas e foco no fator replay — ainda que pouco se faça para, efetivamente, garantir que o jogador volte (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Por outro lado, as falhas de movimentação da inteligência artificial, assim como os cenários pouco criativos, fazem com que baste uma estratégia minimamente competente para vencer os confrontos. Mesmo gravemente feridos e com uma movimentação que demonstra isso, os personagens se mantém no melhor estado possível do começo ao fim das batalhas, enquanto problemas de balanceamento fazem com que até mesmo os combates contra líderes de facção se transformem em um passeio no parque caso o jogador saiba um mínimo do que precisa fazer.

Mesmo nos confrontos existem problemas, como confirmações desnecessárias durante os ataques a oponentes ou problemas de balanceamento que, muitas vezes, transformam as porcentagens de acerto em um jogo de sorte, mas do tipo não divertido. As animações de execuções e ataques corpo a corpo adicionam um toque interessante, assim como a verborragia proferida pelos personagens durante o combate, mas tudo não passa de um granulado diferente sobre um bolo que você já comeu várias vezes antes.

Todos os outros aspectos ficam em segundo plano, enquanto até mesmo clichês de filmes de máfia, que poderiam trazer frescor e personalidade à jogabilidade, deixam de aparecer. O resultado faz Empire of Sin acabar deixando de trabalhar de forma especial seu melhor aspecto para focar em outros que acabam deixados de lado pela confusão inerente ou pela ideia de que é sempre melhor atirar do que gerenciar. Fica provado rapidamente que nenhum número ou estratégia resiste a uma invasão por bandidos portando metralhadoras.

Diálogos, finalizações de oponentes e interações entre os personagens de Empire of Sin geram curiosidade, mas a verdade é que basta ser minimamente competente para construir um império (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Chega ser curioso notar que, por exemplo, somente começamos a ter reservas interessantes de dinheiro depois que um grande império já está montado. Elementos adicionais da trama, como a participação da polícia nos trambiques ou na tentativa de manter a ordem em Chicago, importam pouco, mesmo que você detone uma granada no meio da rua. Monte um time de agentes que se odeiam e parta para o combate, você vai ter apenas um pouco mais de dificuldade em relação a uma equipe azeitada, mas nada mais.

Mesmo que o jogador entre de cabeça e tente comprar o mundinho apresentado por Empire of Sin, as mecânicas acabam deixando a desejar. O foco na diplomacia e nas reuniões com oponentes, por exemplo, sempre acabam nos tiroteios apesar dos bons diálogos e opções disponíveis, enquanto montar uma rede de estabelecimentos e controlar o comércio ilegal de bebidas, que deveriam colocar um alvo na cabeça de nosso personagem, geram pouca ameaça já que, no fim de tudo, basta apenas ser minimamente competente nos confrontos.

A Romero Games também tenta influenciar o fator replay com a já citada variedade de personagens e, também, a customização de campanhas que podem ser mais longas ou curtas, além dos alinhamentos diferentes que, na teoria, abririam um leque de opções. Novamente, na prática, o resultado é um tiroteio repetitivo e a pouca curiosidade gerada pelas interações entre os líderes sendo metralhada pelo tédio e a confusão.

A diplomacia entre os personagens de Empire of Sin gera curiosidade, assim como a atenção às relações entre os membros de um grupo, mas a verdade é que tudo sempre termina em tiroteio, mesmo os aspectos econômicos do game (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Empire of Sin é muito menos do que a soma de todos os seus aspectos. Por trás de um visual interessante e elegante, que retrata os anos 1920 e deseja entregar nas nossas mãos o combate pela supremacia na época da proibição, está um game aquém do esperado em termos de estratégia, simulação e, principalmente, daquilo que sabemos que seus criadores são capazes de fazer.

Nesse sentido, o título acaba sendo, para manter o tema alcoólico de boa parte da jogabilidade, como uma caipifruta, daquelas cheias de misturas, gelo, açúcar e um guarda-chuvinha, que acabam não escondendo o sabor da cachaça até boa usada como base. Você preferia estar tomando só ela, em dose, mas essa opção, infelizmente, não está disponível no cardápio.

Empire of Sin foi lançado em 1º de dezembro de 2020 para PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch. O título está disponível no Xbox Game Pass para computadores e consoles, e no Canaltech, foi analisado via retrocompatibilidade no Xbox Series X.

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