Análise | Narita Boy e sua melancolia digital em um dos melhores do ano

Por Felipe Demartini | Editado por Jones Oliveira | 02 de Abril de 2021 às 08h05
Divulgação/Team17

Obras digitais são frias por natureza, com um amontado de números e códigos que são convertidos no que você vê na tela, como esta análise ou os visuais de seu jogo preferido. Narita Boy, entretanto, é como uma relíquia de um passado em que os bastidores da tecnologia não eram plenamente reconhecidos por quase todo mundo, e também uma fábula na qual há mais do que linhas e programações em um software. Por trás das luzes piscantes, também bate um coração, ainda que digital.

Estamos no chamado Reino Digital, um lugar cujo balanço está prejudicado pelos ataques do Him e seu séquito de soldados, dispostos a dominar os locais e assumir o controle da programação. Ao melhor estilo da clássica Jornada do Herói, começamos como uma pessoa comum que, transformada para esse reino digital, assume ares de salvador, empunhando uma espada tão tecnológica quanto seus próprios inimigos para enfrentar uma ameaça enraizada nas próprias linhas de código que estamos explorando.

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Falar em termos palpáveis e técnicos, porém, seria subestimar Narita Boy e, também, criar um paradoxo com sua própria proposta. Afinal de contas, como todo o game faz questão de demonstrar, estamos no interior de uma simulação, o que não faz com que os atos presenciados, os inimigos enfrentados e, principalmente, a jornada apresentada sejam menos íntimos e pessoais. Afinal de contas, no topo de tudo, está um criador, e antes da digitação e da programação, vieram memórias, vivências e, principalmente, lembranças ruins.

Em meio às luzes piscantes, o colorido vibrante e o ar de que podemos fazer qualquer coisa, Narita Boy é um game melancólico. As chaves literais que abrem os caminhos do Reino Digital, obtidas por meio de combates ferrenhos ou enigmas cujas pistas são dadas por seres quase místicos, aparecem em meio às lembranças do Criador de todo esse universo, que fala de um ambiente familiar e remetem aos pais, amigos e cônjuges. O software em funcionamento, aqui, também é o mundo interno de seu renomado Criador, que já saiu na capa de revistas e é profissionalmente conceituado, ao mesmo tempo em que despeja um oceano de inseguranças em sua obra.

História de Narita Boy mistura elementos digitais com as lembranças e situações cotidianas do criador do software, criando um mundo intrigante e cheio de mistérios (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Nessa mesma toada, também segue o próprio título dos espanhóis do Studio Koba, que em seu primeiro game, já entrega um dos melhores jogos independentes do ano. É na contradição entre o poder cada vez maior do Narita Boy, bem como as ameaças cada vez mais perigosas e, principalmente, um envolvimento na história do criador e no misticismo deste mundo digital que está o principal incentivo para seguir em frente na jornada, explorando todos os cantos e atuando, de verdade, como salvador, mas também como observador e, quem sabe, aliado. As batalhas contra os inimigos, afinal de contas, não são as únicas sendo travadas aqui.

Tristeza em neon

A inspiração fica clara desde o início, em obras como a série Tron e filmes como Videodrome: A Síndrome do Vídeo, mas também em jogos como Out of This World e os clássicos adventures da LucasArts. Estas últimas referências, mais especificamente, transparecem na pixel art incrível de Narita Boy, com cenários impressionantemente cheios de detalhes ainda que sejam compostos majoritariamente de quadrados sólidos de cores.

Pixel Art impressionante faz com que cada cenário de Narita Boy seja memorável, o que também ajuda na jogabilidade que envolve ir e voltar entre os cenários (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

As brincadeiras com perspectivas e elementos gigantescos, que vão desde monumentos até figuras míticas, junto com os coadjuvantes desse universo, que nem sempre estão ligados à jornada do Narita Boy, compõem um quadro a cada tela. O jogador está sempre sendo tocado, às vezes ficando com temor, em outras impressionado e intrigado. A certeza constante é de impacto e, também, de uma sensação constante de progressão como poucas vistas em títulos do estilo Metroidvania.

O aspecto religioso por trás da narrativa ligada a raízes tecnológicas é um dos aspectos que mais intriga no game. Ao colocar a letra inicial em letra maiúscula, fazendo do desenvolvedor um Criador, os habitantes desse universo digital possuem seus próprios ritos, mitos e elementos de devoção, algo que também se reflete nos oponentes. Nestes cenários, as telas são os guias de tudo, os cabos nos conectam à força vital e as luzes indicam, sempre, o caminho, assim como as ameaças, vulnerabilidades e elementos de enigmas, intimamente ligados à narrativa.

É nesse contraste entre mundos altamente tecnológicos e as lembranças melancólicas de uma infância difícil no Japão pós-guerra que o citado coração digital de Narita Boy bate mais forte. Ao mesmo tempo, está em sua excelência gráfica o elemento que faz com que o jogador queira sempre mais, querendo saber o que está por trás do próximo portal ou que tipo de ameaças e upgrades o Reino Digital nos reserva. Acima de tudo, a vontade é de explorar o que vai acontecer na próxima memória do Criador e como tais lembranças explicam os aspectos muitas vezes bizarros desse universo digital.

As respostas para enigmas e o andamento da história são dados fase a fase, dando a Narita Boy uma sensação de progressão pouco vista em games do estilo Metroidvania (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

O trabalho gráfico incrivelmente apurado e detalhista faz com que o Studio Koba tome algumas liberdades com o gênero, abrindo mão, por exemplo, de um mapa. Narita Boy tem uma experiência explorativa, ainda que um tanto linear para o padrão dos metroidvânias, mas ainda assim tem os seus momentos de fazer o jogador voltar a um cenário inicial após obter uma chave — com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, dá para se confundir e ficar um bocado perdido, ainda que uma lista de objetivos indique exatamente o que é preciso fazer. Chegar lá, porém, depende da memória.

Algumas frustrações desse tipo também surgem quando o assunto é a jogabilidade, com um estranho momentum aplicado aos movimentos do protagonista e um controle aquém do esperado dos saltos, enquanto algumas ocasiões pontuais do game exigem precisão nesse aspecto. Não é como se alguns trechos fossem punitivamente injustos ou bugados, mas o jogador se verá, sim, perdendo pontos de energia por não conseguir controlar muito bem os pulos ao seguir de uma plataforma para outra.

Simbologias e simulações estão por todos os lados, com Narita Boy adicionando misticismo a um mundo tecnológico e desenvolvido por mãos humanas (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Estes são bugs em uma programação altamente otimizada e cheia de elementos, camadas e recursos. Narita Boy é daqueles jogos que, por trás da aparência aparentemente simples de um side scroller com fortes elementos de combate, esconde uma trama e um universo que o jogador não vai querer deixar de explorar tão cedo. Você vai querer ouvir a trilha sonora enquanto trabalha e discutir as possibilidades e teorias com os amigos nas redes sociais — acredite, é experiência própria.

Este é, também, um título que apresenta uma crescente absurda e, a cada vitória, apresenta novos elementos que aumentam as apostas e os riscos, bem como a amplitude desse universo. Acima de tudo, a busca é pela descoberta do que causou essa sensação de melancolia constante, com a montagem da história no plano real, de forma singela, dialogando diretamente com os mistérios e o misticismo de sua contraparte digital.

Narita Boy é o primeiro game do Studio Koba e já se sagra como um dos indies mais interessantes de 2021, capaz de disputar também um belo espaço entre os grandes (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Ainda estamos em abril, mas já dá para falar em Narita Boy como um grande cotado entre os principais e melhores jogos independentes do ano, quem sabe, até, disputando um assento entre os grandes blockbusters. Pelo menos, por enquanto, foram poucas as experiências que geraram esse tipo de envolvimento, e em um mercado indie saturado de rogue likes, walking simulators e metroidvânias, apenas dizer isso de um game dessa categoria já o diferencia um bocado dos demais.

Narita Boy foi lançado no dia 30 de março e está disponível para PC, PlayStation 4, Nintendo Switch e Xbox One, com direito à presença no serviço Xbox Game Pass. No Canaltech, o game foi testado no Xbox Series X.

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