Call of Duty: Black Ops 4 quer agradar fãs do multiplayer, mas para por aí

Por Felipe Demartini | 07 de Agosto de 2018 às 09h55

Houve um tempo em que todo mundo queria ser Call of Duty. Até mesmo franquias como Resident Evil e Dead Space, que não poderiam ser mais distantes do tiroteio frenético da saga da Activision, tentaram adotar uma jogatina mais movimentada, de olho nos jogadores (e nos números) dos fãs do FPS mais famoso do mundo. Hoje, para tristeza dos fanáticos, é a série de ação que deseja ser igual a todos os outros.

Essa perda de personalidade não é recente. Estamos falando de uma franquia que já nos chocou com uma visão visceral da Terceira Guerra Mundial e trouxe atores como Kevin Spacey (quando ainda estava em seu auge e não sabíamos de sua faceta de abusador) em uma boa imaginação de um futuro não tão distante. Depois disso, entretanto, foi só ladeira abaixo, com aparições aleatórias, personagens jogados, ensejos pouco interessantes e, acima de tudo, uma grande dificuldade de inovar enquanto outros concorrentes fazem exatamente isso – e se dão muito bem no processo.

Ao jogarmos a primeira Beta fechada de Call of Duty: Black Ops 4, a saudade do anterior, WWII, é das maiores (e isso não se relaciona apenas ao ensejo da Segunda Guerra Mundial, bem mais interessante e violento). Temos aqui um jogo que mantém as bases da série, na forma de seus respawns frenéticos e sucessivos, mas que tenta aplicar fórmulas da concorrência em um ensejo próprio, sem pensar se isso vai funcionar e, no que é pior, sem realizar muitas adaptações para que isso aconteça.

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Trabalho em equipe, coordenação de times e correria louca

As partidas da Beta multiplayer de Black Ops 4 trazem uma mistura de características do passado da série com inovações trazidas por shooters de herói como Overwatch, por exemplo. Ao entrarem em um lobby, cada jogador pode escolher um personagem com características e poderes únicos, que podem alterar o andamento de uma partida.

Assim como em outros jogos do gênero, a escolha também deve levar em conta o estilo de cada rodada. Ruin, por exemplo, possui uma arma capaz de causar forte dano de área, matando todos os inimigos a seu redor – ou seja, é uma boa escolha para modos de dominação de espaços, assim como Battery, fã dos explosivos.

Time genérico de especialistas tenda dar um quê que estratégia ao multiplayer de Call of Duty: Black Ops 4 (Imagem: Divulgação/Activision)

Por outro lado, as capacidades destes especialistas podem ser combatidas com a presença de alguém como Torque, capaz de fixar um poderoso escudo no qual não apenas ele, mas outros jogadores podem se abrigar, mantendo o domínio sobre uma área e, ainda, tornando os oponentes mais lentos. É um tipo de estratégia comum em games desse estilo e que, dita desta forma, até parece trazer algo de novo à franquia.

Ao contrário dos shooters de herói que tenta emular, entretanto, Call of Duty: Black Ops 4 ainda aposta na correria e nos disparos certeiros para dar vantagem aos jogadores. E de nada adiantam as boas habilidades dos combatentes ou a montagem apurada de um time quando um garoto de 12 anos é capaz de passar correndo pelo seu personagem e dar um quick scope diretamente na cabeça do jogador.

Não será nada comum ver partidas inteiras se desenrolando sem que as habilidades especiais dos protagonistas sejam utilizadas uma única vez sequer. Esse aspecto negativo tem muito a ver com a jogatina tradicional da franquia, à qual todos estão acostumados, mas também ao pouco incentivo que o game dá a comportamentos assim, não explicando os poderes em tutoriais nem disponibilizando uma área de testes para as habilidades especiais. A impressão que fica é que tais artifícios são mais uma característica daquelas que ficam bonitas nos vídeos de divulgação, mas que acabam tendo pouca tração no mundo real.

Nos mapas, uma verticalidade interessante traz novos elementos às partidas. Os cenários possuem longos trechos abertos e, também, áreas fechadas e cheias de corredores. Como um dos grandes focos desta Beta é, justamente, os modos baseados em dominação de terrenos, tais aspectos tornam as jogatinas dinâmicas e aceleradas, mantendo os jogadores sempre espertos e de olho em todos os cantos, já que o inimigo pode vir de qualquer lugar.

Traz uma aura diferente às partidas, ainda, o fim da regeneração automática de energia. Presente desde Call of Duty WWII, a mecânica volta a exigir que os jogadores cuidem da própria saúde, trazendo nova relevância à estratégia e também ao posicionamento. Sair de um confronto diretamente para outro pode ser suicídio, mas, ao mesmo tempo, também pode trazer, facilmente, uma virada na batalha.

Novamente, estamos falando de um paradoxo entre estratégia e correria. O que se percebeu durante a Beta multiplayer de Call of Duty: Black Ops 4 é que times bem coordenados ainda têm maior chance do que aqueles cujos jogadores são aleatórios unidos pelo caso. Atacar um ponto de controle com diversos agentes vindos de locais diferentes pode ser a chave para vencer uma partida de dominação com facilidade e, ao mesmo tempo, jamais deixar que os oponentes tomem o ponto novamente.

São elementos, então, que podem tornar uma partida competitiva, com profissionais da franquia, um evento dos mais bonitos. Principalmente quando esse aspecto é unido à correria tradicional da saga Call of Duty e às viradas rápidas, a garantia é de partidas emocionantes e grandes momentos gravados em vídeo.

Desenvolvido pela Treyarch, Call of Duty: Black Ops 4 chega sem campanha ao PC e consoles (Imagem: Divulgação/Activision)

Entretanto, ao trazer elementos dos shooters de herói para seu campo de batalha, a Treyarch falha em abraçar o principal aspecto desses games: a baixa curva de entrada. Não que lidar com diferentes personagens e habilidades seja fácil, mas mesmo nas partidas iniciais de Overwatch, por exemplo, é difícil sair com a sensação de que não fizemos nada em uma partida, muito pelo contrário. Em Call of Duty: Black Ops 4, muitas vezes o sentimento é de termos sido atropelados por um rolo compressor.

Essa seria, inclusive, uma boa porta para uma nova geração de jogadores trazida pelo foco completo em multiplayer, pois, sim, o novo Call of Duty, pela primeira vez, não terá uma campanha principal. A possibilidade era de abertura de um mercado até então fechado, com um preço de entrada mais baixo, uma jogabilidade mais amigável e, acima de tudo, um cuidado exemplar em cima de bases sólidas e que já agradam tanta gente.

Jogadores online não faltam, mas, ao escolher o que fazer com eles, a Treyarch e a Activision optaram por não apenas jogar seguro, mas também jogar “chato”. Call of Duty: Black Ops 4 é um jogo que não faz mais do que qualquer outro título de sua franquia, executando esse arroz e feijão com uma cara genérica e semelhante a seu antecessor de subfranquia e também a outros shooters futuristas que existem por aí.

Suas novidades não são novas, seus elementos definidores não ajudam a mudar a cara do título e, mais do que tudo isso, seu resultado é genérico e sem sal. Se de um lado temos D.Va e Reaper, de outros soldados sem-nome em um Battle Royale infinito, mas cheio de personalidade, e, no meio disso tudo, grandes nomes da ação como B.J. Blazkowicz ou os operadores de Rainbow Six Siege, o que nos leva a querer jogar com o “sujeito do escudo” de Call of Duty: Black Ops 4?

Quem curte a pegada da saga e esteve feliz durante seus últimos anos continuará desta maneira, enquanto aqueles que curtiam os momentos épicos e absurdos da campanha principal buscarão outras propostas e, acima de tudo, pouca gente nova deve se interessar por um game com uma primeira impressão tão “qualquer coisa”.

Modos baseados em dominação chamam a atenção em Call of Duty: Black Ops 4, mas também fecham a porta para novatos ou times descoordenados (Imagem: Divulgação/Activision)

E para os fãs antigos, que viram a franquia em seu apogeu e tiveram uma grata esperança em WWII, fica, novamente, o amargo na boca. Felizmente, sabemos que a atual faceta tem a ver com o ciclo de desenvolvimento da franquia Call of Duty, com empresas entregando um game a cada três anos. Quando este começou a ser produzido, a Treyarch havia acabado de finalizar Black Ops III e ainda vivia de um passado clássico, com dois dos melhores jogos da marca.

Isso foi antes de o ensejo futurista deixar de ser do gosto dos jogadores, enquanto o que passou a mandar no mercado foram a personalidade e o desafio. Que as lições de WWII demorem, mas sejam aprendidas, ou que, pelo menos, o próprio modo Battle Royale de Call of Duty venha para mudar um pouco as coisas. No panorama atual, a vontade é de buscar outro FPS para jogar.

* A Beta de Call of Duty: Black Ops 4 foi testada no PS4 com cópia gentilmente cedida ao Canaltech pela Activision.

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