Call of Duty: WWII volta ao passado para ser um dos melhores FPS da atualidade

Por Sérgio Oliveira | 13 de Novembro de 2017 às 10h40

Após anos apostando em guerras contemporâneas e futurísticas, Call of Duty está de volta às suas raízes. Em Call of Duty: WWII embarcamos para as praias da Normandia, França, para ajudar a Europa a se livrar da ocupação nazista, na operação que ficou mundialmente conhecida como o Dia D da Segunda Guerra Mundial.

Sim, a história até pode parecer batida para algumas pessoas, mas esse olhar para trás e resgate das origens chega em um momento em que Call of Duty vinha sendo criticado por não inovar e não conseguir empolgar. É uma pisada no freio em relação ao frenesi instaurado pelos últimos títulos. Quão bom isso foi (ou não) para a franquia é o que vamos discutir nesta análise.

Pé no chão

Embora Call of Duty seja essencialmente um jogo multiplayer com uma campanha que vem de "brinde", muita gente vinha se queixando da falta de profundidade do game. Em Call of Duty: WWII isso muda completamente de figura. Tanto é que, durante a promoção do título, a Activision deu ênfase especial ao trabalho de pesquisa realizado pelo pessoal da Sledgehammer Games. Milhares de arquivos da Segunda Guerra foram vasculhados e minuciosamente estudados para tornar o game o mais verossímil possível.

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Resultado: saem de cena guerras e histórias inventadas de Deus sabe onde e ganham destaque um roteiro e enredo alinhados com eventos reais. Percorremos e refazemos missões que ficaram para a história, como a Operação Cobra, que marcou a derrota e retirada dos germânicos do nordeste da França, e a congelante Batalha de Bulge, considerada pelos americanos a mais sangrenta de todas.

Batalhas históricas, como a de Bulge, na floresta das Ardenas, na Bélgica, são reproduzidas com fidelidade
Batalhas históricas, como a de Bulge, na floresta das Ardenas, na Bélgica, são reproduzidas com fidelidade

Quem havia se acostumado com os supersoldados dos CoD anteriores, logo percebe que o soldado Ronald "Red" Daniels, protagonista do título, não tem nada de especial e é bem ordinário. Ele tem dificuldades para sair da água nas praias da Normandia, mal consegue correr por alguns metros e fica mais lento quando é atingido pelos inimigos. E quando a coisa está feia de verdade, não adianta ficar fazendo murinho para a barra de vida se encher; é preciso usar kits médicos coletados ao longo das missões ou fornecidos pelos companheiros do pelotão.

Essa vulnerabilidade do personagem contribui para que não só sintamos o peso da guerra sobre nossas costas como também percebamos que WWII é um jogo pé no chão, mais cadenciado, que não aumenta e nem inventa. Por exemplo: é muito fácil sucumbir e se perder diante de uma investida inimiga mais pesada. Há pouco tempo para processar as ordens recebidas dos superiores e planejar um ataque eficiente. Quando nos damos conta, ou já fomos bem-sucedidos ou estamos numa baita cilada e a única saída é bater em retirada.

Primor técnico

Os elementos técnicos de Call of Duty: WWII também são decisivos para criar um cenário de guerra perfeito. Quem acompanha a série há mais tempo certamente perceberá que não há grandes melhorias em termos gráficos, é verdade, mas rolou um trabalho todo diferenciado para reproduzir locais históricos com fidelidade e otimizar ao máximo a ambientação da Europa daquela época.

Por exemplo: na gelada floresta das Ardenas, na Bélgica, os soldados tremem de frio e isso nos faz imaginar como devia ser difícil se manter alerta e empunhar uma arma naquelas condições. Já na Paris tomada pelos nazistas, é possível sentir a tensão e transpirar junto com o membro da resistência infiltrado em um quartel general montado de improviso pelo Eixo em um hotel.

Em Liberação, nosso objetivo é libertar Paris das garras dos nazistas, numa missão que envolve espionagem, documentação falsa, colocação de bombas e atiradores de elite
Em Liberação, nosso objetivo é libertar Paris das garras dos nazistas, numa missão que envolve espionagem, documentação falsa, colocação de bombas e atiradores de elite

Outra qualidade que chama atenção é a produção sonora de Call of Duty: WWII. Reproduzir sons do que aconteceu há 72 anos não é uma tarefa das mais fáceis, mas o título faz isso muito bem. Os rasantes dos caças e as explosões de suas bombas são de arrepiar, enquanto o barulho pesado dos tanques Sherman americanos e dos Tiger e Panzer alemães passando por cima dos destroços avisa de longe que eles estão chegando. O trabalho sonoro é tão absurdo que cada arma disponível no game tem um som de ferrolho diferente.

Além de barulhos distintos, cada arma teve suas características reproduzidas fielmente. Há metralhadoras pesadas que têm um recuo absurdo e que são difíceis de mirar, e aquelas mais leves e ágeis, mas que têm um cartucho com pouca munição. Além delas, também há rifles, fuzis, pistolas e até lança-chamas que atendem a perfis diferentes de jogadores - cabe a você escolher qual a melhor e em quais situações usar.

A exceção da variedade de armas, nada disso impacta diretamente a jogabilidade de Call of Duty: WWII, mas colabora bastante para fazer o jogador se sentir dentro da jornada de Daniels e seu pelotão ao longo da campanha. E já que falamos nela...

Efeitos sonoros contribuem para a imersão do jogador no clima de combate, podendo identificar a chegada de tanques a centenas de metros
Efeitos sonoros contribuem para a imersão do jogador no clima de combate, podendo identificar a chegada de tanques a centenas de metros

Campanha com gosto de quero mais

Toda a campanha de Call of Duty: WWII parece um belo filme de guerra dirigido por Steven Spielberg. A bem da verdade, a sensação é de que, principalmente nas missões iniciais, estamos conduzindo as gravações de O Resgate do Soldado Ryan.

À medida que avançamos pela Europa e expulsamos os nazistas da França, percebemos que o enredo também é fortemente inspirado em outra produção audiovisual de Spielberg: Band of Brothers. Apesar de sermos apenas mais uma peça naquela grande máquina que é a guerra, os personagens a todo momento expõem suas emoções e contam com seus amigos para sobreviver e, um dia, poder voltar para casa. Não é apenas a guerra pela guerra, mas também uma bela história de amizade que vemos ser contada.

Missões como a do Dia D nos remetem a filmes como O Resgate do Soldado Ryan, que reproduziu a invasão das praias à perfeição
Missões como a do Dia D nos remetem a filmes como O Resgate do Soldado Ryan, que reproduziu a invasão das praias à perfeição

Falando das missões em si, elas são muito bem situadas na História, todas datadas de acordo com os acontecimentos e desdobramentos reais. Tirando um momento e outro, adicionados ao jogo com o objetivo de entreter e deslumbrar, elas representam bem e sem exageros o que aqueles homens passaram em suas lutas. O destaque fica, sem dúvidas, para a retomada de Paris, que reúne praticamente todos os aspectos positivos que existem em CoD WWII, da espionagem ao combate direto, passando pela precisão de um atirador de elite.

A união de todos esses elementos é que confere a profundidade que era tão pedida pelos jogadores de CoD que apreciam a jogatina single player. A batalha finalmente deixou de ser genérica e passou a fazer sentido, a ter um propósito e uma força motriz que impulsiona protagonista e coadjuvantes adiante.

Há muito pouco do que se queixar da campanha, e apenas duas questões merecem ressalva. A primeira delas é um problema antigo de praticamente todos os jogos de tiro em primeira pessoa: em WWII estamos basicamente em cima de um trilho, indo do ponto A para o ponto B, com pouquíssimas possibilidades de exploração. A segunda é em relação à duração da aventura: tudo acaba rápido demais, bastando de seis a dez horas para concluir todas as missões.

Enredo explora a amizade entre os combatentes, que só têm uns aos outros longe de casa, criando um clima parecido com o da série Band of Brothers
Enredo explora a amizade entre os combatentes, que só têm uns aos outros longe de casa, criando um clima parecido com o da série Band of Brothers

O gosto que fica é de “quero mais”, o que pode ser saciado ou repetindo a campanha em uma dificuldade maior ou partindo para os modos multiplayer – que muito provavelmente é o que você vai fazer.

Três jogos em um

O filão de todo Call of Duty é o modo multiplayer, e em WWII isso não seria diferente, com a jogatina online surgindo como o coração do game. Nele você escolhe uma das cinco especialidades do seu soldado e parte para o combate em tipos variados de confronto, como os clássicos Baixa Confirmada, Localizar e Destruir, Mata-mata em Equipe e Destruição. A novidade fica pelo modo Guerra, no qual você e sua equipe têm de cumprir ordens específicas em mapas específicos e dentro de uma estrutura narrativa.

No modo multiplayer cada jogador tem uma especialidade e um dever a cumprir dentro da equipe
No modo multiplayer cada jogador tem uma especialidade e um dever a cumprir dentro da equipe

Outra adição interessante é o Quartel General, que funciona como um lobby onde você pode fazer uma série de atividades enquanto espera os jogadores para iniciar a partida online. É aqui onde você troca moedas por caixas de loot, compra personalizações cosméticas para suas armas e personagem e outras coisas. Há até uma tenda em que você pode jogar os clássicos da Activision numa espécie de fliperama retrô.

O curioso é que quando você partir para o combate, perceberá que aqui o ritmo é muito mais acelerado que na campanha. Por estar ao lado de outros jogadores, a luta também perde aquele peso e melancolia das missões principais, fazendo surgir uma estranha sensação de que estamos em um jogo diferente que simplesmente aconteceu de vir no mesmo pacote.

Se o frenesi não contribuir para esse estranhamento, o modo Zumbis Nazistas certamente o fará. Aqui, Call of Duty: WWII se despe de qualquer realidade e aposta todas as suas fichas na galhofa e na diversão. Estamos na cidade alemã de Mittelburg, onde o exército nazista conduziu uma série de estranhos experimentos.

O Zumbis Nazistas traz uma dose cavalar de diversão ao novo CoD. Mas não se engane: é preciso muita paciência e estratégia para derrotá-los
O Zumbis Nazistas traz uma dose cavalar de diversão ao novo CoD. Mas não se engane: é preciso muita paciência e estratégia para derrotá-los

O resultado óbvio de tudo, como o nome indica, é que todo mundo virou zumbi e cabe a você passar o rodo nas hordas que vão aparecendo à medida que novas áreas do mapa são desbloqueadas. O mais interessante é que falando assim o Zumbis Nazistas parece bem simplório, mas a verdade é que ele exige uma boa parcela de cautela e, sobretudo, estratégia, tornando-o uma espécie de terceiro jogo que vem no pacote de WWII.

Missão cumprida?

Call of Duty: WWII nem de longe é um game disruptivo. Ele apenas segue a linha natural de evolução da série, mantendo a qualidade gráfica que todo mundo está acostumado. Mesmo assim, a decisão da Activision de retorna às origens e abraçar mais uma vez a Segunda Guerra Mundial fez o game fincar os pés no chão e se tornar mais real e palatável para quem não aguentava mais histórias mirabolantes e futurísticas.

Com missões e personagens bem construídos e cutscenes dignas de Hollywood, a campanha é uma belíssima homenagem aos combatentes que libertaram a Europa dos nazistas e um deleite para os aficionados pelo conflito. Os modos multiplayer e Zumbis Nazistas, por sua vez, agradam a outra parcela de jogadores mais antenados ao cenário competitivo e que ainda respiram os CoD lançados nos últimos anos.

No fim das contas, Call of Duty: WWII acerta em cheio naquilo que os jogadores mais antigos pediam, mas sem desagradar os que se acostumaram com o ritmo acelerado e mapas feitos sob medida para o confronto entre duas equipes. Ele não só cumpre sua missão como volta para casa como herói.

Call of Duty: WWII está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. No Canaltech, ele foi analisado no Xbox One com cópia digital gentilmente cedida pela Activision.

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