Por que nenhuma mulher competiu na Copa do Mundo de Fortnite?

Por Nathan Vieira | 02 de Agosto de 2019 às 15h45
Divulgação/Epic Games

No fim do mês de julho, nos Estados Unidos, aconteceu a Copa do Mundo de Fortnite, com direito a um prêmio farto de US$ 3 milhões. A tão aguardada competição foi vencida por um garoto de 16 anos chamado Kyle Giersdorf, que se destacou na categoria solo, a mais importante do evento. No entanto, um fato no mínimo curioso a respeito da Copa do Mundo de Fortnite é que, dentre o número expressivo de competidores, não havia uma única mulher. Nesta sexta-feira, o portal norte-americano The Verge trouxe à tona uma análise que busca compreender o porquê de mulheres não terem competido, já que existem jogadoras profissionais do battle royale.

Vencedor da Copa do Mundo de Fortnite (Foto: The New York Times)

Aproximadamente 200 jogadores participaram do evento, que se distribuiu em duas categorias: solo e duplas, ou seja, 100 jogadores para cada uma delas, embora alguns dos participantes tenham conseguido se classificar para as duas. No extenso grupo de jogadores, não havia nenhuma mulher classificada para jogar no evento principal. Por outro lado, várias jogadoras competiram no Celebrity Pro-Am, incluindo Soleil Wheeler, uma jogadora de 13 anos que também atende pelo codinome de Ewok, portadora de um contrato recente com a equipe de e-sports Faze Clan.

O The Verge conta com o depoimento de algumas jogadoras profissionais que estiveram na plateia do evento, como as integrantes da equipe Gen.G, Tina Perez, Madison Mann, Carlee Gress, e Hannah Reye, que moram em Los Angeles e treinam na sede norte-americana da equipe. Tina Perez, por exemplo, afirmou que nunca teve um modelo feminino crescendo no cenário do e-sports, mas deseja que isso mude: "Eu quero ser o modelo que eu nunca tive para essas pessoas".

Em março, a desenvolvedora Epic Games, responsável pelo jogo em questão, declarou ao Engadget que sua base feminina de jogadores na época era estimada em “cerca de 35%”. Assim, é possível afirmar que as mulheres estão jogando profissionalmente, e competindo no Fortnite em seus níveis mais altos.

Fãs querem apoiar as mulheres

Tina Perez, Madison Mann, Carlee Gress e Hannah Reyes na Copa do Mundo Fortnite em Nova York (Foto: Gen.G)

Os fãs do jogo, por sua vez, apoiam que as mulheres passem a competir no mais alto nível. Em Nova York, por exemplo, um fã chamou para tirar uma foto com a equipe da Gen.G enquanto elas estavam entrando no YouTube Creator Lounge, uma área montada em meio à atmosfera de parque temático na Copa do Mundo de Fortnite. Na ocasião, elas começaram a procurar a fã, que acabou se ofuscando em meio à multidão: "Nós literalmente a perseguimos como um esquadrão, conversamos com ela e agradecemos por nos apoiar", disse Perez.

Assim como as jogadoras da Gen.G, Wheeler também quer ser um modelo para as mulheres que jogam Fortnite. "Espero ver mais mulheres jogando Fortnite ", disse ela ao The Verge. “Já existem jogadoras profissionais de Fortnite e garotas que jogam bem. Eu quero o maior número possível de meninas competindo".

O portal norte-americano ainda aponta que as razões pelas quais não houve mulheres no evento principal da Copa do Mundo Fortnite são multifacetadas. O processo de qualificação do evento foi aberto para qualquer pessoa acima de 13 anos, com rodadas acontecendo ao longo de dez semanas antes do evento principal. Os jogadores puderam treinar no modo Arena para se qualificar para as semifinais. A Epic Games declarou que 40 milhões de jogadores participaram das eliminatórias online para o evento. No entanto, a empresa não revelou nada em torno da porcentagem de jogadores do sexo masculino e feminino.

Por que, afinal, as mulheres não competem?

Pôster da Copa do Mundo de Fortnite

Perez estimou que o grupo de mulheres que participaram era muito baixo por causa de barreiras como o assédio ou o medo. "Isso é algo que eu quero mudar", disse a jogadora. “Todos nós temos a mesma oportunidade para isso e quero que todos aproveitem. Parte da razão pela qual elas não o fazem é que as mulheres têm medo de que eles façam algo ruim, ou não se sintam qualificadas o suficiente, ou que elas serão assediadas. É isso que queremos mudar".

Tudo remonta a uma indústria que historicamente não é atraente para as mulheres e, embora isso esteja mudando, tem sido um processo lento. O público feminino está jogando videogames mais do que nunca, mas ainda há uma lacuna. Quando uma mulher está competindo, geralmente se depara com a pressão adicional de ser a única mulher. O público feminino presente na cena não têm o luxo de ter outra jogadora na partida. “Depois de entrar para o Faze Clan, foi como uma validação de eu ser uma profissional da Fortnite. Eu tenho muito mais seguidores, o que é ótimo de ver. Espero inspirar muito mais", disse Wheeler.

A maioria das mulheres no e-sports querem ser tratadas como qualquer outro jogador, mas muitas estão adotando seus papéis como modelos para as mulheres na indústria. “Agora, parece bom. Há motivação da Copa do Mundo”, afirmou Mann. “Mas os últimos meses têm entrado e saído com emoções, um pouco mais de pressão porque você quer se qualificar e ser uma figura para as pessoas. É difícil, honestamente". Perez disse, ainda, que os membros da equipe são criticados muito mais do que a média dos jogadores do sexo masculino porque são mulheres contratadas pela Gen.G, uma organização de primeiro nível.

Durante o evento, Perez twittou diretamente para suas companheiras jogando Fortnite: “Eu quero ver vocês garotas se esforçarem para a Fortnite Champion Series!” Na publicação, a jogadora ainda completou: “Vamos quebrar os estereótipos e mostrar que podemos competir também. O jogo é para todos. O nome de qualquer uma pode estar no no próximo ano. Vamos fazer isso!".

Sua mensagem teve grande repercussão entre os fãs, mas as reações acabaram sendo diversas. Apesar de ter tido muito apoio, algumas pessoas estavam dizendo as mesmas coisas que Perez acredita que desencorajam as mulheres de competir. "Eu quero quebrar o estereótipo onde as mulheres não podem competir", Perez afirmou. “As pessoas estão aqui dizendo que há uma razão pela qual elas não se qualificaram e é porque elas são ruins. Não, é porque muitas delas têm medo de jogar”.

Entre os comentários, algumas mulheres falaram sobre o assédio que enfrentam por ser mulher. Às vezes, isso representa uma barreira o suficiente para levar essas mulheres a não competirem. “Uma das principais razões pelas quais eu nem mesmo tento competir é pelo tanto de bobagem que ouço por ser uma garota”, escreveu uma internauta, na postagem da jogadora.

Mann disse ao The Verge que a organização da Gen.G trata as integrantes da mesma forma que qualquer outro grupo de jogadores. As mulheres praticam nas mesmas instalações de alta tecnologia que as outras equipes, morando nas proximidades de Los Angeles. Elas têm os melhores computadores e a Internet da mais alta qualidade para usar. Existem treinadores, equipe de suporte e recursos de streaming. Mas a ajuda vai além do jogo, pois a organização está especialmente interessada em ajudar suas jogadoras a lidar com os estresses do jogo, e isso significa terapia com psicólogos esportivos.

Por sua vez, Perez disse que muitas jogadoras profissionais lutam para preservar a saúde mental devido à pressão de competir em frente a grandes audiências. A equipe banca um suporte de saúde mental com terapias semanais. A jogadora apontou que esse apoio é necessário para criar uma infraestrutura onde todos possam ter sucesso no Fortnite e em outros esportes eletrônicos: "Se você não está bem, isso vai aparecer no seu jogo". Perez ainda afirmou: "Estamos nos esforçando ao máximo para abrir essas portas para elas, potencialmente fazer com que outras mulheres assinem com outras equipes ou mesmo com a Gen.G. Esse é apenas o nosso maior objetivo agora".

Fonte: The Verge e Engadget

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