O que é um jogo beat ‘em up?
Por Diego Corumba • Editado por Jones Oliveira |

O fliperama brilha, as palavras “INSERT A COIN” piscam na sua tela. Você insere a ficha na máquina para começar o seu jogo e o que vê? Vários oponentes surgem, enquanto você avança para cima de cada um, seja com socos, chutes ou no uso de alguma arma que achou no chão.
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Seja em Final Fight, Fatal Fury, Teenage Mutant Ninja Turtles, Double Dragon, Cadillac and Dinosaurs ou centenas de outros entre os anos 1980 e 1990, isto representava o ápice da experiência nos arcades. O prazer de derrubar vários inimigos e um chefão ao fim das fases, sem qualquer pudor.
Com muita diversão, brigas de rua e a possibilidade de reunir seus amigos para uma jogatina cooperativa, os beat ‘em up foram uma verdadeira febre nos fliperamas e nos consoles. E não é para menos, já que geralmente atraem pelos seus fortes personagens, ação desenfreada e muitas cores.
No entanto, você sabe o que realmente define um jogo do gênero para outras experiências — como ação e aventura? Para responder essa questão, nós do Canaltech apresentamos o que faz um título um membro da categoria beat ‘em up, como ele surgiu e evoluiu ao longo dos anos. INSERT A COIN:
O que é um jogo beat ‘em up?
O gênero é conhecido por apresentar personagens que avançam nos cenários side-scroller, enquanto enfrentam vários inimigos em seu caminho. É comum a temática urbana, de vigilantes contra o crime organizado ou em busca de vingança, mas também há alguns que exploram o lado fantasioso.
O objetivo é ir de um lado do mapa para outro, sem ter sua vida reduzida pelos oponentes. Para enfrentá-los, os jogadores contam com os punhos, pés e armas brancas que podem ser encontradas pelo cenário em um gameplay simples (soco, chute, pulo, especial e movimentos).
Além das armas, podem ser encontrados power-ups que recuperam os pontos de vida, aumentam sua força e oferecem outras melhorias. De barras de chocolate, latas de refrigerante a até caixas de pizza (COWABUNGA!), sua função é de aprimorar os habilidosos que sobreviveram aos desafios.
Ainda que seja predominante os beat ‘em up no formato 2D side-scroller, o avanço da tecnologia também agregou os jogos tridimensionais neste pacote. Experiências clássicas como The Warriors, Fighting Force, Yakuza e até mesmo o recente Sifu se encaixam nesta categoria.
Por natureza, a categoria segue padrões repetitivos. Em quase todos você verá os mesmos inimigos, elementos do cenário e até a distribuição de itens em um “ciclo” até o fim da aventura.
Para driblar esta dinâmica, os beat ‘em up possuem uma dificuldade elevada (você não conseguirá ver repetições se não passar de fase, não é?), cenários diferentes de fundo e até uma seleção de personagens com características únicas — geralmente com armas ou combos próprios.
Embora concebidos para serem jogados de forma solo, eles se destacaram bastante por avançarem ao formato cooperativo. Não apenas por ser mais divertido confrontar bandidos ou monstros com amigos, mas por exigirem na época que cada um deles compre uma ficha a mais nos fliperamas.
Ultrapassamos a “era de ouro” dos arcades, mas a possibilidade de reunir os amigos se tornou um pré-requisito para um bom beat ‘em up. Alguns como Scott Pilgrim Vs. The World - The Videogame e TMNT: Shredder’s Revenge, por exemplo, permitem até 4 pessoas simultaneamente.
A história do beat ‘em up
Você sabia que o gênero nasceu com Bruce Lee? Na verdade, foi quase isso. Em 1978 estreou o filme Jogo da Morte (Game of Death), com o ator no elenco e o mostrava subir uma pagoda enquanto enfrentava uma série de oponentes com suas técnicas de kung-fu.
E o que isso tem a ver com beat ‘em up? Simples, a categoria surgiu com inspiração deste longa-metragem, porém com elementos de outra produção: Detonando em Barcelona (Wheels on Meals, no original), de 1984. O jogo Kung-Fu Master acompanha Thomas — no filme, interpretado por Jackie Chan —- enquanto encara diversos inimigos e tenta salvar Sylvia das garras do vilão Mr. X.
A experiência foi extremamente popular, principalmente nos Estados Unidos. Ao permitir que o personagem lutasse, com pulos e agachamentos, o público não largava os fliperamas para encarar seus desafios. Porém, ele fez muito mais do que abrir as portas para o beat ‘em up na indústria do entretenimento.
Um exemplo disso foi a versão para Nintendinho, que teve o envolvimento direto de Shigeru Miyamoto como diretor. O projeto trouxe experiência e o inspirou a criar sua própria aventura. Para a surpresa de todos, Super Mario Bros. nasceu em 1985 (no ano seguinte ao lançamento de Kung-Fu Master).
O diretor da versão para fliperamas era Takashi Nishiyama, que usou as batalhas contra chefões como base para criar a base de um “tal” de Street Fighter, em 1987. Depois disso, ele trabalhou na SNK e estabeleceu pilares para franquias como Fatal Fury e The King of Fighters.
E não foi apenas nos games, o beat ‘em up inspirou o mangaká Akira Toriyama — que trabalhava em um mangá com o nome de Dragon Ball. Kung-Fu Master levou o artista a desenvolver o arco Red Ribbon, o que ajudou a estabelecer Goku como uma das maiores figuras do Japão.
Outros tentaram replicar seu sucesso e, apesar da popularidade, só um inovou as suas mecânicas: Nekketsu Kõha Kunio-kun (1986). Ao invés do personagem principal andar apenas para os lados, ele também podia se movimentar para cima e para baixo — o que se tornou um padrão aos demais.
Enquanto Kung-Fu Master mostrava Thomas em uma torre, Nekketsu Kõha Kunio-kun foi o primeiro a popularizar os cenários urbanos e temas como vingança dentro dos beat ‘em up. No mercado ocidental, o título ficou conhecido pelo nome de Renegade.
Apesar do gênero se tornar comum, ele só se tornou um grande sucesso nas mãos de Double Dragon (1987). Ele foi o primeiro a adicionar o modo cooperativo para 2 jogadores, assim como aprimorou as movimentações de seus personagens. Estes fatores o tornaram um hit instantâneo e ajudaram a mantê-lo como o principal pilar da categoria.
A partir dele, grandes estúdios ficaram de olho e decidiram trazer suas próprias experiências ao mercado. E assim nascem Streets of Rage, Final Fight, Golden Axe e games inspirados em HQs como Teenage Mutant Ninja Turtles e Cadillac and Dinosaurs.
Apesar de ter perdido popularidade na era dos jogos 3D, o gênero sobreviveu de certo modo. Na geração do PlayStation 2, Xbox e GameCube, ele foi “substituído” pelos hack-and-slash. A ideia era usar a base do beat ‘em up e adaptar isso para ambientes tridimensionais maiores.
God of War, Devil May Cry, Bayonetta e outros usam muito de suas mecânicas, apesar de terem uma identificação própria. Enquanto isso, outros games como a franquia Yakuza se manteve fiel aos moldes tradicionais e o preservou por um longo período.
O renascimento do beat ‘em up
Nos anos 2010, eles voltaram a aparecer com maior frequência — muito pela onda retrô que os jogadores queriam. Isso foi responsável pelo surgimento de muitas franquias, assim como o retorno de outras clássicas ao longo dos anos.
Com a ascensão de estúdios independentes, foi possível tirar alguns projetos do papel como Guacamelee!, Streets of Rage 4 e Teenage Mutants Ninja Turtles: Shredder’s Revenge — 3 games aclamados pela crítica e pelo público, que conseguem inovar ao mesmo tempo que se mantêm fiéis à sua base.
E eles não param por aí. Mighty Morphin’ Power Rangers: Rita’s Rewind tenta trazer a glória dos heróis clássicos para os tempos modernos; assim como Marvel Cosmic Invasion — que revive as maiores aventuras dos super-heróis da Casa das Ideias dentro do gênero. E a promessa é que isso avance mais.
5 características dos jogos beat ‘em up
Algumas características tornam fácil a identificação de um jogo beat ‘em up dos demais. Confira abaixo a essência dos títulos presentes no gênero:
- Pancadaria solta: todo bom jogo da categoria te leva para uma pancadaria, seja com mãos, pés ou armas brancas
- Progressão linear: os jogadores avançam na trama de forma linear (seja no formato 2D ou 3D), com fases que têm início, meio e fim
- Similaridade com jogos de luta: eles não só se parecem, como estão interconectados. A diferença é que os combates não são 1v1, mas sim um ou mais jogadores contra uma horda de inimigos em sequência
- Gameplay simples: apesar de terem combos, os movimentos de cada personagem são fáceis de executar e memorizar. Até quem não tem experiência conseguiria assimilar sem dificuldades
- Estrutura de desafio: muitos títulos abrem espaço para o desafio não ser apenas os oponentes e chefões. Carros que passam na rua, vasos que caem de janelas e outras interações podem te comprometer de vários modos. Os jogadores talvez possam usar elementos similares do cenário contra inimigos
Desta forma, pode reconhecer mais facilmente quando vê um beat ‘em up e compará-los com outros gêneros. Entre as principais produtoras, a Dotemu e SNK são vistas hoje como as principais companhias que continuam a investir neste mercado.
5 subcategorias do gênero beat ‘em up
Os jogos beat ‘em up se garantem em uma estrutura básica, mas que pode receber diversas nuances conforme os jogadores encontram experiências mais imersivas. Desta forma, abre as portas para subgêneros e categorias que podem estar atreladas à base até hoje ou se tornaram únicas. São eles:
- Beat ‘em up side-scrolling: é um design simples e funcional, que permite os personagens apenas se moverem da direita para a esquerda (similar aos jogos de plataforma). Um exemplo disto é Viewtiful Joe, lançado em 2003
- Beat ‘em up belt-scroll: além de se mover para os lados, os personagens também podem se movimentar para cima e para baixo. Double Dragon, Final Fight, Street of Rage e alguns outros popularizaram este entre os fãs
- Beat ‘em up 3D: a diferença é apenas a forma como os jogadores enxergam os personagens, mas mantém a mesma base dos moldes 2D. Yakuza, Fighting Force e The Bouncer estão dentro desta vertente
- Hack and Slash: sejam eles 2D (como Shinobi, Strider, Golden Axe) ou 3D (Devil May Cry, God of War, No More Heroes), aqui a ideia é se manter focado em combates, mas com destaque para armas brancas
- Musou: o formato de combates de 1v1000 surgiu dos beat ‘em up, no qual personagens em ambiente tridimensional tem de encarar milhares de inimigos simultâneos. Assim como o Hack and Slash, ele é um dos únicos que seguiu um caminho próprio e teve acrescentado seu próprio conjunto de regras
5 jogos beat ‘em up essenciais
Se você é fã dos jogos beat ‘em up ou quer começar a aprender como funciona o gênero, algumas experiências se tornaram clássicos que merecem ser visitados — sejam eles antigos ou versões mais modernas. Confira:
5. Streets of Rage 2
Lançado no Mega Drive em 1992, Streets of Rage 2 é descrito até os dias atuais como o melhor game da categoria já levado aos consoles de mesa. Ele representou um verdadeiro milagre técnico para a sua época e continua atual, mesmo na geração atual.
Sua grande vantagem é usar a fórmula de Final Fight e aperfeiçoar ela ao máximo — com mecânicas e movimentos fluídos, golpes especiais que consomem a vida dos personagens (e os obrigam a agir de forma estratégica) e a presença de uma trilha sonora aclamada até hoje.
4. Like a Dragon Gaiden: The Man Who Erased His Name
Uma grande homenagem ao caminho de Kiryu Kazuma, Like a Dragon Gaiden: The Man Who Erased His Name foi lançado em 2023 para que o público mais atual soubesse as conquistas do personagem ao longo da franquia. Ele serve para complementar a história de Yakuza: Like a Dragon.
Aqui os jogadores encontram um beat ‘em up 3D completo, com o herói a relembrar seus tempos dourados e melhores histórias enquanto tenta esconder sua verdadeira identidade dos seus inimigos. Ele é uma verdadeira aula de como se traz um jogo destes para a geração atual em grande estilo
3. Cadillacs and Dinosaurs
O beat ‘em up de 1993 se tornou um verdadeiro clássico cult, principalmente no Brasil. Na experiência você vê exatamente o que o nome Cadillac and Dinosaurs sugere: carros lindos, personagens (masculinos e femininos) atléticos e, claro, dinossauros que vão aparecer em seu caminho.
Ele é baseado nas HQs “Xenozoic Tales”, que mostra um futuro pós-apocalíptico onde os humanos escaparam para o subterrâneo para escapar da poluição e desastres climáticos. Quando voltaram à superfície, descobriram que os répteis voltaram a comandar a cadeia alimentar.
2.Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge
Ainda que muitos recomendem TMNT: Turtles in Time (1991), foi Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge (2022) que fez ressurgir a paixão dos jogadores pelos irmãos quelônios mais descolados do planeta – depois de gerações de títulos medianos para ruins.
Com a possibilidade de controlar até 4 personagens simultâneos, experiência multiplayer online, diversos aliados das Tartarugas Ninjas jogáveis e uma aventura marcante, ele logo caiu nas graças do público e se tornou um dos beat ‘em up mais amados da atualidade
1. Double Dragon
O clássico que popularizou os jogos beat ‘em up e moldou toda a base dele como a conhecemos. Double Dragon surgiu em 1987 e mostrou como era a experiência de forma cooperativa pela 1ª vez — com um formato belt-scroll, o que tornou tudo ainda mais estratégico e imersivo.
Ao lado dos irmãos Lee, muitos viram mecânicas que se tornaram emblemáticas dentro do gênero: roubar armas de inimigos, mundo side-scrolling contínuo e um formato mais simples de comandos nos controles. A série vive até hoje, com Double Dragon Revive (2025).
A vingança dos beat ‘em up
Mesmo distantes dos seus tempos dourados, os beat ‘em up mostraram resistência e continuam a atrair uma legião de fãs ao redor do mundo. Basta notar a popularidade que TMNT: Shredder’s Revenge e dos games da linha Yakuza — esta que vem crescendo ano após ano.
Sem fugir de suas raízes e com muitas evoluções, não há uma desaceleração de seu ritmo, apenas mais formas das experiências se tornarem mais imersivas. Elas seguiram um longo caminho e, até onde a vista enxerga, ainda vão conquistar mais pessoas enquanto expandem.
Seja de forma solo ou com companhia (filhos, par romântico, amigos etc.), nos fliperamas, consoles de mesa ou dispositivos portáteis, a nossa recomendação é que não deixe as letras INSERT A COIN piscarem por muito tempo. Insira a ficha e dê play na diversão para explorar mais deste universo, que não haverá arrependimentos — apenas uma grande aventura.
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