Ex-chefe de World of Warcraft foi demitido após acusações de assédio

Ex-chefe de World of Warcraft foi demitido após acusações de assédio

Por Felipe Demartini | Editado por Jones Oliveira | 29 de Julho de 2021 às 14h05
Divulgação

Em mais uma repercussão das recentes acusações de assédio sexual e moral entre gerentes e funcionários, a Activision Blizzard confirmou que a demissão do antigo diretor criativo de World of Warcraft, Alex Afrasiabi, ainda em 2020, se deu por causa das acusações contra ele. De acordo com a empresa, em um breve comunicado, a dispensa aconteceu após uma investigação interna que descobriu, nas palavras oficiais, que ele teve “má conduta no tratamento de funcionários”.

Foram necessárias apenas algumas semanas entre o início da investigação, em junho do ano passado, e a demissão do executivo. Sua saída do comando de World of Warcraft era pública, mas os motivos por trás dela só foram divulgados agora, após a Activision Blizzard ser alvo de um processo na justiça americana que expôs diferentes situações de assédio sexual e abuso moral, bem como situações de racismo, enquanto a empresa não apenas falhava em agir como incentivava a manutenção de uma cultura tóxica.

Atenção: o texto a seguir pode conter gatilhos de assédio sexual e suicídio.

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No caso específico de Afrasiabi, o epicentro das acusações foi a BlizzCon de 2013, um evento promovido pela empresa no qual o diretor criativo e um grupo de outros funcionários de alto escalão, todos do gênero masculino, transformaram um quarto de hotel em espaço para festas regadas a álcool e mulheres, que ficou conhecido como a “suíte Cosby”, em referência ao ator Bill Cosby que, na época, já era acusado de assédio sexual e estupro e respondia a processos na justiça americana.

O ex-diretor criativo de World of Warcraft, Alex Afrasiabi (no centro, de preto) junto com outros executivos na chamada "suíte Cosby", quarto de hotel que virou espaço para festas e, agora, ícone das acusações de abuso movidas contra a Activision (Imagem: Reprodução/Kotaku)

Mensagens e imagens publicadas pelo site Kotaku revelam conversas em que outros executivos da Blizzard falam sobre levar garotas à suíte, bem como fotos deles ao lado de uma foto do comediante, que foi condenado anos depois. Afrasiabi aparece nas mensagens e é citado no processo pela mesma ocasião; ele teria usado sua posição de destaque na empresa para tentar beijar funcionárias e as abraçar de forma inapropriada, além de afirmar que gostaria de se casar com todas elas.

Segundo a Activision Blizzard, o caso foi investigado apenas sete anos depois de ocorrido pois foi trazido à atenção da empresa somente em 2020. Greg Street, designer líder de World of Warcraft, foi um dos poucos que se pronunciaram diretamente sobre a situação, afirmando que o apelido “suíte Cosby” tinha a ver com o ar antigo do quarto, semelhante aos suéteres usados pelo ator, e que se sente envergonhado disso desde que as acusações contra o humorista vieram à tona.

A empresa afirma ainda que uma investigação separada sobre Afrasiabi, envolvendo condutas não reveladas, também estava em andamento, e que a combinação de todos esses achados levou à demissão do diretor criativo. Nesta semana, a Blizzard também removeu personagens e itens que faziam referência ao antigo chefe do universo de World of Warcraft.

Tratamento inadequado

A reportagem do Kotaku trouxe à luz mais detalhes sobre o que o processo judicial aberto na última semana já afirmava. Afrasiabi é um dos citados nominalmente na ação, movida pelo estado americano da Califórnia, com direito a alegações de que até mesmo o presidente da Blizzard, J. Allen Brack, teria chamado a atenção do diretor criativo, que não mudou sua postura e teria recebido apenas advertências verbais.

Acusações e uma alegada falta de atitude sobre casos de assédio levaram a uma baixa de quase 10% nas ações da Activision Blizzard apenas na última semana; o CEO, Bobby Kotick, pediu desculpas por pronunciamentos anteriores e prometeu mudanças (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Outras denúncias pesam sobre os times envolvidos na série Call of Duty, com direito a alegações de que mulheres eram preteridas nos planos de carreira e recebiam salários mais baixos que colegas homens, que também trabalhavam sob menos pressão. Em um dos casos mais graves, uma funcionária teria tentado se suicidar durante uma viagem ao lado de um supervisor, que a teria assediado depois que uma imagem íntima circulou durante uma festa da empresa.

A ideia de que acusações eram varridas para baixo do tapete, com pouca ou nenhuma punição a membros de alto escalão, é apoiada por mais de dois mil funcionários da Activision Blizzard, que assinaram uma carta com críticas à companhia. A resposta veio após o comunicado de Frances Townsend, vice-presidente executiva da empresa, que minimizou as denúncias que constam na ação e afirmou que elas são “ações escandalosas de terceiros” em “um processo sem mérito e irresponsável”.

O surgimento das denúncias também teve seu impacto nas ações da companhia, que já perderam 9,79% de seu valor apenas neste mês de julho. Nesta quinta-feira (29), os papéis seguem a tendência de baixa, com redução de 1,29% na abertura do pregão, enquanto o CEO Bobby Kotick, em pronunciamento feito na quarta (28), admitiu a falta de tato no pronunciamento oficial da empresa e prometeu mudar a cultura interna da Activision Blizzard.

Fonte: Eurogamer, Kotaku

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