Análise | The Walking Dead: A Temporada Final definirá o futuro de uma geração

Telltale Games

Como seria a sua vida se você tivesse crescido em um mundo apocalíptico repleto de criaturas que transformam tudo o que tocam em morte? Será que você teria modos o suficiente para conviver com os poucos humanos que restaram? Ou seria uma besta selvagem cujo único instinto é a sobrevivência? Difícil dizer, mas, privados de nossa infância, provavelmente eu e você seguiríamos pelo segundo caminho.

Seja nos quadrinhos ou na televisão, The Walking Dead sempre nos fez refletir sobre como seria a vida nesse inferno. Mas é a série da Telltale nos videogames quem melhor explora como tudo isso é ainda mais cruel para um infante que não tem outra escolha a não ser "virar adulto" o quanto antes se quiser sobreviver.

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Desde o primeiro jogo da série, lançado em 2012, acompanhamos Clementine tendo de lidar com essas questões quando ainda era uma garotinha de 8 anos de idade. Sacada de sua pacata realidade, ela encontrou em Lee Everett um mentor que não só lhe ajudou a sobreviver, mas principalmente a manter sua sanidade para superar todas as adversidades que surgiriam dali em diante. Agora, em The Walking Dead: A Temporada Final, temos a oportunidade de ver Clem desempenhando o papel de Lee com AJ — e isso é extremamente interessante.

Com apenas 17 anos, ela é a personificação de uma geração de transição. Se antes todos tiveram infância, adolescência e conseguiram se tornar adultos; Clem teve apenas metade disso — ela jamais pôde curtir seus amigos, ou ter a fase aborrecente nem nada disso. Ao invés disso, teve de saltar essa fase para se tornar uma espécie de figura materna para AJ, cujo principal "brinquedo" é um revólver, "só por precaução". Ele já sabe atirar e entende que é importante "sempre mirar na cabeça" para garantir que os monstros morram. É uma vida dura, difícil, praticamente sem espaço para alegria, para descanso ou para chances ao acaso. Como isso afeta o garoto, entretanto, está em nossas mãos. E o jogo deixa isso bem claro bem no comecinho, quando nos avisa que "AJ está sempre atento" a tudo o que fazemos e dizemos.

É uma pista importante sobre o foco da narrativa: ela não necessariamente é sobre Clementine, a quem sempre direcionamos toda nossa atenção, mas sim sobre como ela serve de exemplo para AJ e todos os outros personagens. Curiosamente, em Chega de Fugir, primeiro episódio de The Walking Dead: A Temporada Final, tudo isso se desenrola na Ericson Academy, uma escola isolada embrenhada na floresta cuja comunidade é composta apenas por crianças e adolescentes, que sempre estiveram ali ou nunca ficaram tanto tempo sozinhos na estrada como Clem.

Neste último episódio, foco de The Walking Dead é a influência que Clem exerce principalmente sobre o pequeno AJ
Neste último episódio, foco de The Walking Dead é a influência que Clem exerce principalmente sobre o pequeno AJ (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Afastados do convívio com adultos e com pouca capacidade de discernir o certo do errado (natural, já que não existe mais sociedade), o grupo encontra na jovem alguém em quem confiar — seja na hora de caçar ou na hora de dizer que roubar algo do colega não é legal. Clem, de repente, se torna uma professora daquela turma, mais uma vez, como uma espécie de Lee não só para AJ, mas para toda a garotada que se refugia na escola. É como se o futuro de toda aquela próxima geração estivesse, repentinamente, nas costas da garota — e nas nossas mãos.

Maturidade técnica

Tamanho amadurecimento também é visto na forma como a Telltale trabalhou The Walking Dead: A Temporada Final. Por ser focado sobretudo na narrativa, obviamente o jogo não é disruptivo em termos de gráficos nem jogabilidade, mas melhora algumas coisas que sempre deram certo na série e em outros títulos da casa. Curiosamente, o visual está bem mais realista e, ao mesmo tempo, mais próximo daquele apresentado por Robert Kirkman em sua obra original. Pelo menos neste primeiro episódio, a desenvolvedora optou pela utilização de cores mais quentes e abusou do contraste para passar a sensação de calor e desespero, enquanto as noites estão bem mais sombrias e soturnas.

Aposta em contrastes altos confere às cenas noturnas um aspecto de breu sufocante, condizente com a realidade que o jogo propõe
Aposta em contrastes altos confere às cenas noturnas um aspecto de breu sufocante, condizente com a realidade que o jogo propõe (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Em matéria de jogabilidade, houve uma grande mudança no controle e comportamento da câmera. Agora ela pode ser controlada livremente em momentos de ação e tensão; na calmaria, se posiciona sobre o ombro da personagem e, em dois momentos, até alterna para a primeira pessoa. A opção por deixar a gameplay menos engessada também afeta diretamente o combate: podemos atacar os zumbis de maneiras diferentes e até mesmo utilizar armadilhas para acabar com eles com estilo.

Mesmo com tudo isso, para nós, brasileiros, a maior e mais bem-vinda mudança é, sem dúvidas, a inclusão da dublagem em português. O grande nome aqui é Luiza Caspary, que já dublou Ellie em The Last of Us e agora é responsável por dar voz à Clementine, mas a equipe de dublagem e localização também os parabéns por terem conseguido, com maestria, incluir gírias, coloquialismos e trejeitos do cotidiano brasileiro no game.

Ademais, The Walking Dead: A Temporada Final apresenta as mesmas características dos volumes anteriores. As decisões, por exemplo, continuam sendo as protagonistas do título e passando a sensação de que, na realidade, não afetam tanto assim o desfecho da história. Ao contrário do que vimos em jogos como Detroit: Become Human, que apresenta múltiplos desfechos a partir da forma como você joga, o que a Telltale nos apresenta são pontos de partida e chegada aparentemente fixos, com as decisões influenciando apenas o miolo da jornada.

Há quem se incomode com isso e diga que está na hora de a empresa mexer em sua fórmula. Pelo que vimos até agora em Chega de Fugir, ela está ensaiando se movimentar nesse sentido, mas resolveu jogar seguro com seu carro-chefe e trazer apenas mudanças pontuais para focar naquilo que sabe fazer de melhor: contar histórias. Resta aguardar para ver como esta daqui vai acabar e se vai nos deixar com o coração quentinho e felizes ou se vai eliminar a pouca esperança que ainda temos de que dias melhores podem vir.

The Walking Dead: A Temporada Final definirá não só o destino de Clementine, mas também da Telltale e de seus jogos futuros
A flor que desabrocha na abertura de The Walking Dead: A Temporada Final pode ser um sinal de que ainda há esperança para o destino de Clementine e para os jogos da Telltale (Captura de tela: Sergio Oliveira)

De uma forma ou de outra, assim como Clementine tem em suas costas a responsabilidade de moldar toda uma geração de jovens que estão diante dela, The Walking Dead: A Temporada Final deve definir quais caminhos a Telltale seguirá daqui em diante quando tudo acabar.

Em todo caso, essas são cenas para os próximos capítulos, que inclusive já têm data para sair.

The Walking Dead: A Temporada Final está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 em cópia digital cedida gentilmente pela Telltale Games.

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