Análise | Sea of Solitude tem reflexões necessárias em formato pouco inspirado

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O papo sobre os limites da diversão, da arte e do diálogo estabelecido entre jogos eletrônicos e o jogador já é antigo e batido. Não cabe mais aquela conversa de que os games são um mero entretenimento, feito para apagar a mente, esfriar a cabeça ou desopilar o fígado após um dia estressante de trabalho. Eles servem para isso, sim, mas seu caráter enquanto mídia pode ir muito além.

Sea of Solitude é uma prova disso e chega a ser curioso notar que ele é oriundo de uma estrutura altamente corporativa e, até onde sabemos, restrita, onde jogos seguem cartilhas empresariais, visam o lucro e, principalmente, devem atingir grandes públicos. O título faz parte de uma iniciativa de distribuição de jogos independentes da Electronic Arts, aparecendo entre astros da bola ou soldados bons de gatilho, e chega com muito a dizer.

O game desenvolvido pela Jo-Mei Games e dirigido por Cornelia Geppert é como um experimento pessoal, mas capaz de conversar com todo mundo. Ao abordar questões relacionadas à saúde mental, síndrome do impostor e tantos outros tópicos que efetivamente precisam ser abordados, seja como forma de criar conscientização ou atingir quem precisa de ajuda, o game não poderia passar mais longe das engrenagens nem sempre lubrificadas da máquina gigantesca da qual faz parte.

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Estamos em um mundo devastado por uma enchente. Tudo parece abandonado e, nessa versão cartunista de Berlim, na Alemanha, controlamos Kay enquanto ela, sozinha e também solitária, explora o ambiente em busca de salvação. Ela se vê diante de um monstro terrível que deseja engoli-la, enquanto atravessa telhados e sacadas do que restou da cidade. Logo percebemos, entretanto, que toda aquela destruição, na verdade, é íntima e pessoal.

Durante toda a jornada de Sea of Solitude, Kay é perseguida por um monstro que representa bem mais do que apenas uma ameaça à personagem (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A criatura gigantesca, às vezes com ares de caracol, outras de baleia assassina, é capaz de conversar com a gente e é absolutamente cruel. Um pássaro gigantesco parece ter medo da gente, enquanto pequenas gaivotas aparentemente deslocadas no cenário obscuro parecem indicar o caminho a seguir, junto com um sinalizador que pode ser lançado pelo jogador e serve menos para iluminar o local, e mais para trazer um pouco de luz às trevas que parecem insistir em tomar conta de tudo.

Diálogos, memórias e flashbacks se desenham à nossa frente enquanto percebemos, rapidamente, que tudo não passa de uma alegoria. De forma completamente artística, mas nada críptica, Sea of Solitude desenha um universo em que a maior ameaça parece ser a própria Kay, mas não por ela ser a vilã, e sim por pensamentos ruins e decisões equivocadas que machucaram não apenas a ela, mas também a quem estava em volta. Ainda assim, há um lampejo de esperança, enquanto as gaivotas colecionáveis continuam a indicar uma rota e as mensagens na garrafa parecem indicar que ainda existe alguma lucidez.

Ao apresentar elementos claros que representam fantasmas pessoais ou a depressão, o título da linha EA Originals faz um necessário trabalho. Ao mesmo tempo em que estamos jogando a jornada da própria Geppert, que conta ter começado a desenhar os conceitos de Sea of Solitude em 2013, durante um período de extrema tristeza e devastação pessoal, estamos diante de ideias e situações com as quais todos podem se relacionar. É uma pena que todo esse material não está disponível em português brasileiro, pois o título não fala nosso idioma.

Sea of Solitude nos leva por uma aventura entre memórias, locais conhecidos e o lide com o próprio passado (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O título é de aventura e, como tal, estamos em pleno controle de Kay e suas habilidades. Podemos trafegar de forma livre pelo mundo, mesmo que restritos a certos espaços da cidade, enquanto tomamos cuidado para não virarmos almoço de monstro e tentamos seguir em frente. Entretanto, fica difícil não afastar a sensação de que, de elemento ativo e, principalmente, protagonista dessa história, somos meros passageiros enquanto tentamos, muitas vezes sem muito sucesso, alterar questões que já ficaram no passado. E aí, infelizmente, o dano já está feito.

Aqui, há de se levar em conta o cuidado expressado pelos desenvolvedores. Mesmo lidando com as próprias responsabilidades o tempo todo, Sea of Solitude não assume um tom acusatório contra Kay e o jogador; sabemos que estamos em busca de redenção, mas não pela mudança do passado. O que já foi, já foi, e agora cabe a nós apenas seguir em frente, fazendo o melhor com aquilo que temos em mãos. Como dito, o game é sobre saúde mental e conflito, mas ao contrário de muitos que também abordam esse tema, e mesmo com tanta sombra e devastação, não é daqueles que vai te deixar para baixo.

Tentando sempre

Essa ideia de que o ideal é seguir adiante aparece em uma jogabilidade que até traz seus ares de mundo aberto, mas é bastante simples ao indicar ao jogador o caminho a seguir. Na maioria do tempo, estaremos atrás de sinais luminosos ou elementos presentes à distância, mas cabe a cada jogador chegar lá da maneira que preferir.

As metáforas simples de Sea of Solitude compõem um belo discurso sobre saúde mental, bullying e muito mais (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O monstro está à espreita e a água é um abismo perigoso, da qual temos que sair rápido. Da mesma forma, a morte nos joga de volta no exato ponto onde falhamos, para que possamos tentar de novo e pensar em maneiras diferentes de abordar o mesmo problema. Colecionáveis como as garrafas contam a história, enquanto as gaivotas auxiliam no senso de direcionamento, levando o jogador a desejar observar os belos cenários por mais algum tempo, em vez de apenas caminhar de um objetivo a outro.

O principal problema de Sea of Solitude, entretanto, está em uma de suas alegorias centrais: o sinalizador. Com uma mecânica pesada e pouco intuitiva, que exige pressionamento longos dos botões superiores do controle, o game acaba nos colocando em enrascadas quando o poder não é ativado de maneira ágil o suficiente ou, então, não parece se comportar como deveria.

Tal questão é principalmente real nos momentos em que devemos livrar pontos luminosos do domínio da escuridão. O indicador que aparece na tela não corresponde à ação que precisa ser feita, e cabe ao jogador descobrir sozinho porque a magia não está funcionando. Uma vez entendida a mecânica, o jogador passará o restante do jogo observando uma indicação que está simplesmente errada e que, por mais que não atrapalhe, surge como o reflexo mais flagrante da falta de acabamento do jogo.

Mundo de Sea of Solitude está inundado, mas o jogador tem suas maneiras de seguir em frente (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Para um jogo que investe na fuga de um monstro, também não é nada legal perceber que a criatura nem sempre se afasta como deveria, mantendo um movimento claramente errático que a traz sempre para perto do jogador, impedindo o avanço e o obrigando a fazer backtracking para que o bicho se afaste. Mecânicas que funcionam em um momento parecem ser inúteis em outros, mas contra os mesmos oponentes, mais uma vez mostrando uma falta de inspiração.

Sea of Solitude é curto, podendo ser finalizado em menos de três horas, mas soa esquisito como ele consegue ser repetitivo em diversas etapas. O equivalente a batalhas contra os chefes do game, por exemplo, se resume a realizarmos as mesmas tarefas diversas vezes em sequência, com pouca mudança e nenhum incremento do desafio entre tais etapas, esvaziando um momento que teria tudo para ser profundo ou extasiante e o transformando em uma atitude meramente mecânica, que precisa ser realizada apenas para que as coisas avancem.

Apesar da jogabilidade descuidada, Sea of Solitude tem sim seus momentos bonitos e, arrisco dizer, até mesmo brilhantes. Um dos principais destaques aparece logo no começo, na relação entre Kay e seu irmão, com mecânicas sutis ligadas ao gameplay e uma beleza de cenários que até compensa os momentos seguintes, na escola, onde os controles não funcionam como deveriam e a experiência é menos assustadora e mais irritante.

Sea of Solitude faz parte da linha EA Originals, com títulos interessantes, mas independentes, distribuídos pela grande Electronic Arts (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Usando metáforas simples e belas alegorias, mas que deixam pouco de críptico ou interpretativo, Sea of Solitude é sobre relações familiares, bullying, responsabilidade e a busca por redenção. Como um tema palpável a todo mundo, a saúde mental precisa ser desmistificada e, nesse ensejo, o título carrega todos os méritos ao trazer isso de forma amigável e bela aos consoles de mesa e PC, mesmo não tendo uma jogabilidade das mais agradáveis.

Há um claro desequilíbrio entre um ponto e outro, felizmente com privilégio para aquele que mais importa. Sea of Solitude é uma fábula pessoal, mas também uma história universal, e aí está o maior mérito de mais um sopro de ar fresco proporcionado pela série EA Originals a uma empresa e mercado que, muitas vezes, parece fazer de tudo, menos falar sério.

Sea of Solitude foi testado no PlayStation 4 com cópia gentilmente cedida ao Canaltech pela Electronic Arts.

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