Análise | Ni No Kuni II: The Revenant Kingdom inova e consegue manter essência

Level-5

Com o sucesso que Ni No Kuni: Wrath of the White Witch alcançou em seu ano de lançamento, 2010, não foi exatamente uma surpresa quando a continuação dessa franquia de JRPG foi anunciada. Enquanto o primeiro game da série se consagrou como um dos melhores games da década dentro de seu gênero por contar com o auxílio do Studio Ghibli (responsável por A Viagem de Chihiro e Castelo Animado, dentre outras animações japonesas consagradas) no roteiro e na animação; trazendo uma narrativa mais intimista e repleta de temáticas um tanto quanto pesadas, além, é claro, de possuir gráficos traçados com base no estilo das obras de Hayao Miyazaki; o segundo título, Ni No Kuni II: Revenant Kingdom, por sua vez, apresenta uma reversão de tudo o que o primeiro jogo representa e oferece.

A continuação da saga inova a sua própria fórmula e, portanto, consegue manter a essência, por assim dizer, de tudo o que o primeiro game mostrava. Enquanto a trama de Wrath of the White Witch era centralizada em um personagem e sua jornada de superação, em Revenant Kingdom a narrativa passa a focar sua perspectiva no mundo e a forma como ele é regido pelas pessoas que o habitam. É uma aventura literalmente amplificada e que, em se tratando de aspectos mais técnicos, levou em conta todo o feedback do jogo original, oferecendo novas e interessantes ideias.

O reino fantasma

Na trama, dois personagens estão em destaque desde o princípio: Evan Pettiwhisker Tildrum, um humano meio gato – ou um Grimalkin – que também é herdeiro da mística cidade de Ding Dong Dell (e provavelmente descendente do rei Tom Tildrum, de Wrath of the White Witch); e Roland, o presidente de um país do mundo real que é transportado para um universo diferente logo após ver sua nação ser atacada por uma bomba atômica.

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Da esquerda para a direita: Evan, Roland e Tani (Imagem: Level-5)

Roland não é o único que perde seu local de governar, pois, quando ele conhece Evan no mundo alternativo, ele descobre junto ao garoto que um golpe de Estado está sendo providenciado pelo conselheiro do reino, Mausinger. Este, por sua vez, já vinha planejando há algum tempo não apenas usurpar o direito ao trono, mas também tomar para si a kingmarker que seria de Evan caso o menino tivesse passado pela cerimônia de coroamento.

Forçado a abandonar Ding Dong Dell após perder pessoas importantes para si, Evan se vê forçado a encontrar outra kingmarker (uma criatura mística que precisa ser conquistada e se torna a marca registrada do reino e, por tabela, de seu governante), pois só assim poderá reclamar seu trono. Já Roland, por motivos até então misteriosos, decide ficar e ajudar o garoto, afinal sua experiência como governante poderia ser de grande valia nesta aventura.

Vale lembrar que a história de Revenant Kingdom se passa muito tempo após Wrath of the White Witch e, portanto, poucas conexões são feitas com o primeiro game. E, como já comentado anteriormente, as narrativas se diferenciam bastante na maneira como são contadas – até porque, a Level-5 não pode contar com o auxílio do Studio Ghibli no desenvolvimento desta continuação, infelizmente. Desta forma, enquanto no título original o foco era as jornadas pessoais de Oliver e seus amigos, aqui a ideia é que o mundo esteja em evidência e, após Evan abandonar forçadamente a sua cidade, ele passa a viajar e explorar diferentes localidades a fim de não apenas retomar o que é seu por direito, mas, em especial, construir um mundo justo e feliz para todos os habitantes.

Mausinger era o conselheiro do pai de Evan e o usurpador do reino de Ding Dong Dell (Imagem: Level-5)

Evan é, por sinal, a idealização do perfeito governante, já que ele é ingênuo a princípio, mas extremamente justo e preocupado com seu povo e seus aliados. Já Roland, mesmo com sua nítida experiência, também precisa sobreviver a uma espécie de jornada própria, a qual faz muitos paralelos com a jornada do herói (este detalhe, inclusive, tem levantado muitos debates sobre o fato de ele ser um deuteragonista ou não). Nos capítulos iniciais do game, a dupla ainda recebe o auxílio de outros personagens em sua party, tais como Tani, uma garota que é uma pirata do céu; e Batu, pai da garota e líder de seu povo. Há ainda Lofty, uma fada que apronta poucas e boas e rende momentos divertidos.

Caímos para aprender a levantar

Os personagens de Ni No Kuni II não são muito aprofundados. Este é um dos pontos fracos do título, pois a personalidade de cada um dos protagonistas não é muito bem trabalhada, de modo que o jogador tem impressões bastante rasas a respeito das figuras, ao contrário do que acontecia no primeiro jogo. A dublagem limitada e a dinamicidade da jogatina de Revenant Kingdom, aliadas às cutscenes rápidas, também ajudam a tornar tudo um pouco corrido demais, em especial no início da jornada, já que existem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e isso pode fazer o gamer se sentir um tanto quanto confuso.

Contudo, depois de estabelecidos todos os detalhes e personagens que o jogador precisa conhecer, a narrativa dá uma acalmada, e a escalada do plot principal do game se torna um pouco mais lenta (em um ritmo quase que arrastado em alguns momentos) já que a missão principal do jogo é colocada em prática e, até que se consiga alcançar esse objetivo, leva-se algumas dezenas de horas – tal qual acontece em qualquer bom JRPG que se preze.

Mesmo sem a parceria com o Studio Ghibli, Revenant Kingdom não peca em absolutamente nada no quesito gráfico (Imagem: Level-5)

A missão de Evan é, basicamente, construir um novo reino e, para tal, o garoto precisará de inúmeros aliados. As missões secundárias se tornam, portanto, essenciais para o cumprimento deste objetivo. Por isso, uma das dicas mais valiosas que alguém poderia dar referente a Revenant Kingdom é esta: faça as missões secundárias, em especial as de recrutamento. Isso fará toda a diferença na reta final do game e, embora pareça chato a princípio, essas tarefas acabam proporcionando um tempero diferente e interessante à proposta do game, além de estender a longevidade do gameplay e, claro, enriquecer o universo em que a história se passa.

Caso o jogador já tenha jogado ou apenas ouvido falar de Skies of Arcadia, da SEGA, vai se familiarizar bastante com as mecânicas da construção do futuro reino de Evan, já que, no antigo game de piratas dos céus, era necessário conversar com muitas pessoas em praticamente todas as localidades visitadas a fim de saber se alguma figura estava interessada ou não em fazer parte de sua tripulação. Em alguns casos, era preciso cumprir side quests para recrutar o cidadão e, caso o gamer conseguisse todos os membros do navio, era muito bem recompensado com um ataque especial poderosíssimo que envolvia todo os piratas a bordo. Em Revenant Kingdom funciona mais ou menos assim também.

Diferentes e apimentadas mecânicas

No segundo título da série Ni No Kuni, pode-se dizer que existem duas ou três mecânicas diferentes ao longo do game – ou melhor dizendo: um flerte com diferentes jogabilidades. Para exemplificar melhor, leve em conta quatro tipos de cenários que serão bastante visitados ao longo da experiência: as dungeons, o mapa aberto, os campos de batalha e o reino de Evermore, onde Evan irá governar.

Os Higgledies irão ajudá-los com diferentes habilidades, sejam elas magias de cura ou de ataque (Imagem: Level-5)

Nas dungeons, o jogador controla um dos personagens livremente (pode-se trocar e colocar qualquer um dos amigos de Evan como líder, guiando os demais) enquanto desvenda o mapa e enfrenta inimigos em tempo real, em um sistema de batalha muito mais dinâmico e empolgante do que o de Wrath of the White Witch – graças aos céus. Um dos feedbacks que foram levados em conta para Revenant Kingdom foi justamente as mecânicas de combate; no game original, as lutas eram extremamente táticas, mais ou menos por turnos, e através do uso de Familiars, as criaturas que eram recrutadas e que lutavam pelos protagonistas (para ilustrar melhor, era mais ou menos como acontece em Pokémon).

No segundo título, tudo acontece em tempo real, inclusive a transição para uma batalha quando se está dentro de alguma dungeon. Durante a luta, porém, o jogador controla apenas um dos protagonistas pelo campo delimitado para o combate, e pode-se atacar com golpes fracos, fortes, desviar rolando para os lados, executar alguma investida a distância (depende de qual tipo de arma de longo alcance está equipada), ou ainda utilizar alguma combinação Zing, um novo sistema de habilidades que podem ser modificadas e que evoluem conforme a arma que está sendo usada. Estes ataques especiais podem ser usados quando o equipamento alcança 100% e há uma enorme variação para ser testada.

As lutas mais ativas deste título dão um gosto a mais pela jogatina, pois é bastante divertido e prazeroso entrar em batalhas graças a dinamicidade e praticidade das mecânicas. Além disso, substituindo os Familiars de Wrath of the White King estão os Higgledies. Essas pequenas criaturas, porém, já não são o foco dos combates, mas ainda agem como ajudantes, auxiliando o jogador com habilidades únicas. Para recrutá-los, basta achar as estátuas espalhadas pelo mundo de Evermore e prestar a oferenda requerida.

Quando em mundo aberto, os gráficos se tornam totalmente 3D e os personagens assumem uma característica SD, ou chibi (Imagem: Level-5)

Em contrapartida, quando se está no mapa, isto é, no mundo aberto, os personagens assumem novamente um aspecto superestilizado (SD, ou chibi, se preferir) e ficam muito mais lentos, o que torna praticamente impossível fugir de batalhas. Nesse cenário, é importante levar em conta dois detalhes: a notável diferença de gráficos, muito mais voltados para o 3D – ao contrário das dungeons, em que tudo parece um lindo desenho animado rodando em tempo real –; e a transição (ou trinca de tela) quando se entra em combate, o que pode trazer uma pitada de nostalgia aos amantes de JRPGs antigos ou apenas irritar quem já se acostumou com o ritmo dinâmico das dungeons.

Por fim, existem os Skirmish, um outro sistema de batalha pelo qual é preciso sobreviver caso o jogador queira defender suas terras de forças inimigas, ou ainda conquistar novos territórios. A tarefa de enfrentar um Skirmish não é fácil, mas, com o tempo, o jogador aprende a lidar (e se divertir) com a jogabilidade, que na verdade é muito simples: Evan será o líder desses embates, e é através dele que seus aliados, ordenados em diferentes grupos estrategicamente localizados, serão comandados ao longo da luta. Uma seta azul vai indicando qual das tropas é mais efetiva para lidar com as hordas do oponente, e, para quem já está familiarizado com o gênero musou (ou games como Dynasty Warriors, Samurai Warriors, Hyrule Warriors, dentre outros), vai se adaptar facilmente aos Skirmish.

Quando o jogador estiver em Evermore, por sua vez, será preciso gerenciar o seu reino, de maneira que ele se expanda e prospere. Será necessário construir estabelecimentos variados, designar cidadãos e pedir a eles que estudem e desenvolvam novas técnicas e tecnologias que podem ser implementadas no reinado... É quase como um Sim City, mas muito mais tranquilo e fácil de manejar. Inclusive, aqui vai outra dica valiosa: não jogue fora nenhum dos itens que os inimigos deixam após as batalhas. Sim, eles dropam inúmeros itens, e tentar organizá-los no inventário pode ser um verdadeiro inferno. Contudo, eles podem ser necessários para incontáveis fins e deve-se evitar desperdiçá-los.

Um título notável de JRPG

Ni No Kuni II: Revenant Kingdom é um game essencial para o PlayStation 4, ainda mais se o jogador for um fã de JRPG. O game entrega tudo o que um entusiasta do gênero poderia pedir, apesar de que poderia ter sido melhor em um ou outro aspecto, como comentado anteriormente nesta análise. Entretanto, considerando a proposta dessa continuação, onde o mundo de Evermore está nos holofotes e não os protagonistas, o título se sai muito bem a seu próprio modo, entregando diferentes mecânicas e bastante diversão, além de gráficos exuberantes que exaltam a capacidade do console, já que boa parte do jogo roda em tempo real.

A palavra-chave para os curiosos de plantão é: não é preciso saber nada do primeiro game da série, Ni No Kuni: Wrath of the White Witch. E mesmo para quem já experimentou, ou até mesmo finalizou o título original, não existem muitas ligações, exceto pelo mundo em si. As comparações, porém, são inevitáveis (apesar de não recomendadas). Ainda assim, esta continuação entrega o que promete e ainda um pouco mais.

Claro que, nem tudo é perfeito, e alguns bugs foram notados aqui e ali, em especial nos menus. Mas nenhum desses erros foi perturbador ao ponto de despertar vontade de jogar o joystick pela janela ou algo do gênero.

O game já está disponível para PlayStation 4 e PC, mas, infelizmente, não conta com legendas em português. Aos fãs mais puristas, existe ainda a opção de dublagem em japonês (muito embora a dublagem em inglês esteja excelente). Até o momento, existe apenas um passe de temporada disponível, o qual garantirá acesso a dois grandes conteúdos de história em breve, além de um kit com alguns itens especiais.

Ni No Kuni II: Revenant Kingdom está disponível para PlayStation 4 PC. No Canaltech, o jogo  foi analisado no PlayStation 4 em cópia digital cedida gentilmente pela Bandai Namco.

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