Análise | Hitman III é o ápice da série do Agente 47

Análise | Hitman III é o ápice da série do Agente 47

Por Wagner Wakka | 20 de Janeiro de 2021 às 12h00
Wagner Wakka/Canaltech

Para falar de Hitman III é preciso voltar no tempo, especificamente para 2016. A IO Interactive lançava, Hitman I, o game que dava início à trilogia do Agente 47 e que se encerra agora, no jogo tema desta análise.

A proposta, na época, era entregar uma experiência episódica, lançando não um game completo de uma só vez, mas uma nova fase de tempos em tempos. Era o modelo de negócio que a Square Enix experimentava naquele momento. Não deu certo.

Hitman de 2016 foi grande fracasso de vendas, embora trouxesse um frescor interessante para mesa em termos de jogabilidade. O tombo foi tão grande que a Square Enix encerrou a parceria com a IO Interactive em 2017 e permitiu que o estúdio levasse a franquia com eles. Naquela época, havia uma preocupação de que os jogos da série pudessem morrer. A IO, por outro lado, queria levar seu projeto até o final. No ano seguinte, lançou Hitman II, dando continuidade à história e adicionando pouca estrutura nova à gameplay. O último episódio da saga do Agente 47 chega agora em 2021, com Hitman III.

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Todo este preâmbulo é importante para mostrar que, na verdade, os três títulos são um jogo só, e a IO Interactive faz pouco esforço para esconder isso. Hitman III chega incluindo os outros dois capítulos da saga no seu menu, além de todos os modos extras lançados até então.

Entender os três jogos como a divisão de um mesmo título facilita entender como Hitman III chega tão bem lapidado para ser essa joia muito bem acabada.

Do que se trata? 

Hitman III conta o desfecho da história do Agente 47, um misterioso assassino contratado para matar alvos específicos do modo mais limpo possível. O personagem tem forte inspiração em 007, desde o codinome numérico, ao estilo tranquilo de agir.

Agente 47 também tem sua própria equipe: seu parceiro nas missões Lucas Grey (antes apresentado como uma espécie de vilão) e Diana Burnwood, seu o contato técnico que auxilia nas missões pelo rádio.

Quem já jogou os dois outros títulos de série Hitman pode pensar que esta descrição dos personagens deixa muita coisa de fora, mas o objetivo aqui é evitar eventuais spoilers. O ponto importante para a narrativa de Hitman III é que o Agente 47 e Grey são traídos pela própria International Contract Agency (ICA), para qual o nosso protagonista trabalhava.

Daqui, o jogador parte para uma trama em busca de limpar o próprio nome e tentar sobreviver contra a empreitada de seus próprios pares. Um dos pontos de destaque da série Hitman está na proposta de gameplay. É possível dizer que o título é um verdadeiro exemplo do gênero sandbox (em inglês, palavra que quer dizer caixa de areia, daquelas de parquinhos infantis).

Jogo tem uma ambientação muito bonita (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Ele solta o jogador em um mapa amplo e cheio de possibilidades, mas que não chega a ser um mundo aberto propriamente dito. A diferença dele para a geografia de Grande Theft Auto 6, por exemplo, é que cada canto serve para um objetivo específico para uma missão.

Tentemos ilustrar esta ideia com um exemplo real. Hitman III se inicia com uma invasão ao The Sceptre, uma cópia fictícia do Burj Khalifa, o maior prédio do mundo que fica no centro do deserto.

O jogador entra neste prédio cheio de proteção de paraquedas, por uma janela, com o objetivo de eliminar dois executivos que terão reuniões no local. Dentro do Spectre, o jogador fica livre para poder executar a sua missão da forma que quiser, diante das dezenas de possibilidades.

São várias possibilidades mesmo. Por exemplo, é possível invadir o sistema automatizado de reuniões do prédio e marcar um encontro com a vítima próximo a uma janela para empurrá-la de lá. Ou o jogador pode envenenar uma bebida que será servida a ambos alvos. Ainda, é possível subir no melhor estilo Rambo, descendo a bala em todo mundo sem nenhuma intenção de se esconder. O jogador escolhe.

História se inicia em invasão ao The Spectre (Foto: Wganer Wakka/Canaltech)

A parte interessante é que Hitman é meio e não fim. Ou seja, de partida, você sabe o início e o desfecho de sua missão, só precisa encontrar uma forma de realizá-la.

Cada fase tem as chamadas Mission Stories, que nada mais são do que sugestões de como resolver as missões. Na verdade, o jogo descreve como “oportunidades” que o Agente 47 pode aproveitar para assassinar suas vítimas.

Elas são desbloqueadas quando o jogador coleta uma informação pelo mapa. Por exemplo, quando ouve a secretária do executivo falando ao telefone que haverá uma reunião em determinado horário, oferecendo uma janela para eliminação. Com isso, o próprio jogo mostra os caminhos para resolver o assassinato com a maior eficácia possível.

Jogo oferece oportunidades de eliminar inimigos (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Tá, mas isso é bem feito? 

Estamos falando de um jogo que nasceu em 2016 e se encerra agora. Ou seja, tem pelo menos quatro anos de refinamento na jogabilidade. A série Hitman foi construída no motor gráfico Glacier, uma engine interna da IO Interactive centrada em ambientes com bastantes personagens com suas próprias rotinas.

Em vídeo de desenvolvimento do game, a empresa explica que a Glacier foi feita para suportar até 300 NPCs (ou seja, personagens não jogáveis) em um mesmo mapa. Isso mantendo a taxa de quadros a 60 fps, com resolução até 4K.

De fato, o Canaltech testou o título em PC, com todas as configurações no máximo em Full HD. Hitman III permite somente taxa de quadros em 60 fps ou 30 fps, exatamente pela limitação de personagens em tela.

Não foi possível dizer que havia um cenário com realmente 300 personagens, mas em uma fase específica em Berlim, é preciso entrar em uma boate lotada na qual está rolando uma balada. Aqui, peço licença para um relato mais pessoal.

Não me recordo de ver um cenário tão cheio em nenhum outro game como nesta festa da missão de Berlim. Os games geralmente são péssimos em mostrar ambientes do tipo exatamente por não conseguir preencher o local como em uma balada real. No caso de Hitman III, é impressionante o número de NPCs na pista de dança, seguranças, equipe técnica e do bar, executivos e DJs. O jogo consegue segurar esta quantidade de informação cravado em 60 fps (ao menos nos testes no PC).

Ambiente da balada é ponto alto do jogo com centenas de NPCs (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

A densidade de personagens é importante para grande parte dos games, mas é quase essencial na série Hitman. Isso porque um dos recursos centrais de gameplay é o disfarce. O jogador precisa derrubar personagens (sem que outros NPCs percebam), esconder o corpo e roubar as vestimentas para passar sem ser percebido por seguranças ou equipe.

Para que isso seja realmente interessante, é preciso que haja várias e várias oportunidades de disfarce. Com uma engine que permite até 300 personagens diferentes em uma fase, não é preciso nem dizer que o recurso é muito bem executado em Hitman III.

Junte a isso toda sorte de objetos que se pode usar como arma. Pelo ambiente, é possível pegar facas, porretes, canos, qualquer coisa que se poderia atacar alguém. Um dos itens mais curiosos é o fone de ouvido que o Agente 47 leva no bolso, mas que, na verdade, é uma corda para enforcar os inimigos.

Jogo permite várias formas de lidar com a mesma missão (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Além disso, todos os mapas oferecem possibilidades de distrações. Por exemplo, ao entrar em uma cozinha para colocar veneno na comida, o jogador pode desligar o fogão, o que chama atenção do cozinho e abre espaço para envenenar no prato. Na fase da balada, é possível desligar um disjuntor, que apaga parte das luzes e atrai um técnico, com roupas que podem servir de disfarce.

Excelência técnica

Como já dito nesta análise, o Hitman III é um game extremamente bem polido. O Canaltech não observou nenhum bug importante, comum em títulos em janela de lançamento. Pelo contrário, a IO Interactive mostra que soube aproveitar bem dos recursos que chegam para as próximas gerações.

Um dos pontos de destaque aqui está para o tempo de carregamento bastante baixo, principalmente ao usar um SSD para instalar o jogo (o que deve acontecer também no PlayStation 5 e Xbox Series X|S).

Jogador pode resolver a missão de diferentes modos, incluindo chegar já no tiro (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Este é um recurso bastante importante para Hitman, pois estamos falando de uma série cuja jogabilidade se baseia em tentativa e erro. É comum que os jogadores criem um ponto de salvamento antes de experimentar um movimento ousado, uma investida em um inimigo ou mesmo na hora de matar os alvos da missão.

Dentro desta dinâmica, Hitman III é bastante veloz em carregar novamente a fase após a morte o Agente 47 ou quando volta em um ponto salvo. Em cerca de 10 segundos, o jogador já está de volta onde salvou, pronto para tentar uma nova empreitada ou experimentar um jeito diferente de superar o mesmo desafio.

Alguma novidade? 

O leitor mais atento pode ter percebido que todo o texto foi baseado em jogabilidade e recursos que estão em toda série Hitman. Isso quer dizer que o último game da trilogia não traz nada de novo para a mesa? Mais ou menos.

Hitman III oferece um novo gadget, uma máquina fotográfica que traz dois recursos para a a série. O primeiro é que ele funciona como um escâner e pode ser usado para coletar informações ou abrir portas eletrônicas pelas fases. Ao apontar o dispositivo para diferentes pontos, é possível que o jogador tenha acesso a uma informação importante para a missão.

Câmera é feita para escanear objetos (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Contudo, esta nova ferramenta também adiciona um modo foto para o game. Como a ambientação de Hitman III é extremamente bonita e bem-feita, a oportunidade de sair por aí fotografando os mapas é um ponto positivo do jogo.

Além do novo recurso, o jogo também adiciona uma série de pequenas ferramentas de melhoria de vida. Por exemplo, agora é possível reiniciar uma fase em diferentes pontos do mapa. A possibilidade é bem-vinda, já que uma das propostas de Hitman III é que se rejogue várias vezes uma mesma missão explorando diferentes possibilidades de execução das vítimas.

Por fim, o título também traz a opção de usar realidade virtual. O Canaltech, infelizmente, não teve a oportunidade de experimentar este modo. Contudo, ele permite atuar em primeira pessoa e adapta jogabilidade para utilização de headset na imersão digital.

Em se tratando de um jogo, cuja proposta é ter uma ambientação bastante imersiva, é possível que a realidade virtual de Hitman III seja impressionante. Contudo, novamente, o Canaltech não experimentou a tecnologia para pode indicar ou não.

Vale a pena? 

Hitman III é o ápice do que a série já propôs em suas duas outras entradas. Para quem já jogou os primeiros games, este novo título pode trazer mais do mesmo, em uma experiência bem polida. Os ambientes são impressionantes, com história cativante e jogabilidade sem falhas.

A IO Intercative mostra que entendeu bem como fazer um título de investigação, espionagem e assassinato com perfeição, em cima de uma engine extremamente capaz de dar conta do recado.

Contudo, ainda é aquele jogo de 2016 e, se você não achou que foi uma boa experiência lá atrás, não há nada de muito novo que possa mudar a sua ideia sobre isso. A gameplay é basicamente a mesma, com pouquíssimas mudanças.

Já para quem é fã de um bom filme de 007, certamente esta é uma série que pode agradar e bastante. As semelhanças com James Bond são tamanhas que a IO Interactive foi contratada para desenvolver o novo jogo do agente mais famoso dos cinemas.

Hitman III foi desenvolvido pela IO Interactive e lançado em 20 de janeiro de 2021 para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series S|X, PC, Google Stadia e Nintendo Switch.

Esta análise foi realizada com uma cópia de PC cedida pelos desenvolvedores.

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