Análise | Gato Roboto: “Miautroidvania” em seu melhor formato

Por Rafael Arbulu | 30 de Maio de 2019 às 11h00
Imagem: Divulgação/Devolver Digital

A Devolver Digital conseguiu. De novo. A essa altura, parece até que estou puxando o saco da publisher que vem se tornando renomada por suas produções de estúdios independentes, mas juro que estou me esforçando ao máximo para encontrar motivos que me levem a criticar os jogos da empresa.

Mais uma vez, falhei: Gato Roboto, disponível na Steam e no Nintendo Switch, é uma produção da empresa junto dos estúdios doinksoft que vai agradar muito os fãs mais entusiasmados com o “metroidvania”, subgênero conhecido por trazer mapas extensos e interconectados em progressão lateral, aliados à exploração e busca de itens e alto teor de diálogo.

O jogo posiciona você na pele da gata Kiki, uma intrépida heroína que deve resgatar seu dono de uma nave espacial caída. Para isso, a notável felina deverá encontrar e vestir armaduras de combate enquanto atravessa mapas incrivelmente extensos, coletando itens e modificações de combate que lhe permitem atravessar áreas antes intransponíveis. E tudo isso sendo incrivelmente fofa mesmo em um visual pixelizado e preto e branco.

Não se deixe enganar pelo aspecto simplista dos gráficos: Gato Roboto é um jogo bastante complexo, com curvas de aprendizado baseadas na tentativa e erro, onde tudo é uma ferramenta de progressão e, mesmo que você descubra a forma correta de lutar contra os chefões de cada cenário, o jogo não se torna nada mais fácil.

Em um caráter um pouco mais expansivo que os side scrollers comuns, Gato Roboto permite a navegação por todas as direções da tela, o que se faz absolutamente necessário: tal qual um RPG moderno, você vai se ver indo e voltando pelas mesmas áreas várias vezes, portando itens diferentes que vão auxiliar a sua progressão. Encontrou uma parede de tijolos que a sua pistolinha não derruba? Volte depois com um lança-foguetes. Um enorme fosso de lava está entre você e seu objetivo? O mesmo lança-foguetes, disparado para baixo, funciona como um “empurrãozinho” a mais para você saltar mais longe.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

O título passa a impressão de ser um pouquinho mais simples no joystick — inclusive a própria descrição do jogo na Steam é bem enfática: o uso do acessório é recomendado. Pois bem: testei com ambos e orgulho-me em dizer que... sofri pacas. Por mais fácil que uma travessia pareça, é muito comum você se ver rodeado por inimigos alienígenas que possuem movimentos surpreendentes à primeira vista e, para se defender, a movimentação constante e apertar vários botões de forma estratégica são duas necessidades, ao mesmo tempo, incontestáveis e chatinhas de se aprender.

Mas a graça dos controles está justamente nisso: Gato Roboto é o tipo de jogo em que você decora o método exato de progressão de uma tela, apenas para que o gameplay vire o jogo de ponta-cabeça na próxima. Esse tipo de desafio mantém o jogador sempre alerta, impedindo que ele tente “dar uma de Rambo” e sair correndo e atirando a esmo. Um passo em falso e você dança, mesmo com bastante energia no tanque.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

Já os chefões apresentam mais do mesmo, mas com um grau de elegância derivado da comédia nos diálogos: Kiki apenas mia, enquanto os inimigos (e seu humano preso) constantemente interagem de forma irreverente — destaque para uma fornalha gigante viva que cospe bolas de fogo e pilares de lava. Em meio a tantas investidas contra a heroína felina, ele encontra espaço para abrir o combate com as melhores falas “iti malia” comumente encontradas no Facebook.

Gato Roboto também conta com uma trilha sonora 8-bit, nos remetendo às épocas de ouro dos videogames retrô, com sons em arquivo MIDI que, posicionados juntos, compõem um pano de fundo musical que serve para ambientar de forma leve o jogador. Não há suspense, a ideia não é gerar terror: as faixas têm uma pegada mais upbeat, animada. Isso, misturado aos efeitos sonoros de ambiente (bombas explodindo, foguetes lançados etc.), trazem uma experiência que complementa muito bem o visual.

Falar que a Devolver Digital e os estúdios que desenvolvem seus jogos publicados estão sempre acertando a mão é chover no molhado a essa altura. Gato Roboto consegue aprimorar-se em pontos onde Katana Zero, Ape Out e The Messenger erraram mesmo sendo obras-primas: temos aqui um jogo feito no tamanho certo e que mantém um ótimo ritmo por toda a experiência, não é exageradamente difícil de se aprender, mas mantém você ligado mesmo quando você já tem “a manha”, e não é simplista a ponto de usar apenas um ou dois recursos.

Gato Roboto é o casamento perfeito de todas as experiências possíveis em todo o espectro: sonoro, visual e jogabilidade. Traz um grau bem exato de imersão e permite que você se divirta por cinco minutos ou um dia inteiro, em igual medida. Definitivamente, ele vale a aquisição. Arrisco ainda dizer que, se uma sequência com jogabilidade canina aparecer, eu já quero fazer a pré-venda. Vai dizer que você não ia curtir um "Doge Roboto"?

Gato Roboto está disponível para Nintendo Switch e PC (Steam). No Canaltech, o jogo foi analisado com cópia gentilmente cedida pela Devolver Digital.

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