Análise | Ape Out é a síntese do “macacos me mordam” — e eles mordem bem

Por Rafael Arbulu | 28 de Março de 2019 às 18h59
(Imagem: Divulgação/DevolverDigital)

Imagine se Donkey Kong fizesse valer o fato de que ele é, veja você, um gorila, tem a força de cinco homens e, de repente, acordasse enjaulado e full pistola da vida? Uma ideia dessas deve ter sido a inspiração da Devolver Digital ao criar Ape Out, que já está disponível para download nos PCs e Nintendo Switch. Este é um jogo fácil de se compreender e viciante, trazendo uma jogabilidade em visão aérea que remete a Hotline Miami, mas do ponto de vista de um primata “ligeiramente” incomodado.

A premissa é simples: você, na pele do titular gorila, está preso em uma jaula. Evidentemente, você quer sair. Então, com a força que você tem e o fato de que sua prisão é feita de vidro, simplesmente... sai. Quebrando tudo e causando enorme destruição dentro do que parece ser um laboratório de testes em animais. É a vingança dos veganos, embalada em formato de videogame — e não tem como não gostar.

A jogabilidade é incrivelmente simples. Com o mouse, você direciona o olhar do animal e para onde ele vai se locomover; a clássica combinação “WASD” do teclado movimenta o símio protagonista e um clique na tela lança o único ataque possível, uma espécie de “rush”, onde o gorila corre e salta violentamente em direção a inimigos armados com espingardas, escopetas e, em certos pontos, até um lança-granadas. Em vão, ao perceberem que um gorila precisa de mais do que uns tirinhos para tombar, eles são arremessados com força contra paredes, cantos e outras jaulas, deixando apenas baldes e mais baldes de sangue. É possível também agarrar certos inimigos e usá-los como escudo humano, enquanto dispara contra seus oponentes.

Basicamente: corra até a saída, quebre tudo o que estiver no seu caminho, mate quem tentar impedi-lo. É uma mecânica simples, não estamos falando de um Final Fantasy aqui, mas o interessante é que a dificuldade apresentada até mesmo nos primeiros níveis requer um mínimo de estratégia para progredir: eu mesmo, durante meu teste com a versão para PC, demorei um pouquinho até perceber que poderia tirar proveito de um ou dois padrões (seguir um certo caminho em uma certa seção para encontrar menos guardas armados, por exemplo).

Faça isso por quatro níveis e um epílogo extra. É isso. O jogo não é longo, evidentemente, nem tem a menção de sê-lo. Ape Out pode ser completado em uma tarde, a partir do momento em que você se vê imerso dentro do estilo artístico do jogo e aprende a navegar de forma fluída e veloz.

Os controles com o mouse em si é que poderiam ser melhor trabalhados: enquanto as teclas WASD fazem com que o primata caminhe, apontar o mouse em uma direção e clicar nela fará com que ele salte ou ataque. Quando você quer acelerar a travessia do mapa, o clique do mouse é mais indicado, até porque você não precisa derrubar ninguém para progredir. O problema é que, clicar numa parte escura do mapa (como uma parede ou pilastra, vistos de cima), não é reconhecido pelo jogo como um comando, deixando o personagem parado e, em um game tão frenético, fatalmente você leva um tiro ou dois (três tiros, você está fora).

Mais além, não há muita variedade nos mapas em si: a progressão é feita semioticamente (da esquerda para a direita) e os ambientes seguem os mesmos padrões — áreas expandidas com guardas patrulhando corredores, interligados por “gargalos” que sinalizam uma nova seção a ser acessada.

O grosso do jogo é compreendido via tentativa e erro: você vai morrer muitas vezes até pegar o layout de um mapa, identificar os pontos mais problemáticos, com mais guardas etc., e aprender a progredir devidamente. Há momentos em que o combate é inevitável, enquanto em outros fugir dele é quase imprescindível.

O estilo visual é simples, porém chamativo: um vibrante laranja colore o nosso protagonista gorilesco, ao passo que cientistas e guardas estão de branco. Tons levemente azulados mostram estruturas destrutíveis e o restante é um preto que engole a maior parte da tela, simbolizando colunas e paredes. Manchas de sangue, também em branco (oponentes) ou laranja (protagonista) são representadas adequadamente, passando, visualmente, a consistência exata do líquido, além de servirem de indicação para o quanto você está ferido (pingando sangue sem parar = você está nas últimas).

Ape Out tem todos os elementos que desagradam os gamers mais exigentes, mas a sua capacidade viciante de progressão e jogabilidade certamente farão com que sua simplicidade seja ignorada em prol de uma dificuldade de curva crescente e aberta, e um desafio enorme a ser superado. Depois de The Messenger, a Devolver conseguiu entregar um serviço ainda mais simples, mas igualmente divertido.

Ape Out está disponível para PC (Steam) e Nintendo Switch. No Canaltech, o jogo foi analisado no PC com cópia gentilmente cedida pela Devolver Digital.

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