Análise | FIFA 20 corrige problemas e mostra por que é o melhor jogo de futebol

Por Felipe Ribeiro | 08 de Outubro de 2019 às 14h15

Confesso a vocês que sou um cara do diálogo. Muito embora defenda minhas ideias e ideais com muita paciência e serenidade, mesmo quando estou certo de que venceria um debate, procuro não tripudiar sobre ninguém. Um aprende com o outro e assim seguimos, apesar de que a polarização é algo quase que natural na história humana. Porém, mesmo tomando um banho de imparcialidade e me esforçando para enxergar o que há de positivo no outro lado, em certos momentos, fica muito, mas muito complicado. É o que acontece na polarização mais latente no mundo dos games: FIFA x PES (Pro Evolution Soccer).

Tá, a análise é do FIFA 20 e há muito o que falar sobre este game, mas tal qual em outros segmentos (para não dizer todos), uma concorrência sadia faz com que os produtos e serviços possam ser melhores e quem ganha com isso, claro, é o consumidor. Mas, quando falamos dos jogos de futebol da atualidade, chega a ser injusto comparar FIFA e PES. O game da Eletronic Arts preza pelo realismo e jogabilidade ultrafiel ao esporte bretão. Já com PES, que outrora reinou absoluto, há mais de uma década não apresenta um produto capaz de concorrer com seu rival, mantendo uma fórmula para lá de simples e quase que estagnada, mesmo com mudanças de engine. Resultado: ficamos a mercê da EA e de um jogo que reina e dita as regras sozinho.

O efeito colateral de tudo isso foi FIFA 19, que, mesmo muito melhor que seu concorrente, era cheio de defeitos e de coisas irritantes que, por vezes, me fizeram ficar longe do game por semanas. Mas neste ano a EA parece mostrar que aprendeu a lição e fez de FIFA 20 um jogo completo, com as correções e manutenções necessárias, deixando claro o abismo que há entre ele e o jogo da Konami.

Olha quem "VOLTA"

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

A principal novidade em FIFA 20 foi o retorno do modo de jogo com futebol de rua, que nos remete ao extinto Fifa Street. Em VOLTA Football, a EA resgata uma fórmula que tem como claro propósito trazer aquele jogador mais casual para sua franquia de futebol. Não é para todos, é verdade, mas a tentativa é muiito válida.

Neste modo, além das partidas casuais 3x3 sem goleiro, 4x4 sem goleiro, 4x4 com goleiro e 5x5 com regras de futsal, temos à disposição todo um enredo que nos introduz ao estilo VOLTA. Por aqui, a grande sacada da EA foi de apresentar não apenas o modo novo em seu jogo, mas também como é a vida de um jogador de futebol de rua, ou "freestyle". Há mercado para isso — muito forte, por sinal — e um claro potencial para ser explorado também nos games.

Para isso, a empresa criou uma história onde somos inseridos em um circuito de futebol de rua. Sob a pele de Revvy, você tem a missão de levar o time de Jayzinho para o campeonato mundial. O nome da equipe, inicialmente, é J10, mas é possível personalizá-lo depois. Aqui, no nosso caso, fizemos o CTStreet e criamos um avatar que pode ser personalizado do jeito que você quiser, com toda a vestimenta, altura e estilo de jogo, além de uma árvore de habilidades que é alimentada com a progressão dos torneios.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Você também pode optar por controlar apenas o seu jogador ou comandar o time todo dentro das partidas, o que é recomendável, pois o nível da IA do jogo é bem desafiador. À medida que você avança na carreira e vai deixando sua equipe mais famosa, pode ir recrutando jogadores do mundo todo, sejam eles avatares desconhecidos ou personalidades da própria história do game ou do mundo do futebol de rua.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Nas quadras

Enredo à parte, vamos ao que interessa, que é a bola rolando. Bem, no caso do VOLTA Football, o mais importante é como fazê-la rolar. Os comandos para este modo de jogo são muito mais soltos do que os do futebol de campo, ou seja, você tem à disposição muito mais dribles, fintas e firulas que, normalmente, não podem ser feitas no esporte tradicional.

Mas não se engane: ficar apenas firulando e com malabarismos não vai te fazer ganhar os jogos, principalmente quando estamos jogando o FUTSAL, que é uma das modalidades mais competitivas — e divertidas — do game e que nos remete ao clássico FIFA 99, que tinha esse modo. Para deleite dos mais fissurados, também há o modo "Temporadas" no VOLTA. Ou seja: dá para desafiar o pessoal mundo afora também no freestyle.

Mais vivo do que nunca

As mudanças na jogabilidade de FIFA 20 foram bem sensíveis. Talvez pela engine Frostbite ter adotado o VOLTA Football, isso pode ter se refletido também no jogo do campo, mas de maneira bem positiva. Logo de cara, percebemos que a bola está muito mais viva do que em FIFA 19, com curvas e quiques como nunca vistos na franquia. A finalização, outro ponto de enorme crítica no jogo do ano passado, também está mais precisa e realista, mesmo que com a técnica de "chute calibrado" mantida.

Foi possível detectar, também, uma melhora significativa da IA, tanto na defesa quanto no ataque, bem como os goleiros, que estão muito mais seguros do que no jogo antecessor. O domínio de bola, que na Demo parecia fácil demais, foi um pouco "nerfado" para a versão final, trazendo mais desafio quando queremos tornar o jogo mais acelerado. Essa situação pode ser vista em trocas de passe onde a velocidade é fundamental para furar retrancas.

Ainda no campo das melhorias, finalmente a EA modificou as faltas e pênaltis em FIFA 20. Tal qual já havíamos experimentado na demonstração, as bolas paradas mais diretas e que são vitais para resolver partidas estão muito mais realistas e menos confusas de serem executadas. É basicamente a mesma técnica para ambas as situações, com o jogador tendo de apertar o botão de chute para definir a força da pancada e a precisão, não apenas mirando sem muita noção, como nos dois últimos FIFA. As curvas na bola também foram aprimoradas e estão mais claras de serem executadas, sobretudo por aqueles jogadores mais talentosos. As faltas táticas, por sua vez, permanecem do mesmo jeito. Ah, e claro, é bom lembrar que no VOLTA Football as faltas não são tão vitais e não receberam essa mudança, ou seja, a visão para as bolas paradas é com a câmera comum do jogo — menos nos penais.

Mudanças sutis nos demais modos

Como dissemos acima, FIFA 20 é o jogo mais completo da franquia em todos os tempos. Essa alcunha foi obtida, claro, com a volta do modo freestyle e a manutenção de uma "história", tão bem-sucedida com o extinto Modo Jornada. Os modos Carreira e FIFA Ultimate Team receberam mudanças simples, mas que podem ser consideradas positivas.

Fala bem de mim, professor!

No Carreira, um dos modos mais jogados por fãs casuais de FIFA, o desafio já era algo que havia sido corrigido no FIFA 19, com a adição da dificuldade "Ultimate", que deixa o jogo realmente difícil. Em FIFA 20, porém, as adições foram ainda mais sutis, mas que fazem diferença na maneira como você gerencia a sua equipe.

Agora, por exemplo, a relação entre o técnico e seus jogadores ficou ainda mais próxima e, para quem joga o modo Carreira apenas como técnico, sentirá essa diferença de maneira mais aguda. Logo de cara, assim que você assume sua posição como comandante, o capitão da equipe te dá as boas-vindas. Ao fazer isso, uma série de três respostas é oferecida e, dependendo da escolha feita, a relação entre você e seu elenco pode azedar ou decolar. Eu sou do diálogo, então meu papo com Alessandro Florenzi, capitão da Roma desde que Danielle De Rossi foi embora, foi muito bom. Mas, como sabemos, o futebol é um esporte onde o ambiente é fundamental.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Pensando nisso, a EA colocou as coletivas antes e após as partidas. Nelas, traçamos panoramas e tentamos nos livrar das perguntas cabeludas da imprensa que, quase sempre, têm a ver com os jogadores. Por isso, muito cuidado com o que vai falar por lá, pois cada resposta pode fazer com que sua moral com o elenco suba ou abaixe. E, acredite, isso afeta demais no jogo, pois a IA se comporta de maneira diferente quando a equipe está confiante e em uma boa sequência. Isso, aliás, é algo que sempre ocorreu em FIFA, mas que agora parece ainda mais perceptível.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

As entrevistas, por sinal, ficaram bem legais, mas poderiam ser melhores. Com o idioma do campeonato local sendo falado de maneira bem clara pela assessora de imprensa do clube, mas não pelos jornalistas e pelo treineiro, que apenas movimenta os lábios.

As demais características de gestão do clube permanecem as mesmas, mas parecem mais criteriosas, sobretudo nas negociações com jogadores. Agora é necessário ceder mais do que o normal para conseguir certas peças para o time.

E, por fim, algo mais estético, mas que é divertido: agora é possível personalizar seu avatar como treinador, mas com muito mais opções de vestimenta, fisionomia e gênero. Algo que já poderia fazer parte do game há muitas edições, né?

A Galinha dos Ovos de Ouro

O FIFA UItimate Team, ou simplesmente FUT, segue com sua fórmula vencedora, mas com algumas adições. A novidade principal é um sistema de Temporadas parecido com o que encontramos em Fortnite e demais jogos de tiro, que coloca o jogador para cumprir metas e, assim, conquistar Pontos de Experiência. Outra novidade são os Amistosos. Neles, você pode jogar contra seus amigos em partidas descompromissadas e com algumas regras alteradas, bem parecido com o que fora implementado no Jogo Rápido tradicional no FIFA 19.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Uma mudança também estética, mas bem interessante, é que agora há a possibilidade de personalizar novos elementos da equipe, como Mosaico 3D, Comemoração e Estádio. Esses itens podem ser adquiridos apenas com o progresso natural do modo FUT.

Perda de licenças

Para os mais detalhistas, vale o aviso: não temos algumas equipes em FIFA 20. Além de boa parte dos times brasileiros, que possuem exclusividade com PES 2020, algumas equipes da Europa tomaram o mesmo rumo, como Juventus-ITA e Manchester United-ING. Foi uma estratégia interessante da Konami abrir a carteira e trazer esses reforços de peso. Mas, se o jogo não melhorar, não adianta. Mais perfeccionistas, porém, irão reclamar.

Ainda no campo nas licenças, campeonatos como a Premier League e a Champions League seguem impecáveis em sua ambientação. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da Série A, da Itália, ou da Bundesliga, da Alemanha, que carecem de capricho.

Estagnação gráfica e animações ruins

Algo que não chega a incomodar no FIFA, mas que é de se salientar é a parte gráfica. Com a mudança para a Frostbite o jogo diminuiu a vantagem (umas das poucas) que PES tinha, que era justamente a parte gráfica. Embora o jogo seja, sim, bonito, as animações, quando próximas, são das piores entre os jogos de esporte. Com relação à mecânica, poucas mudanças também. Muito embora em certas situações, como no jogo de corpo, a sensação de peso seja mais realista, o que é muito bom.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Os estádios, por sua vez, estão ótimos e mais polidos, por assim dizer, com mudanças bem sutis, como nas placas de publicidade e os torcedores, que parecem mais "vivos".

Conexão discada, parça?

Uma das maiores críticas com relação à franquia FIFA é o modo online — e parece que elas continuarão. Muito embora os modos de jogo sejam dos mais legais, sobretudo o popular Temporadas e o cada vez maior Pro Clubs, a qualidade da conexão e a ausência de um pareamento melhor torna a experiência irritante em dados momentos.

Por vezes, caímos com jogadores que pareciam possuir conexão discada tamanho o engasgo. A EA bem que poderia privilegiar conexões melhores e proporcionar que essas pessoas se enfrentassem sempre que possível, pois a qualidade da conexão é fundamental para proporcionar um jogo mais agradável e próximo da realidade.

Grata evolução

Analisar um jogo de futebol é das tarefas mais gostosas e polêmicas. Um esporte que mexe com a paixão de milhões, seja na vida real, seja na virtual, merece que tenhamos toda a atenção do mundo.

A EA fez um bom trabalho em FIFA 20. Ainda bem. Com PES sendo uma alternativa inferior e com o FIFA 19 cheio de falhas, a publisher estava com o nível de responsabilidade gigantesco para esta temporada. Mas, depois de boas horas de jogo, dá para dizer que a lição de casa foi bem feita.

Com a volta do futebol freestyle e com mudanças sensíveis na jogabilidade, FIFA 20 deixa bem claro qual é o melhor jogo de futebol do momento, além de ser o mais completo.

FIFA 20 está disponível para Xbox One, PlayStation 4, PC e Nintendo Switch. No Canaltech, o jogo foi analisado no Xbox One X adquirida pelo redator.

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