Análise | FIFA 19 não parece um jogo novo, mas ainda é o melhor do gênero

Por Rafael Rodrigues da Silva | 05 de Outubro de 2018 às 09h59
EA Sports

Existem apenas três certezas em nossa vida terrena: que iremos morrer, que iremos pagar impostos e que teremos um novo jogo da série FIFA todo ano.

FIFA 19 é a mais nova versão da franquia de futebol que é lançado de maneira anual desde 1993. O jogo é o 25º título da longeva franquia de jogos de futebol, mas, apesar do número nos fazer pensar que essa deveria ser uma edição comemorativa especial com uma série de novidades, infelizmente há poucas coisas realmente novas nele.

“Legado” para todos?

(Captura de tela: Rafael Rodrigues da Silva)

A EA anunciou no ano passado que os consoles da geração anterior (PlayStation 3 e Xbox 360) receberiam apenas as chamadas “versão Legado” do FIFA 19, que são versões caça-níqueis que literalmente vendem o mesmo jogo anterior (no caso, FIFA 18) com as escalações e uniformes atualizados. Mas, ainda que essa versão seja exclusiva dos consoles antigos, em um primeiro momento parece que FIFA 19 para PlayStation 4 e Xbox One é, também, uma "versão Legado" do título anterior.

Ainda que o jogo pareça não ter mudado nada desde o FIFA 14, quem joga consegue notar algumas mudanças sutis no gameplay que não são perceptíveis por quem apenas assiste. Domínio e movimentação dos jogadores com a bola, precisão dos passes e velocidade dos dribles são mudanças que, para quem está assistindo, não mudam em nada, mas fazem grande diferença (para melhor ou pior) àqueles que estão com o controle na mão. Mas não temos nem mesmo essa sensação ao jogar o novo FIFA, que desde o primeiro toque na bola parece não ter nenhuma diferença no gameplay em relação ao título anterior. Isso não quer dizer que essas diferenças não existem; elas apenas são ainda mais sutis do que o normal.

Entre as novidades implementadas pelo jogo estão o Sistema de Toque Ativo (que torna mais real as ações de domínio e chute da bola), o Dynamic Tactics (que permite modificar a abordagem tática do time sem precisar parar o jogo, de um modo que lembra o que era utilizado pela finada série FIFA Manager), as Batalhas 50/50 (que utilizam os atributos dos jogadores para determinar o resultado de uma disputa de bola) e as Finalizações Calibradas (que criam uma barra de finalização bem parecida com a existente na série NBA Live).

Câmera do Tiro de Meta está ligeiramente mais afastada do que no FIFA 18, o que facilita lançamentos e ajuda a evitar aquelas saídas de bola no pé do adversário (Captura de tela: Rafael Rodrigues da Silva)

O problema é que todas essas mudanças são muito específicas e não são introduzidas aos jogadores por nenhum tipo de tutorial. Por exemplo, as Finalizações Calibradas não trocaram o comando de chute à gol habitual, então quem já está acostumado a segurar o botão para definir a força da batida pode passar um bom tempo sem perceber esse novo modo, já que não há nenhum tipo de instrução dentro das partidas que explique como ele funciona. Essa falta de instrução também atrapalha até mesmo aqueles que optam pelo novo modo de chute: assim como acontecia nas cobranças de pênalti do FIFA 14, esse modo de finalização cria uma “barra” que se movimenta na cabeça do atacante, e o jogador precisa “parar” ela no local correto para que a finalização saia certa. Funciona como uma máquina de caça-níquel: caso pare a barrinha na parte correta, a finalização será gol independente da habilidade do goleiro, e o erro pode implicar em jogadas de dar vergonha à família. O problema é que não há uma sinalização clara de qual é esse “lugar correto” para a finalização, o que torna o uso do modo muito mais questão de sorte do que de habilidade.

As demais melhorias são, muitas vezes ,“invisíveis” para aqueles que não tentam fazer nada avançado e se atém ao básico do jogo. O Sistema de Toque Ativo só é facilmente identificado por aqueles que estão acostumado a receber a bola e já sair driblando com o analógico direito; quem prefere um jogo de toque de bola (tipo eu), onde nenhum jogador fica com ela durante muito tempo e está sempre a movimentando, é bem possível jogar campeonatos inteiros sem nem notar a diferença existente entre os domínios de bola no FIFA 18 e no FIFA 19.

O mesmo problema ocorre com o Dynamic Tactics: se você não é daqueles jogadores que já estão acostumados a utilizar o direcional digital para mudar as táticas do time durante o jogo, há grande possibilidade de jogar campeonatos inteiros sem nem descobrir que isso existe, já que não há nenhuma dica visual durante o jogo que indique a possibilidade de alterar as táticas sem pausar o jogo. Já o Batalhas 50/50 é aquele tipo de alteração que faz mais diferença para os programadores do que para os jogadores: por mais que a EA defenda que agora há um algoritmo fenomenal que irá levar em conta todas as características de cada jogador individualmente durante as disputas de bola, o que o jogador vê é a mesma coisa de qualquer outro jogo de futebol, onde dois jogadores vão pra disputa, um ganha e fica com a bola, e fim.

Jogue a seu modo

As principais novidades do FIFA 19 estão no modo Jogo Rápido, que dá mais opções para aqueles que gostam de jogar uma partida com os amigos no churrasco de fim de semana.

Além de amistosos (o único tipo de jogo possível para o modo Jogo Rápido até o FIFA 18), agora também é possível escolher jogar partidas de ida e volta (onde valerá a somatória dos resultados para definir o vencedor) ou uma série de melhor de 3 ou melhor de 5, que será perfeita para decidir quem definitivamente é o melhor jogador de FIFA da turma.

Regras alternativas são o grande destaque do FIFA 19

O Jogo Rápido também permite a criação de partidas com “regras alternativas”, que permitem ao jogador mudar as regras oficiais de uma partida de futebol e criar disputas que se aproximam das peladas batidas em campinhos improvisados com o gol marcado por dois chinelos. Assim, é possível jogar partidas onde gols de foram da área valem mais, onde apenas gols feitos de cabeça ou em voleios/bicicletas contam, onde ganha o primeiro a fazer uma certa quantidade de gols ou até mesmo jogar uma partida clássica de rua, “sem regras”, onde não há faltas, cartões ou impedimentos. Mas o modo novo mais divertido é o Sobrevivência, que pode ser considerado o battle royale da série FIFA. Nele, cada vez que alguém marcar, o time que fez o gol tem um jogador aleatório (não necessariamente aquele que marcou o gol, mas qualquer jogador do time que não seja o goleiro) expulso, o que torna as partidas muito mais imprevisíveis e divertidas do que um jogo de futebol comum — principalmente quando se está jogando contra um amigo.

Talvez o único problema do jogo rápido seja uma falha em aceitar as configurações do jogador. Então, mesmo que se modifique no menu geral os controles para o modo alternativo (quadrado chuta, bola cruza) e se desligue o Treinador Fifa (opção que mostra uma lista de comandos possíveis ao lado do jogador que está com a bola), ao entrar no Jogo Rápido essas mudanças são ignoradas e todo o menu de personalização é resetado para as configurações padrão. Isso aparenta ser algum tipo de falha no jogo (já que nunca existiu em nenhum outro jogo da série) e possivelmente será resolvido em algum patch futuro.

Danny Williams tem a história mais interessante neste capítulo de A Jornada (Captura de tela: Rafael Rodrigues da Silva)

Quantos aos outros modos de jogo, não há praticamente nenhuma mudança do que foi apresentado no título anterior. O modo Carreira é exatamente igual ao do FIFA 18 (até as mensagens de e-mail recebidas são as mesmas), e a única diferença é que a ferramenta de busca de jogadores agora possui opção para encontrar aqueles em fim de contrato, que podem ser contratados sem a necessidade de pagar taxa de transferência. No modo Ulltimate Team também não há nada novo comparado ao anterior, sendo exatamente o mesmo do FIFA 18, mas com mais cartas de jogadores, principalmente craques do passado.

O modo A Jornada, que é vendido como o grande diferencial da franquia desde o FIFA 17, também não apresenta praticamente nada em termos de novidade. O jogo continua seguindo a história dos três personagens do título anterior (os irmãos Alex Hunter e Kim Hunter, e o parceiro de infância de Alex, Danny Williams). Este capítulo de A Jornada traz uma história de redenção para os três personagens, todos precisando ganhar um título importante para mudar o rumo de suas carreiras. A história carrega muito menos drama do que nos títulos anteriores, e, como a única novidade é um sistema de mentoria com alguns craques do Real Madrid (time onde Alex joga neste momento da história), ela se torna bem menos interessante do que a contada nos jogos anteriores.

(Captura de tela: Rafael Rodrigues da Silva)

A grande “cereja do bolo” do FIFA 19 é a presença de modo oficial da Champions League, que pela primeira vez não é uma marca exclusiva da concorrência. A Champions é o sol pelo qual todos os outros modos de jogo orbitam, e, além de ser o troféu principal de A Jornada, também está presente nos modos Jogo Rápido e Carreira, além de ter o seu próprio modo de jogo separado.

No que condiz a campeonatos e ligas, a adição da Liga Chinesa é uma ótima notícia (principalmente para quem joga no modo Carreira como técnico, sendo uma liga onde é possível achar jogadores bons e não muito caros para qualquer posição do campo), mas a falta da Copa do Mundo feminina é algo que pesa contra o jogo — até porque ela já está presente durante a história de Kim Hunter em A Jornada. A torcida é que a EA faça com ela o mesmo que fez com a Copa do Mundo masculina ano passado, soltando um patch que criou um novo modo de jogo todo dedicado à ela, mas ainda não há nenhuma informação divulgada sobre se a empresa tem mesmo esse plano.

Igual e ainda bom

FIFA 19 pode ser uma decepção para aqueles que esperavam uma grande melhoria em comparação com o jogo anterior. As mudanças são sutis e, em maior parte, ele parece mais um patch de atualização do FIFA 18 do que propriamente um jogo novo. Isso não quer dizer que esteja ruim.

FIFA 19 ainda é o melhor jogo de futebol disponível para quem gosta do gênero, com o maior número de ligas e jogadores do mundo todo — além de ser o único que também dá espaço para o futebol feminino. Além disso, as mudanças efetuadas no Jogo Rápido o tornam, talvez pela primeira vez, uma opção realmente divertida para se jogar naquele churrasco de fim de semana quando todo mundo já tomou umas e outras, e as partidas com regras alternativas possuem potencial para ser o ponto alto de qualquer reunião entre amigos. As mudanças podem ser sutis e quase imperceptíveis num modo geral, mas isso não impede que FIFA 19 ainda seja a principal opção para quem realmente gosta de um bom futebol.

FIFA 19 está disponível para PlayStation 4, PayStation 3, Xbox One, Xbox 360, Nintendo Switch e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado no PlayStation 4 com cópia digital gentilmente cedida pela EA.

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