Análise | Call of Duty Modern Warfare é o melhor jogo de toda a série

Por Rafael Arbulu | 30 de Outubro de 2019 às 10h53
(Captura de Imagens: Rafael Arbulu/Canaltech)

As expectativas já eram altas depois de nossa prévia com o modo multijogador, mas Call of Duty: Modern Warfare não apenas surpreende por ser um jogo bem melhor do que o que já esperávamos, mas também por mostrar que, às vezes, o caminho certo para o sucesso no mercado gamer é retirar recursos.

Desde Advanced Warfare, em novembro de 2014, a franquia Call of Duty se motrava cada vez mais, digamos, “inchada”: elementos de jogabilidade que foram inseridos sem qualquer razão e que não faziam a menor diferença estando presentes ou ausentes eram comuns, o que contribuiu muito para que o jogo fosse mal recebido pela crítica e público. Paralelamente à série Black Ops, que tem uma pegada mais obscura e voltada a retratar os horrores da guerra em si, aquele jogo destoava tanto da marca Call of Duty que serviu como símbolo de que a Activision havia perdido totalmente o controle.

Aqui, isso não acontece: com o desenvolvimento do icônico estúdio Infinity Ward, Modern Warfare traz a série de volta ao realismo com uma jogabilidade simples, porém altamente intuitiva. É o Call of Duty que fãs longevos de Call of Duty queriam, ao mesmo tempo em que consegue abraçar novos “recrutas” em um esquema de jogo que não prioriza veteranos, mas contempla a participação de todos.

Começando o jogo com uma missão simples, para aclimatar o gamer à jogabilidade, Modern Warfare busca inserir as explicações dos comandos e movimentos dentro do contexto da ação que se desenrola na tela: sem essa de dedicar uma fase exclusivamente para um tutorial improvisado. Aqui, as ações são explicadas rapidamente na tela, como uma reação ao que acontece: atirar da cobertura, devolver granadas arremessadas, a serventia das granadas de luz, tiroteio no escuro… Tudo está devidamente contextualizado e sem engodos desnecessários, sem tratar você como bobo. Você é um soldado de elite: o jogo vai reconhecê-lo como tal.

Essa ideia de inserir as mecânicas de gameplay dentro de um aspecto contextualizado do jogo é permeada por todo o Modern Warfare. Isso é bastante interessante por dois motivos — o primeiro, por deixar a experiência menos artificial. Ao utilizar-se da sua progressão para lhe ensinar a seguir com a partida, a Activision conseguiu criar elementos que fazem jus à aventura vivida de forma intuitiva e coesa. É muito bom ver a variação de modos de jogo transicionar entre si de maneira tão fluída.

A segunda é porque Modern Warfare tem bastante coisa para mostrar: ao contrário do que se possa pensar, esse shooter não é só um shooter — é claro que o tiroteio contra inimigos é o foco, mas a introdução de elementos de variação ajudam a quebrar, favoravelmente, um ritmo que poderia tornar-se muito entediante, muito rápido. No meio de uma missão, seu personagem pode pedir por apoio aéreo, o que muda automaticamente os controles para o drone de combate, disparando mísseis à distância. Em outro momento, você deve guiar, pela câmera, uma refém até a saída, em um complexo empresarial tomado por terroristas. Noutro você deve iluminar com sinalizadores um campo para enxergar tropas inimigas e miná-las com um rifle de longo alcance. São várias pequenas mudanças que comprimem uma experiência completa.

Único ponto negativo em Call of Duty: Modern Warfare é o enredo. Embora a Activision tenha dito no passado que sua ambição para esse título seria usar elementos fortes de narrativa para criar um elo com o jogador, essa é uma missão malsucedida. O time dos mocinhos é constituído de soldados americanos, britânicos e uma célula de resistência árabe, que combatem inimigos russos. Os heróis são liderados pelo icônico Capitão John Price, que os fãs mais veteranos devem conhecer bem. Também há referências a Nikolai e John “Soap” Mactavish, embora o primeiro seja um personagem auxiliar não controlável e o outro sequer apareça, sendo apenas mencionado.

Fora isso, os outros personagens falham em criar uma conexão com o jogador, que é submetido a um enredo clichê de patriotismo americano antiterrorista. A ideia é aproximar Modern Warfare de Black Ops, mas a execução não foi lá essas coisas. O final de Modern Warfare, evitando os spoilers aqui, é beeeeeem clichê e falha em surpreender, coisa que Black Ops fez muito bem. Neste novo jogo, falta muita empatia com os personagens, o que pode desapontar quem vem acompanhando a cobertura do título, a considerar que o time de desenvolvimento da Infinity Ward declarou por diversas vezes o desejo de contar uma boa história. Não deu.

No aspecto multijogador, a experiência que tivemos com o beta em setembro resume bem o que a versão completa traz: a jogabilidade complementa elementos do modo principal (Campanha), trazendo uma alta capacidade de imersão e abraçando jogadores casuais e veteranos no mesmo campo, em pé de (semi-)igualdade. Isso porque é óbvio que quem já entende de jogos de tiro vai sair com vantagem, mas o próprio jogo se encarrega de mostrar os melhores caminhos para que novatos se familiarizem e corram atrás do prejuízo.

São diversos modos em um multiplayer competitivo até 64 jogadores, quase aproximando Modern Warfare de um battle royale, não fossem as condições específicas de vitória, como guardar esse ou aquele posto do time inimigo, capturar itens na base inimiga e trazê-los de volta à sua, ou os já clássicos modos de combate direto, divididos em equipe contra equipe. É uma experiência bem sólida, embora os recursos de campo, como o uso de drones com mísseis e ataques aéreos, acabem enfraquecendo a experiência em alguns momentos, por parecerem algo demasiadamente desnivelado. Para a minha sorte, em quase todas as partidas multiplayer que joguei houve um consenso de não usar esses recursos, priorizando o combate mais direto.

Ah, sim. Tem crossplay, embora já tenhamos confirmado isso várias vezes, então é bom que você antecipe jogar contra pessoas de todas as plataformas. Mas o bom é que, ao contrário dos seus predecessores, Modern Warfare abandonou o modelo de “Passe de Temporada”, preferindo disponibilizar conteúdos multijogador de graça, aprimorando a experiência. Troca-se o encarecimento gratuito de um produto pela experiência completa de jogo para os fãs. Ótima jogada da Activision.

A Activision acertou em cheio ao refazer Modern Warfare de forma mais realista, trazendo um foco em tornar a experiência verdadeiramente próxima às situações originais de combate: mesmo no modo mais fácil, você não é uma “esponja de balas” e pode morrer com dois ou três tiros. Uma bala que lhe atinge já o deixa desorientado, priorizando a cobertura. Rambo não teria lugar aqui.

Não é o melhor jogo do ano, claro, mas certamente é um que merece menções bem honrosas e é um ótimo recomeço para uma das mais lendárias franquias de tiro dos jogos.

Call of Duty Modern Warfare está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia cedida gentilmente pela Activision.

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