Análise: A beleza entristecedora de Sim City

Por Felipe Santana Felix

A franquia criada pela Maxi em 1989 não tinha mais nenhum lançamento desde 2003, há dez anos. Em 2012, quando a desenvolvedora anunciou o novo Sim City para 2013, junto à sua engine glassbox, muitos dos novos e velhos gamers se apaixonaram pelas inúmeras possibilidades que poderiam existir em um simulador de cidades com tamanha beleza.

Agora, com o game no mercado, o que vemos é um produto artisticamente lindo, porém raso, que poderia ser muito mais do que é. E que mesmo sendo um jogo legal decepciona por estar muito aquém da experiência fornecida por seus antecessores.

Bellezza

A Glassbox, engine utilizada em Sim City, é com certeza magnifica. Tudo é graficamente estonteante, vibrante e cheio de vida - desde a tela de entrada aos elementos que envolvem estatísticas, redes de esgoto, água e outras vias submersas das cidades. Até mesmo as interações dos Sims são conquistadoras, seja demonstrando alegria, raiva ou fazendo pedidos em simies.

A trilha sonora, instrumental, completa a experiência artística, tornando Sim City agradável e cativante. O mesmo vale para os efeitos sonoros envolvendo construções, sirenes de policia, fogos de artificio e os diversos outros sons metropolitanos que passam longe de constituir poluição sonora.

Assim como em Spore, a Maxi consegue fazer com que os jogadores se sintam felizes ao ter contato com os elementos audiovisuais do game. De tão belo, o jogo chega a hipnotizar e quase disfarça suas grandes falhas.

Por trás da máscara

O que acontece nesse relançamento da série é o seguinte: não é de hoje que a Eletronic Arts vem buscando abrangência em seu portfólio de jogos e, após 10 anos sem um novo título para a franquia, a ideia em torno de Sim City foi a da revitalização democrática, provavelmente com o objetivo de atingir tanto os velhos jogadores como a rajada de novos gamers que se divertiam com as mecânicas de administração de colheita feliz.

Com esse pensamento abrangente, os desenvolvedores precisavam tornar o produto o mais democrático possível, para que todos fossem capazes de jogar e ter uma experiência divertida e positiva. Por isso, muitos dos elementos de administração presentes anteriormente foram simplificados, transformando o gerenciamento da megalópole e dos recursos públicos algo totalmente superficial.

Se avaliarmos a dinâmica de evolução atrelada ao game e as opções de administração financeira, tudo é simples e pouco variável.

As escolhas para evitar uma falência ou corte de custos são sempre as mesmas, não há nenhuma possibilidade de implementar vias de metrô ou serviços públicos mais especializados. Tudo isso acaba transformando Sim City em um arcade de gerenciamento de cidades e não um simulador.

Para muitos, isso pode parecer um pecado. Como Sim City se rebaixou a um grau de jogabilidade tão superficial, a ponto de se parecer com um social game? Porém, o problema do jogo não é tornar a coisa simples, e sim só ser simples.

Não existem níveis de dificuldade com maior complexidade administrativa ou terrenos maiores para a construção das cidades. Um bom exemplo dessa falta de complexidade são os malabarismos financeiros que giram em torno de redução e aumento de impostos dos moradores, prestadores de serviços e indústria, além de gastos com a cidade e aquisição de pequenos empréstimos. Grande parte do orçamento é baseado em cálculos simples que podem ser solucionados sempre com a desativação de alguma instituição governamental.

Há também a obrigatoriedade de se jogar online, que poderia ser interessante, na mente dos desenvolvedores. Mas no final das contas isso traz inúmeros problemas, não apenas pela interação negativa de muitos jogadores, mas também por fatores técnicos. Se foi ruim para a Blizzard quando impôs essa obrigação em Diablo 3, imagina para a EA que não está acostumada a fornecer este tipo de serviço?

Triste decepção

Vamos esquecer os problemas iniciais com servidores, que impossibilitaram inúmeros jogadores do mundo inteiro de ter uma boa experiência com o game e levar em consideração a falta de profundidade nas mecânicas do jogo.

Sim City tinha tudo para ser um dos títulos mais fantásticos de 2013. Após 10 anos do último lançamento da franquia, a maioria podia imaginar que a jogabilidade, extremamente lapidada, faria par perfeito com as potentes GPUs atuais. Porém, o que pode ser visto é um avanço gráfico e um "retrocesso" de mecânicas.

Em um primeiro contato é difícil não se apaixonar e fascinar-se por Sim City. Ele é belo, atraente e sua proposta inicial parece fantástica, mas após um dia debruçado sobre ele é impossível não se irritar com a jogabilidade superficial, limitações de espaço e a obrigatoriedade de estar sempre conectado.

Jogar Sim City é entrar naqueles relacionamentos de amor à primeira vista, por uma bela pessoa sem nenhum conteúdo. A paixão nos primeiros dias é intensa, mas depois não existe nada além da mesmice, falta de novidades e da certeza de que a coisa irá acabar em breve, deixando poucas boas lembranças.

Se o game pode melhorar ou não com alguns DLCs não podemos ter certeza, mas quem em sã consciência lançaria um produto que ainda precisa de melhorias?

Notas:

Arte: 95

Audio: 95

Jogabilidade: 48

Conjunto: 65

Nota Final: 75

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