Entrevista: "Bagaço" conversa sobre o ano de 2013 para o competitivo de LoL

Por Felipe Felix e Paulo Freire | 25.02.2013 às 09:10 - atualizado em 18.09.2013 às 20:00

Após nossa visita à Riot Games na California, também relatamos nossas impressões do escritório da desenvolvedora e entrevistamos Vladmir Cole, Diretor Internacional de Comunicação da empresa, e Ryan "Morello", Chefe da equipe de Design.

Durante a viagem, um de nossos acompanhantes foi o Gerente Sênior de eSports da Riot Brasil, Bruno "Bagaço" Vasone. Organizando competições há mais de 10 anos, o cara possui experiência até mesmo com grandes torneios, como o World Cyber Games (WCG).

Desde abril de 2012, Vasone planeja, organiza e auxilia eventos que acontecem no Brasil, como GO4LoL e o Intel Extreme Masters (IEM), além de avaliar toda a cena nacional para implementar o melhor plano de crescimento para o cenário competitivo de League of Legends.

Na entrevista, pudemos conversar bastante sobre esta face competitiva do game e conseguimos informações interessantes sobre possíveis planos da empresa, como bootcamps e até mesmo uma liga sul-americana. Bagaço também aproveitou o papo para dar uma leve cutucada na postura dos jogadores brasileiros e adiantar a possibilidade de uma equipe brasileira participar do mundial do game em 2013.

Sonho da vaga própria

Desde que a Riot Games chegou ao Brasil, jogadores profissionais sonham com uma vaga no torneio mundial de LoL, mas até o momento nada em relação a esse sonho foi divulgado. No entanto, Bagaço informou que a oportunidade de chegar ao campeonato mundial em 2013 será dada, e o caminho poderá ser mostrado ainda no primeiro semestre, talvez em Março.

"Nós fazemos questão de que exista um caminho para os jogadores brasileiros, mas ainda não sabemos como ele será. De repente alguma classificatória contra times turcos ou da América Latina, já que existe a possibilidade de lançarmos sidores para outros paises este ano", explica. Questionado se os times brasileiros já têm condição de enfrentar equipes internacionais, Bagaço mostra incerteza. "Pode ser que sim, mas em termos de estrutura, a coisa no Brasil ainda é recente. Mesmo assim, este ano pode ter algum brasileiro na disputa. Vamos dar as ferramentas para os times nacionais. Eles terão um caminho claro para a classificatória e até mesmo a taça. Então posso dizer que chegar lá, ou não, vai depender apenas deles, da postura da galera e de como vão realizar seus treinamentos", afirma.

Avaliando esta declaração, podemos concluir que as equipes brasileiras terão uma chance para disputar o torneio mundial este ano, não com vaga garantida para o servidor BR, mas por meio de uma classificatória que irá testar o nível de nossos times em relação a outros de países onde o LoL também é recente. Então, tudo irá depender de habilidade.

Segundo ponto: parece que alguns de nosso vizinhos irão ter servidores próprios em um futuro próximo e isso é positivo para fomentar competições continentais locais. Com mais equipes internacionais próximas, é possível intensificar a cena em nosso continente.

league of legends


Cenário Brasileiro

A atual cena de eSports lembra, em alguns aspectos, a época vivida por muitos dentro de lan houses, na era de ouro do Counter-Strike. Embora o espírito competitivo, paixão e dedicação dos envolvidos sejam bem parecidos, o contexto geral é extremamente diferente e nosso país nunca esteve em um momento tão importante para que a modalidade ganhe força.

Torneios como a IEM, realizada este ano em sua segunda edição brasileira, movimentam pessoas de diversas faixas etárias, entusiastas ou apenas acompanhantes, para um espetáculo saudável, competitivo, profissional e internacional.

Hoje, League of Legends é o principal jogo deste cenário. Em 2012, movimentou cerca de 6 milhões de dólares e é jogado por mais de 32 milhões de pessoas. Com esses números, o game se consolida como peça fundamental da modalidade. E, por aqui, a Riot Games é a empresa que resolveu vestir a armadura, levantar a bandeira e ir para a batalha que poderá decidir o futuro do cenário competitivo nessa terra de samba e pandeiro.

É nesse cenário que Bagaço está envolvido. O profissional concorda que a estamos vivendo o melhor momento para este tipo de esporte, mas afirma que o foco da Riot é bem mais do que uma fomentação momentânea. "Nosso maior objetivo é desenvolver o cenário em longo prazo. Colocar o Brasil no cenário mundial de forma fixa. Não apenas fomentar o momento. É preciso construir a base, realizar campeonatos profissionais e amadores também, para dar a novos jogadores a oportunidade de evoluir. Além disso, é preciso incentivar novos shout casters e mais streams".

Outro ponto ressaltado foi o profissionalismo dos envolvidos na cena: para Bagaço, os atletas precisam de postura. Ele recorda que em 2012 a empresa fez um investimento alto no campeonato brasileiro realizado na BGS, e as duas equipes colocadas na primeira posição, VTI Ignis e VTI Nox – patrocinadas pela LG –, não existem mais. Nas palavras dele: "se pensarmos no investimento de marca da equipe e até mesmo do patrocinador – LG –, o retorno de ser campeão e vice foi tecnicamente nulo, pois não há mais como ostentar o título”.

Ano passado, quando nossa equipe esteve na BGS, descobrimos que o investimento feito pela Riot foi superior a 1 milhão de reais em estande, equipamentos de transmissão e custos organizacionais.

No mesmo evento, a empresa demonstrou seu desejo de profissionalizar o eSport e anunciou uma liga com os oito melhores times brasileiros. Este sistema de disputas entre as melhores equipes da região já existe na Europa e Estados Unidos, porém o desenvolvimento de uma liga nacional com este formato ainda não teve início.

Questionado sobre isso, Bruno afirma que a empresa tem a intenção de replicar o modelo no Brasil, mas que ainda não sabe se isso será possível. "O país ainda não está pronto para isso, antes é preciso ter uma base bem estruturada e nós vamos criar um modelo sólido para que tudo ocorra de forma profissional, com estrutura e tudo o que for necessário para os atletas", diz. "Em relação à Liga, no ano passado era possível elencar os oito melhores times do Brasil, mas hoje não. Para não falar besteira, até posso listar o top 8 brasileiro, mas os times são muito instáveis e não podemos ter certeza se tudo estará idêntico daqui a 5 meses, por exemplo”, complementa. Um bom exemplo disso foi a atual dança de jogadores antes da IEM, que acarretou no surgimento de novos times e mudanças completas de equipes já existentes. Nessa brincadeira, a única equipe que se manteve firme foi a Pain, patrocinada pela Razer.

Para resolver este problema, Bagaço afirma que a Riot está conversando com os managers, oferecendo suporte para elaboração de contratos, auxilio com patrocinadores e treinamentos de PR para melhorar a postura dos atletas.

De acordo com ele, as iniciativas da empresa não representam novidade no Brasil – o eSport já existia antes da vinda da empresa –, mas são uma tentativa de acelerar o processo de desenvolvimento da modalidade, dando mais visibilidade e força a essa cultura. Por isso, eventos como o bar Riot, onde comunidades se juntam para assistir a jogos de LoL em todo país, recebem atenção da empresa.

Campeonato - League of Legends

Shoutcasters brasileiros na BGS2012


Exportando brasilidade

A IEM mostrou que o brasileiro começa a adorar este novo tipo de esporte. Em uma conversa rápida que tivemos com Phreak, um dos grandes shoutcasters de LoL, a grande menção foi o barulho da torcida. De forma franca, o americano explicou por que achou os brasileiros fantásticos: "em todo lugar do mundo a torcida é alegre e vibrante; a grande diferença do brasileiro é que em todo lance há excitação. No momento que a torcida começa a vibrar, é certo que alguma coisa vai acontecer”.

Essa nova "moda" da grande força para o país receber eventos mundiais e até mesmo o campeonato mundial de LoL é empolgante. Segundo Bagaço, se a coisa continuar como está, é extremamente possível que o evento ocorra em nosso país um dia. Mas, enquanto isso não acontece, teremos raras chances de ver uma equipe brasileira jogando contra uma sul-coreana, americana ou europeia.

Segundo ele, a Riot planeja alguns intercâmbios que devem funcionar como bootcamps para as equipes brasileiras, mas a frequência disso não será tão alta devido a estratégias da empresa.

"Queremos que confrontos internacionais ocorram, mas com baixa frequência. É óbvio que seria muito bom para os times brasileiros treinarem com as equipes já consolidadas da cena, porém isso diminuiria a tensão de fazer um ou dois eventos internacionais no ano. Queremos que quando isso aconteça, seja um choque. O choque de estilos é algo muito instigante para nós".

O que há depois da curva

O ano de 2012 representou a grande curva para o cenário competitivo de LoL no Brasil, e em 2013 poderemos ver o que virá depois dela. Possivelmente, o caminho poderá ser vislumbrado após março. Com o servidor nacional já em atividade (fornecendo ping verde) e o tribunal com previsão de implementação até o meio do ano, a pauta da Riot para focar o eSport fica mais livre.

Se os envolvidos na cena querem, realmente, visualização e profissionalização, este é o ano. Mesmo não sabendo como a desenvolvedora pretende estruturar o caminho para os times brasileiros chegarem ao grande torneio mundial, a certeza de que ele existirá é uma grande notícia que pode consolidar ainda mais nosso país neste esporte.

A conclusão é que, em pouco tempo, os entusiastas poderão ver a história ser feita, desde que existam pessoas com vontade, desejo e coragem para investir em um cenário mais que promissor. Com isso, talvez, poderemos ver mais momento como o de KeydBenQ e o único time que venceu um jogo contra os campeões da IEM Brasil, o time sul-coreano LGIM.