Review | Kuba Mali e Kuba Disco, fones brasileiros com almas de gigantes

Por Luciana Zaramela | 31 de Março de 2020 às 14h20
Luciana Zaramela/Canaltech

Recentemente, nós contamos a história de duas empresas brasileiras que vivem áudio e conquistaram seu espaço em um mercado de nicho movidas pelo mesmo combustível: paixão à música. Uma delas, a Xtreme Ears, está há mais de dez anos com raízes fincadas no Brasil e atende o público profissional — ou seja, artistas, produtores e profissionais da mídia — e os audiófilos. Já a Kuba Áudio, apesar de mais jovem, também tem se mostrado forte no segmento, tendo começado com um produto voltado ao público geral/audiófilo e, agora, abrindo o leque para chegar, por meio de parcerias, aos profissionais.

Nós entrevistamos o CEO da empresa, Leonardo Drummond. Do ponto de vista mercadológico, a startup merece destaque pela persistência de seus fundadores ao correr atrás de um sonho: transformar um hobby, a paixão pela música, em produto e "meter as caras" em um mercado de difícil adaptação para novos entrantes. Pois a Kuba conseguiu: seus fundadores se especializaram, levaram a ideia adiante, participaram de rodadas de investimento e hoje se consolidaram, com um DNA totalmente brasileiro, trazendo um portfólio de produtos que começou tímido, com apenas um modelo de fone de ouvido disponível, e em pouquíssimo tempo já ganhou novos produtos — inclusive feitos em parcerias com grandes nomes do nicho de áudio profissional no Brasil.

Agora, chegou a hora de analisarmos os produtos mais recentes da Kuba. O Canaltech já provou da fruta em 2018, quando nós testamos o Kuba Disco — e aprovamos, aliás. A Kuba nos enviou dois modelos: o Disco, que é uma versão "atualizada" da que testamos há dois anos, e o Mali, modelo TWS que está, atualmente, em pré-venda. Falaremos um pouco sobre cada um a seguir.

Kuba Disco

Caption

A análise nua e crua do Kuba Disco você pode conferir aqui, e o que temos em mãos é o mesmo fone, o mesmo modelo, porém com alguns elementos atualizados. Todos os Kuba Disco à venda no site da empresa receberam um upgrade no cabo, nas almofadas e no arco, o que dá um "up" na qualidade do fone, mas não muda em nada sua sonoridade. Ou seja… se a empresa atualizou e melhorou todo o seu estoque de Discos, não há como você comprar um novo com peças antigas. O produto foi melhorado (e vem sendo constantemente incrementado com peças melhores, à medida que o tempo passa) a fim de entregar mais durabilidade, com peças de qualidade melhor.

E isso é legal nesse modelo. Porque além de Made in Brazil, o Disco é um fone desmontável, com peças intercambiáveis; se uma almofada rasga, você pode comprar outra no site. Se quer trocar a cor do arco, também pode comprar um arco separado e desmontar o fone todinho em casa, você mesmo, para depois montá-lo de novo. Tudo, absolutamente tudo nesse modelo é assim, e segundo a empresa, a ideia por trás desse conceito é acabar com a frustração de comprar um fone novo a cada seis meses. Todos os principais componentes são substituíveis.

Peças substituíveis/intercambiáveis do Disco (Foto: Kuba/Divulgação)


Na nossa opinião, das mudanças incrementais do "novo" Disco, o principal destaque vai para o cabo. Agora ele vem mais reforçado, mais espesso e com conectores e controles de qualidade superior. O arco feito de bambu ganhou uma repaginada, com a parte acolchoada ficando menos "bojuda" e mais próxima da cabeça, embora visualmente as diferenças sejam quase imperceptíveis. As almofadas estão mais "recheadas" e ganharam um novo material sintético de revestimento. Isso aumenta a sua durabilidade e torna o uso do Disco mais confortável por mais tempo. O fone, aliás, é extremamente leve, com seus 180 g… se seu esquema é ouvir um som cabeado no seu DAC, na sua placa de áudio off-board ou até no seu celular (com conector de 3,5 mm), a escolha é certa. Agora, se você estiver se perguntando sobre uma versão Bluetooth do Disco, a resposta é: calma, ela vai chegar. Está nos planos da empresa, mas por enquanto, o modelo disponível é cabeado e analógico/passivo.

O som permanece excelente. Apesar do exterior aparentar ser muito plástico, a qualidade dos materiais empregados pela Kuba no Disco resulta em uma experiência de áudio muito, mas muito boa. O fone é circunaural, fechado, traz drivers revestidos de titânio e ímas de neodímio — características encontradas em fones topo de linha vendidos lá fora. Isso, aliado ao exclusivo controle de graves, presente em cada uma das conchas, torna o fone um modelo interessantíssimo para sua experiência sonora.

Se você olhar bem, vai perceber um controle tipo slider no topo de cada concha. Esse controle vai para frente e para trás, tendo no centro sua posição neutra. Partindo desse ponto "zero", ao empurrar o slider para frente, você vai sentir um incremento no ganho de frequências graves, e pode fazer isso em tempo real. Como o fone é bilateral e o que define seus canais é o cabo (que direciona o áudio da esquerda e da direita, L e R, respectivamente). Então, apesar do curso do slider ser simétrico, tanto faz se você deslizar o controle todo para frente, ou todo para trás. O efeito é o mesmo e deve ser "contado" a partir do marco zero até o final do curso em uma só direção.

No detalhe, o controle de graves sobre a concha (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Áudio

Ouvindo um tema do Spyro Gyra chamado Breakfast at Igor's, que tem uma riquíssima gama instrumental (guitarras, metais, contrabaixo e bateria em peso), chegamos à conclusão de que o Disco traz versatilidade de sobra. Você gosta de um perfil mais voltado à linha neutra? É só centralizar o controle de graves e ouvir suas músicas com mais neutralidade — e nesse tema, isso foi essencial para entregar a riqueza das frequências médias desse fone. Pianos, contrabaixo (que, aqui, é bem "estaladão" à la Jaco Pastorius), metais, guitarras (base e solo), metais (sax, trompete, trombone)... tudo é patada. Ao girar o controle de graves ao máximo, você tem mais ganho nas frequências baixas e sua música soa mais gorda, mas sem perfurar os tímpanos com pressão de fones "modernosos". Temos aqui graves que se moldam à sua necessidade, ao seu humor do dia. Você pode estar em uma vibe mais "pancada" e querer passar o dia ouvindo hip hop, por exemplo. Ou você pode dar um "calmante" para os graves e curtir uma onda bem mais MPB enquanto trabalha. Você que manda. E seja como for, nada de atropelos, deslocamentos para o fundo da mixagem ou sub-ênfase: os graves são precisos e bem detalhados, independente da posição do controle.

Os graves podem ter o destaque do controle individual, mas foram os médios que mais nos agradaram. Essa frequência é traiçoeira, porque é ela que dá a liga necessária para que a música soe… musical. Sem sobreposição de outras faixas e bem subdividida, a gama média do Disco traz presença na medida certa, com equilíbrio em relação a graves e agudos. Em Peg, do Steely Dan, em que Donald Fagen passa a música inteira fazendo uma base de piano elétrico com um leve phaser, a gente percebe isso muito bem. Principalmente quando entram os backing vocals competindo na mesma gama de frequência. Embora a maioria prefira ouvir com os graves no máximo, deixar o controle em posição neutra nos agradou bastante para "degustação" dos médios.

Agudos também merecem destaque, porque criam uma ambiência fantástica, independente da posição do controle de graves, e são bastante brilhantes nesse modelo, dando boa dose de detalhamento a cada instrumento, em particular. O Disco, realmente, é um fone bem mais voltado a apreciadores e audiófilos que ouvintes casuais. Em Xeque-Mate (Parte 1), um tema do gigante brasileiro ContinenTrio, os agudos se mostraram muito bem alocados — embora em outras músicas, podem se sobressair. Essa gravação tem uma bateria bem sincopada e com hi-hats o tempo todo, pratos de ataque bem posicionados… talvez levemente recuados, e no Disco, os agudos agradaram bastante — principalmente durante o solo de contrabaixo com um filtro que cortou totalmente a ressonância e deixou médios e agudos em evidência. Apesar de termos usados mais jazz do que nunca para falar do Disco, queremos deixar claro que ele funciona muito bem além do jazz, claro. Rock, pop, tango, clássica, MPB, samba, choro, bossa… tudo cai bem.

Ajuste do arco no Kuba Disco (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Specs: 

  • Design: circunaural (over-ear) fechado
  • Peso: 180g
  • Comprimento do cabo: 1,5m
  • Conector: TRS 3,5mm de 3 polos
  • Impedância Nominal 32Ω
  • Sensibilidade 113dB/mW
  • Potência máxima suportada (pico): 30mW
  • Potência máxima suportada (contínua): 20mW
  • Resposta de frequência: 20Hz-20Khz
  • Diâmetro do falante: 40mm

Preço e onde comprar

Atualmente, o Disco está disponível para venda em duas cores: com arco em acabamento natural de madeira, ou todo preto, no site oficial da Kuba, por R$ 699 — em até 6x sem juros.

Kuba Mali

Kuba Mali, o TWS que está atualmente em pré-venda (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

O pequenino Mali é a versão compacta e discreta da Kuba para ouvintes que levam mobilidade a sério. Apesar de levar a assinatura brasileira, o projeto destes in-ears não é 100% nacional. O fone é baseado em um projeto chinês e leva componentes importados, com algumas modificações que fazem do modelo um legítimo e exclusivo Kuba. São in-ears totalmente sem fios, ou seja, o famoso TWS. Ele vem em um estojinho revestido com tecido acinzentado que também serve para recarregar os fones enquanto você descansa seus ouvidos. Com um visual que transita entre o do Sony WF-1000x e o do Jabra Elite 75t e um case que se parece bastante com o do Sennheiser Momentum, pequenino e revestido por um charmoso tecido de trama acinzentada, o Kuba Mali é bem ergonômico, firme, leve e, principalmente, discreto. Ele se adapta bem ao canal auditivo e vem com três opções de ponteira (P, M e G) para você escolher.

Com diafragma revestido de carbono, o Mali tem uma assinatura sonora bem interessante, detalhada e equilibrada. Não é uma versão reduzida do Disco porque, aqui, são duas propostas diferentes — os graves são bem encorpados e os agudos recebem menos ênfase. É um fone para o dia a dia, voltado ao público jovem, que precisa de mobilidade e não abre mão de ouvir suas músicas com qualidade e boa definição de graves.

Ele se conecta individualmente ao seu dispositivo Bluetooth. E o legal é que o pequeno traz um chipset Qualcomm de última geração, equipado com Bluetooth 5.0 para estabilidade e qualidade de conexão com os dispositivos mais recentes — o que dá ao modelo um alcance de até 10 m da fonte sem gargalos, sem repiques e sem latência, nem mesmo para vídeos.

Miudinho, leve, bonitinho, discreto e bom de serviço: este é o Mali (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

A bateria do fone promete um dia inteiro de música (20 horas) quando totalmente carregada. E o case, com a carga cheia, serve para carregar seu Mali até quatro vezes. Na parte externa, os controles intuitivos trazem praticidade para quem quer controlar as músicas que ouve diretamente pelo fone, sem tirar o celular do bolso. Há um botão físico na superfície externa de cada um, que permite que você dê play, pause e pule faixas, além de atender e recusar chamadas. Aliás, outra coisa legal do Mali é que ele conta com um microfone omnidirecional de cada lado, o que te ajuda a conversar ou enviar áudio no celular sem precisar ficar elevando o tom da sua voz, mesmo em ambientes um pouco mais movimentados.

Como é um fone desenvolvido para ser um parceiro de atividades diárias, o Kuba Mali traz, também, certificação IPX5, ou seja: resistência ao suor. Isso significa que, sim: você pode correr e malhar com ele, mas evitando chuva.

Nos nossos testes, desempenhamos mais as atividades do dia a dia, além de treinos indoor. O Mali foi parceiro para trabalhar, sair de casa, caminhar na rua, passear com o cachorro, organizar a casa, pedalar na bike ergométrica, fazer compras no shopping, assistir a vídeos no celular e conversar ao telefone, funcionando super bem.

Áudio

Um modelo TWS completamente pensado, projetado e fabricado no Brasil, embora tenha componentes importados, é, no mínimo, interessante. Ao colocar o Mali à prova, nós não nos surpreendemos. Dada a qualidade e o cuidado que a Kuba aplicou na fabricação artesanal de seu Disco, já esperávamos algo semelhante do Mali, muito embora sejam propostas completamente distintas e um fone não tenha absolutamente nada a ver com o outro. Tendo isso em mente, partamos para uma breve análise do áudio desse TWS.

Sonzeira or not sonzeira? (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Para testar os graves, vamos de In My Secret Life, de Leonard Cohen. Tanto bumbos, quanto contrabaixo e o vocal gutural do cantor soaram bem precisos na região de graves e médio-graves do Mali. Sem saturações, aliás. O contraste dos graves com os agudos neste fone gera uma ambiência bem bacana para a maioria dos estilos musicais, já que o modelo traz um perfil mais V-Shaped, trazendo para frente as frequências graves e agudas e deixando médios mais recuados em questão de ganho. Temos, aqui, graves muito aveludados e bastante presentes — o que vai agradar, principalmente, o público mais jovem, que curte mais peso nessa frequência.

Os médios, apesar de mais recuados, não foram esquecidos e têm seu lugar ao sol no Mali. Em Georgy Porgy, do Toto, a gente percebe isso muito bem: os vocais, os pianos, os efeitos de teclado e a guitarra semi-acústica aparecem com precisão, muito embora você preste mais atenção na linha de contrabaixo e na levada da bateria que nesses outros instrumentos — a menos que estejam solando. E aí, tanto o vocal quanto os instrumentos solistas chegam com uma definição muito gostosa de se ouvir.

Agudos: ouvindo incansáveis vezes 50 Ways to Leave Your Lover, do Paul Simon, a conclusão que tiramos é que os agudos são bem, bem legais mesmo. Não é aquela coisa cansativa, maçante, pungente, mas tem abertura suficiente para trazer os detalhes da voz de Paul quando se aproxima do microfone, bem como da percussão que é trabalhada em toda a faixa e nas notas do violão, inclusive. O contraste dos agudos da percussão com os graves do surdo são bastante interessantes nessa faixa, e o Mali entregou isso com bastante equilíbrio e clareza. A voz de Paul Simon passeia entre os médios e médios agudos, e é legal sentir como o fone trata consoantes como o S, o P e o B. No refrão, a levadinha "groove" de acordes mais agudos na escala do violão e os backing vocals chegam bem detalhados aos ouvidos, mas sem soprar demais nos tímpanos, sem cansar.

Specs

  • Falante: dinâmico com diafragma revestido de carbono
  • Design: intra-auricular (in-ear)
  • Microfone: omnidirecional
  • Resposta em frequência: 15Hz a 22kHz
  • Versão Bluetooth: 5.0
  • Suporte a aptX: Sim
  • Grau de resistência: IPX5
  • Bateria dos earbuds: 50 mAh
  • Bateria da case: 500 mAh

Preço e onde comprar

O Kuba Mali, atualmente, está em pré-venda no site da Kuba, e deve chegar também ao e-commerce através da Amazon.

A reserva do Mali garante o modelo por R$ 599 e frete grátis — o que você pode pagar via boleto ou cartão em até 6x sem juros.

Os fones da Kuba valem a pena?

Dada a nossa experiência como testadores de fones e amantes de áudio, não encontramos um motivo para colocar defeitos do estilo "deal breaker" nos fones da marca. Embora seja uma empresa jovem, os produtos se mostraram maduros o suficiente para conquistar espaço no mercado, em uma jornada que, apesar de difícil, está mostrando resultados.

Na nossa opinião, o disco é um fone hors concours, porque é inovador em vários sentidos. Feito no Brasil, com peças intercambiáveis e trazendo controle exclusivo de graves, o modelo une características de fones muito caros, de marcas bastante famosas no mundo dos audiófilos, como a Beyerdynamic e a Grado.

Kuba Mali e Kuba Disco, representantes nacionais da boa música (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

A tecnologia, o cuidado e a qualidade dos componentes que a empresa emprega em seus fones de ouvido merecem destaque. E além disso, tem aquela máxima do apoio aos negócios locais, certo? Por serem fones com DNA brasileiríssimo, vale a pena dar uma chance ao Disco ou ao Mali. São modelos bem construídos, de qualidade comparável à de fones importados famosos, por valores bastante honestos. Pelo que oferecem, nem Disco nem Mali são superfaturados e, apesar de terem propostas bastante diferentes, são fones de ouvido interessantes para se ter no setup e com valores bastante honestos.

O Disco é voltado para apreciadores que querem sentar e ouvir música, e mais nada. Até porque, por ser um fone cabeado com regulagem de graves, pode oferecer uma experiência única aos audiófilos, pela clareza de detalhes e a possibilidade de gerar um perfil mais neutralizado. E o Mali é aquele fone que mira a geração Z e os Millennials: compacto, prático, conectado, sem fios e com bateria de sobra, ideal para usar em casa, no trabalho, na academia ou em qualquer lugar, durante o dia todo. Ambos, dentro de suas propostas, oferecem uma qualidade sonora muito bacana, com assinaturas que cabem dentro de cada proposta e os tornam modelos bastante interessantes.

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